Vitamina D para atletas: 10 estudos sobre suplementação, força muscular e desempenho esportivo
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Vitamina D para atletas: o que mostram as pesquisas
A vitamina D, tradicionalmente associada ao metabolismo ósseo e à homeostase do cálcio, tem despertado crescente interesse nas ciências do esporte e na fisiologia do exercício. Nos últimos anos, evidências apontam para um papel mais amplo desse micronutriente, envolvendo a modulação da função muscular, a resposta inflamatória e a recuperação após esforços intensos.
A presença de receptores de vitamina D (VDRs) em tecidos musculares e células imunes, bem como a constatação de que a deficiência desse nutriente é comum em atletas de diversas modalidades, levaram à hipótese de que a suplementação de vitamina D poderia melhorar o desempenho físico, acelerar a regeneração tecidual e reduzir os danos induzidos pelo exercício extenuante.
Os artigos analisados neste texto incluem ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos experimentais in vivo e in vitro, abrangendo diferentes populações (atletas de elite, indivíduos recreacionalmente ativos e modelos celulares), protocolos de exercício (exercícios excêntricos, treinamentos resistidos, esportes de endurance) e regimes de suplementação (dosagens, durações e formas de vitamina D).
Ao integrar essas fontes, buscamos oferecer uma visão crítica e abrangente sobre os efeitos da vitamina D no esporte e no contexto clínico, destacando resultados consistentes, controvérsias e lacunas na literatura.

Vitamina D no esporte: mecanismos de ação muscular e desempenho
Metabolismo da vitamina D
A vitamina D existe em duas formas principais: vitamina D2 (ergocalciferol) e vitamina D3 (colecalciferol).
Ambas podem ser obtidas por via dietética, mas a D3 também é sintetizada endogenamente na pele, a partir da exposição à radiação ultravioleta B, por meio da conversão do 7-dihidrocolesterol em pré-vitamina D3 e, subsequentemente, em vitamina D3. Essa molécula é então hidroxilada no fígado, formando 25-hidroxi-vitamina D [25(OH)D], o principal marcador do status de vitamina D no organismo, e posteriormente nos rins, gerando 1,25-diidroxivitamina D [1,25(OH)₂D], a forma biologicamente ativa.
A ligação da 1,25(OH)₂D ao receptor de vitamina D (VDR), presente em núcleos celulares, desencadeia respostas genômicas e não genômicas. No tecido muscular, esses mecanismos regulam processos como síntese proteica, homeostase do cálcio, proliferação e diferenciação celular, além de influenciar vias inflamatórias e oxidativas.

Vitamina D e função muscular
Evidências apontam para uma relação entre níveis adequados de 25(OH)D e melhor desempenho físico. A expressão de VDRs em miócitos sugere que a vitamina D atua diretamente na modulação da contratilidade, possivelmente por:
- Regulação do cálcio intracelular – essencial para o acoplamento excitação-contração;
- Estimulação da síntese proteica – promovendo hipertrofia e reparo muscular;
- Modulação de fibras musculares – estudos indicam aumento no diâmetro de fibras do tipo II (rápidas), importantes para força e potência;
- Atividade antiapoptótica e regenerativa – favorecendo a proliferação de células satélites e a diferenciação miogênica após lesão.

Efeitos imunomodulatórios e anti-inflamatórios
Além da função contrátil, a vitamina D exerce ação imunomoduladora. Estudos relatam que a 1,25(OH)₂D:
- Reduz a expressão de citocinas pró-inflamatórias (como IL-6 e TNF-α);
- Aumenta a produção de citocinas anti-inflamatórias (como IL-10);
- Ativa macrófagos e promove fagocitose eficiente;
- Atenua o estresse oxidativo, diminuindo espécies reativas de oxigênio (ROS) geradas durante o exercício intenso.
Esses efeitos podem explicar a redução de marcadores de dano muscular e a melhora na recuperação funcional observada em alguns estudos após suplementação de vitamina D.

