Uso recreativo de drogas no Carnaval: o que médicos precisam reconhecer rapidamente
O uso recreativo de drogas no Carnaval, frequentemente associado ao consumo combinado de álcool e outras substâncias, representa um importante fator de sobrecarga dos serviços de emergência, exigindo reconhecimento rápido de intoxicações, manejo sindrômico e estratégias de redução de danos.
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Drogas no Carnaval e impacto nos serviços de emergência
O Carnaval brasileiro é um dos maiores eventos de massa do mundo e impõe desafios específicos aos serviços de saúde, especialmente às unidades de urgência e emergência.
Realizado em um período marcado por altas temperaturas, aglomerações prolongadas, consumo excessivo de álcool e mudanças temporárias no comportamento da população, existe um aumento expressivo de atendimentos relacionados ao uso recreativo de drogas no Carnaval.
Reconhecer rapidamente os sinais clínicos associados à intoxicação por drogas no pronto-socorro e ao uso combinado de substâncias é fundamental para reduzir complicações graves e mortalidade evitável.
O tema ganha ainda mais relevância no mês de fevereiro, em consonância com o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado em 20 de fevereiro. A data reforça que o uso nocivo de substâncias psicoativas permanece um importante problema de saúde pública, que se intensifica em contextos festivos.
O uso recreativo de drogas no Carnaval, que inclui o consumo episódico excessivo de álcool, associado ao uso de drogas estimulantes, ocorre frequentemente em ambientes quentes, com esforço físico intenso, privação de sono e hidratação inadequada — fatores que potencializam a toxicidade das substâncias e dificultam o reconhecimento precoce dos quadros clínicos.

Principais substâncias envolvidas nos atendimentos no Carnaval
Entre as drogas mais frequentemente associadas a atendimentos no Carnaval destacam-se o álcool, o MDMA (ecstasy), a cocaína, as anfetaminas e a cannabis, muitas vezes utilizadas de forma combinada.
O álcool, apesar de socialmente aceito, continua sendo a substância mais envolvida em casos de emergência, seja por intoxicação isolada, seja pelo uso concomitante com outras drogas. A associação entre álcool e estimulantes aumenta significativamente o risco de depressão respiratória, arritmias, trauma, alterações do nível de consciência e morte súbita.
O MDMA é particularmente preocupante em eventos de música e dança, comuns no Carnaval. Sua ação serotoninérgica está associada a hipertermia grave, desidratação, hiponatremia, convulsões, rabdomiólise e falência orgânica múltipla.
O risco é ampliado pelo aumento da concentração da substância nos comprimidos e pela presença de adulterantes tóxicos, como a para-metoxianfetamina (PMA). Tentativas de compensar o calor com ingestão excessiva de líquidos podem levar a hiponatremia grave, quadro potencialmente fatal.
A cocaína e as anfetaminas, por sua vez, são potentes estimulantes do sistema nervoso central e estão associadas a hipertensão grave, arritmias, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e sintomas psicóticos. Esses efeitos podem ocorrer mesmo em usuários jovens, sem doenças cardiovasculares prévias, e se manifestar de forma abrupta no pronto-socorro.
A cannabis, embora frequentemente percebida como de baixo risco, também está associada a ansiedade aguda, ataques de pânico, alterações perceptivas, psicose transitória e prejuízo cognitivo, além de poder mascarar sintomas de intoxicações mais graves quando usada em associação com outras drogas.
Uso combinado de drogas e álcool: desafio clínico
Um aspecto crítico do atendimento no Carnaval é o uso simultâneo de múltiplas drogas, prática comum em ambientes festivos.
Há uma relação entre o uso de drogas ilícitas e eventos de massa, sendo que estudos mostram que grande parte dos usuários de drogas ilícitas consome álcool concomitantemente, o que aumenta o risco de eventos adversos graves. O poliuso está associado à maior incidência de alterações do estado mental, comportamento sexual de risco, violência, complicações cardiovasculares e problemas psiquiátricos.
Na prática clínica, esses pacientes frequentemente chegam ao pronto-socorro com sintomas inespecíficos, como agitação, confusão, taquicardia, hipertermia ou rebaixamento do nível de consciência. O uso combinado de substâncias pode mascarar sinais clássicos de intoxicação, exigindo do médico uma abordagem sindrômica rápida, com atenção rigorosa aos sinais vitais, avaliação neurológica frequente e alto grau de suspeição clínica.

Reconhecimento da intoxicação por drogas no pronto-socorro
O que médicos precisam reconhecer no uso de drogas no Carnaval?
Em eventos de massa como o Carnaval, o reconhecimento tardio de intoxicações graves pode ter consequências fatais, especialmente em cenários de sobrecarga assistencial. A identificação precoce de hipertermia, alterações cardiovasculares, convulsões, distúrbios hidroeletrolíticos e sinais de psicose é essencial para o manejo adequado.
Além do tratamento imediato, o atendimento representa uma oportunidade para orientação sobre redução de danos, identificação de usuários em risco e encaminhamento para acompanhamento especializado quando indicado. A atuação médica vai além da intervenção aguda, reforçando o papel dos profissionais de saúde na prevenção e na promoção da saúde.
Implicações em saúde pública do uso de drogas no Carnaval
O uso recreativo de drogas no Carnaval reflete um fenômeno complexo, influenciado por fatores culturais, sociais e ambientais. Embora muitos usuários relatem experiências positivas associadas à música, sociabilidade e prazer, as consequências negativas (especialmente para a saúde mental e cardiovascular) são relevantes e frequentemente subestimadas. Ansiedade, distúrbios do humor, alterações do sono, déficits cognitivos e episódios psicóticos estão entre os desfechos mais descritos.
Compreender os padrões de consumo, os mecanismos fisiopatológicos envolvidos e os sinais de alerta associados ao uso recreativo de drogas no Carnaval é fundamental para qualificar a assistência médica, reduzir danos e fortalecer estratégias de saúde pública, alinhadas aos objetivos do Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo.
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Referências:
Feltmann, K., Elgán, T. H., Strandberg, A. K., Kvillemo, P., Jayaram-Lindström, N., Grabski, M., Waldron, J., Freeman, T., Curran, H. V., & Gripenberg, J. (2021). Illicit Drug Use and Associated Problems in the Nightlife Scene: A Potential Setting for Prevention. International journal of environmental research and public health, 18(9), 4789. https://doi.org/10.3390/ijerph18094789