Evidências clínicas e experimentais da suplementação de vitamina D no esporte
A seguir, integramos os achados de todos os artigos revisados sobre a suplementação de vitamina D em atletas, organizando-os em categorias temáticas para facilitar a análise crítica.
Suplementação de vitamina D e força muscular
Diversos ensaios clínicos investigaram se a suplementação de vitamina D melhora a força e a potência muscular, especialmente em atletas.
- Chiang et al. (2017) revisaram seis ensaios clínicos e constataram que a vitamina D3, mas não a D2, esteve associada a ganhos modestos de força (1,37–18,75%), especialmente em indivíduos com deficiência prévia. No entanto, os resultados foram heterogêneos, e alguns estudos não encontraram diferenças significativas entre grupos suplementados e placebo.
- Zhang et al. (2019), em metanálise com oito RCTs e 284 atletas, mostraram que a suplementação melhorou a força dos membros inferiores (SMD = 0,55; p = 0,01), mas não teve impacto consistente na força de membros superiores nem na potência muscular avaliada por testes de salto vertical.
Esses achados sugerem que a vitamina D para atletas pode beneficiar grupos musculares mais solicitados em exercícios de potência e membros inferiores, mas os efeitos globais ainda são modestos e possivelmente dependem de outros fatores, como estado nutricional basal, tipo de exercício e dose administrada.

Recuperação pós-exercício e prevenção de lesões
A lesão muscular induzida por exercício excêntrico ou de alta intensidade resulta em elevação de marcadores séricos como creatina quinase (CK), lactato desidrogenase (LDH) e mioglobina (Mb), além de dor muscular tardia (DOMS) e redução temporária de força.
- Barker et al. (2013) mostraram que 4.000 UI/dia de vitamina D por 35 dias aumentaram a recuperação da força isométrica em 8% após 24h, além de reduzir ALT e AST (enzimas hepáticas também associadas a lesão muscular), sem impacto significativo na percepção de dor.
- Bello et al. (2021), em revisão sistemática e metanálise, encontraram redução consistente na inflamação com suplementação, mas resultados inconclusivos sobre melhora funcional e dor muscular.
- Rojano-Ortega & Berral-de la Rosa (2022) sugerem que doses ≥ 2.000 UI/dia por pelo menos 1 semana atenuam dano oxidativo e inflamação, acelerando a recuperação, embora a dose ótima ainda não esteja estabelecida.
Em conjunto, os dados indicam que a suplementação de vitamina Dpode reduzir o dano tecidual e acelerar a regeneração, mas os efeitos clínicos perceptíveis, como menor dor ou retorno mais rápido ao desempenho máximo, ainda carecem de comprovação robusta.

Estudos experimentais: evidências mecanísticas
Modelos in vitro e in vivo oferecem insights sobre os mecanismos pelos quais a vitamina D pode atuar na regeneração muscular.
- Owens et al. (2015) mostraram que a suplementação de vitamina D aumentou a migração e fusão de mioblastos humanos após lesão mecânica, favorecendo a formação de miotubos maiores e mais resistentes.
- A vitamina D também reduziu apoptose celular e aumentou a expressão de marcadores miogênicos, sugerindo um efeito direto na regeneração e hipertrofia muscular.
- Modelos animais confirmam melhora na proliferação de células satélites e na força muscular pós-lesão com suplementação adequada.
Esses dados experimentais sustentam os achados clínicos de melhora parcial na recuperação, embora a translação para o desempenho esportivo humano ainda requeira cautela.

Efeitos imunomodulatórios e inflamatórios da suplementação de vitamina D
Vários estudos destacaram a capacidade da vitamina D de regular a resposta inflamatória pós-exercício:
- Redução de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α);
- Aumento de citocinas anti-inflamatórias (IL-10);
- Modulação da atividade de macrófagos e linfócitos T;
- Atenuação do estresse oxidativo e da produção de radicais livres.
Tais efeitos podem explicar a redução de CK, LDH e mioglobina relatada em alguns ensaios, bem como a melhora em parâmetros bioquímicos de recuperação.
Dose, duração e forma de suplementação da vitamina D para atletas
A literatura revisada apresenta grande variabilidade nos protocolos de suplementação de vitamina D:
- Doses variaram de 600 a 10.000 UI/dia;
- Duração de 4 dias a 6 meses;
- Formas utilizadas: D2 ou D3, diárias ou semanais.
A maioria dos estudos indica melhor eficácia com suplementação de vitamina D3, doses ≥ 2.000 UI/dia e suplementação diária em vez de semanal ou mensal. Entretanto, a resposta individual depende do nível basal de 25(OH)D, peso corporal, exposição solar e genética.

Diferenças entre indivíduos deficientes e não deficientes
Um achado recorrente é que indivíduos com deficiência de vitamina D (< 20 ng/mL) apresentam maiores benefícios da suplementação em termos de força, recuperação e inflamação, enquanto atletas com níveis adequados nem sempre mostram ganhos adicionais.
Isso sugere um efeito teto, no qual apenas corrigir a deficiência já otimiza processos fisiológicos limitados pela baixa disponibilidade da vitamina.
Resultados convergentes na literatura
Ao integrar todas as evidências, alguns pontos mostram consenso relativo sobre a vitamina D para atletas:
- Correção da deficiência é fundamental – baixos níveis de 25(OH)D associam-se a pior desempenho, maior risco de lesões e recuperação mais lenta.
- Benefícios mais claros em membros inferiores – possivelmente pela maior solicitação funcional e massa muscular envolvida.
- Efeitos anti-inflamatórios consistentes – redução de CK, LDH e citocinas pró-inflamatórias observada em diversos estudos.
- Segurança da suplementação – doses até 10.000 UI/dia por alguns meses não mostraram toxicidade, embora a maioria dos efeitos ocorra entre 2.000 e 5.000 UI/dia.

Controvérsias e inconsistências
Apesar dos achados positivos, persistem divergências na literatura sobre a vitamina D no esporte:
- Impacto na dor muscular tardia (DOMS): muitos estudos não encontraram redução significativa da dor, mesmo com menor inflamação.
- Efeitos sobre potência muscular: resultados mistos em testes como salto vertical ou sprints.
- Heterogeneidade metodológica: diferenças em protocolos de exercício, populações (atletas vs. sedentários), doses e formas de suplementação dificultam comparações diretas.
- Níveis ótimos de 25(OH)D: ainda não há consenso se valores > 30 ng/mL são suficientes ou se atletas deveriam manter níveis > 50 ng/mL para benefícios máximos.
Vitamina D para atletas: implicações clínicas e recomendações práticas
Com base nas evidências, recomenda-se:
- Avaliar níveis séricos de 25(OH)D em atletas, especialmente em períodos de menor exposição solar (inverno) ou em modalidades indoor.
- Suplementar indivíduos deficientes com doses entre 2.000–5.000 UI/dia de vitamina D3, ajustando conforme o peso corporal e a resposta sérica.
- Associar suplementação a estratégias nutricionais e de treinamento já consolidadas para recuperação, como ingestão proteica adequada, sono e periodização do treino.
- Monitorar parâmetros bioquímicos para evitar toxicidade, embora rara nas doses estudadas.

Lacunas e direções futuras de pesquisa
Para avançar no conhecimento sobre a suplementação de vitamina D em atletas, são necessárias:
- Padronização de protocolos de suplementação e exercício;
- Ensaios clínicos de longa duração avaliando desempenho em competições reais;
- Estudos mecanicistas integrando dados moleculares, funcionais e clínicos;
- Estratificação por sexo, idade e modalidade esportiva, pois as necessidades podem variar;
- Análise de polimorfismos genéticos que afetam o metabolismo da vitamina D e a resposta ao exercício.
Conclusão
A suplementação de vitamina D emerge como estratégia promissora para otimizar a função muscular e a recuperação pós-exercício, especialmente em indivíduos com deficiência vitamínica prévia.
Os mecanismos propostos incluem modulação da inflamação, redução do estresse oxidativo, melhora na regeneração miogênica e possível aumento da força muscular, particularmente em membros inferiores.
Entretanto, a heterogeneidade metodológica e os resultados divergentes quanto à dor muscular, potência e desempenho global indicam que a suplementação de vitamina D não deve ser vista como recurso ergogênico isolado, mas sim como parte de uma abordagem multifatorial de saúde e performance.
Em síntese, garantir níveis séricos adequados de 25(OH)D parece essencial para atletas e indivíduos fisicamente ativos, não apenas pela saúde óssea, mas também pelo potencial de acelerar a recuperação muscular e modular respostas inflamatórias, contribuindo indiretamente para melhor desempenho esportivo e menor risco de lesões.

Referências:
- Barker, T., Schneider, E.D., Dixon, B.M. et al. Supplemental vitamin D enhances the recovery in peak isometric force shortly after intense exercise. Nutr Metab (Lond) 10, 69 (2013). https://doi.org/10.1186/1743-7075-10-69
- Bello, H. J., Caballero-García, A., Pérez-Valdecantos, D., Roche, E., Noriega, D. C., & Córdova-Martínez, A. (2021). Effects of Vitamin D in Post-Exercise Muscle Recovery. A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients, 13(11), 4013. https://doi.org/10.3390/nu13114013
- Bello, H.J.; Caballero -García, A.; Pérez-Valdecantos, D.; Roche, E.; Noriega, D.C.; Córdova-Martínez, A. Effects of Vitamin D in Post-Exercise Muscle Recovery. A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients 2021, 13, 4013. https://doi.org/10.3390/ nu13114013
- Caballero-García, A., Córdova-Martínez, A., Vicente-Salar, N., Roche, E., & Pérez-Valdecantos, D. (2021). Vitamin D, Its Role in Recovery after Muscular Damage Following Exercise. Nutrients, 13(7), 2336. https://doi.org/10.3390/nu13072336
- Chiang, C. M., Ismaeel, A., Griffis, R. B., & Weems, S. (2017). Effects of Vitamin D Supplementation on Muscle Strength in Athletes: A Systematic Review. Journal of strength and conditioning research, 31(2), 566–574. https://doi.org/10.1519/JSC.0000000000001518
- Dahlquist, D. T., Dieter, B. P., & Koehle, M. S. (2015). Plausible ergogenic effects of vitamin D on athletic performance and recovery. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 12(1). https://doi.org/10.1186/s12970-015-0093-8
- Daniel Rojano‐Ortega;Francisco J. Berral‐de la Rosa (2022). Effects of vitamin D supplementation on muscle function and recovery after exercise‐induced muscle damage: A systematic review. PRINCIPLES OF NUTRITION AND DIETETICS, 36:1068–1078. DOI: 10.1111/jhn.13084
- Mielgo-Ayuso, J., Calleja-González, J., Urdampilleta, A., León-Guereño, P., Córdova, A., Caballero-García, A., & Fernandez-Lázaro, D. (2018). Effects of Vitamin D Supplementation on Haematological Values and Muscle Recovery in Elite Male Traditional Rowers. Nutrients, 10(12), 1968. https://doi.org/10.3390/nu10121968
- Owens, D. J., Sharples, A. P., Polydorou, I., Alwan, N., Donovan, T., Tang, J., Fraser, W. D., Cooper, R. G., Morton, J. P., Stewart, C., & Close, G. L. (2015). A systems-based investigation into vitamin D and skeletal muscle repair, regeneration, and hypertrophy. American journal of physiology. Endocrinology and metabolism, 309(12), E1019–E1031. https://doi.org/10.1152/ajpendo.00375.2015
- Tuma, C.; Schick, A.; Pommerening, N.; Braun, H.; Thevis, M. Effects of an Individualized vs. Standardized Vitamin D Supplementation on the 25(OH)D Level in Athletes. Nutrients 2023, 15, 4747. https://doi.org/10.3390/ nu15224747
- Zhang L, Quan M, Cao Z-B (2019) Effect of vitamin D supplementation on upper and lower limb muscle strength and muscle power in athletes: A meta-analysis. PLoS ONE 14(4): e0215826. https://doi.org/10.1371/journal. pone.0215826