Síndrome de Compressão Medular: o desafio de preservar a autonomia e a qualidade de vida

Síndrome de Compressão Medular: o desafio de preservar a autonomia e a qualidade de vida
dor nas costas coluna

A Síndrome de Compressão Medular é uma das emergências neurológicas mais graves associadas ao câncer. Ela ocorre quando a medula espinhal é comprimida por um tumor ou fratura, causando dor intensa, fraqueza e risco de paralisia. O diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais para evitar sequelas permanentes.

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O que é a Síndrome de Compressão Medular?

A síndrome de compressão medular neoplásica consiste no conjunto de sinais e sintomas decorrentes da compressão do saco dural (estrutura que envolve a dura-máter e a medula espinhal).

Essa compressão pode resultar em déficits neurológicos graves, incluindo paralisia motora simétrica dos membros, perda sensitiva com nível sensorial definido, disfunção esfincteriana (retenção ou incontinência urinária) e, frequentemente, dor localizada na coluna vertebral correspondente ao nível da lesão.

A condição representa a manifestação inicial da malignidade em cerca de 20% dos pacientes oncológicos. Além disso, entre 3 e 5% dos pacientes que morrem por câncer (anualmente) apresentam compressão medular.

A compressão medular neoplásica é uma complicação oncológica potencialmente reversível se diagnosticada precocemente. O reconhecimento rápido dos sintomas e o tratamento imediato são essenciais para preservar a função neurológica e a qualidade de vida.

Principais causas e fisiopatologia da síndrome de compressão medular

Em aproximadamente 85 a 90% dos casos, a compressão resulta da infiltração metastática dos corpos vertebrais, com posterior colapso ósseo e invasão do canal medular. Os principais tipos de neoplasias envolvidas são: próstata (15% dos casos), pulmão (25%), mieloma (11%) e mama (7%).

A disseminação hematogênica é o principal mecanismo, permitindo que células neoplásicas alcancem o plexo venoso vertebral (plexo de Batson), uma rede sem válvulas que facilita o fluxo retrógrado durante aumentos da pressão intra-abdominal ou intratorácica, contribuindo para o estabelecimento de metástases vertebrais.

Mais raramente, a compressão medular pode decorrer de:

Massas paravertebrais que penetram o espaço epidural através do forame neural (como nos linfomas);

Crescimento tumoral primário epidural, sem acometimento ósseo evidente.

síndrome de compressão medular neoplásica

De toda forma, o crescimento tumoral nos corpos vertebrais leva à destruição óssea progressiva, instabilidade mecânica da coluna e colapso vertebral, com retropulsão de fragmentos ósseos ou tecido tumoral para o canal medular.

A compressão do saco tecal e da medula espinhal provoca danos diretos e indiretos às estruturas neurais:

Compressão mecânica das raízes nervosas e da substância branca medular;

Obstrução do plexo venoso epidural, resultando em congestão venosa e edema vasogênico;

Redução do fluxo sanguíneo local, levando à isquemia medular e desmielinização secundária;

Evolução para necrose da substância branca e cinzenta, com perda progressiva da função neuronal.

Esses mecanismos culminam em uma cascata de alterações fisiopatológicas que se manifestam clinicamente por dor intensa, déficits motores e sensitivos, disfunção autonômica (bexiga e intestino) e, na ausência de tratamento rápido, dano neurológico irreversível.

A compressão medular, portanto, reflete a interação entre invasão tumoral, colapso estrutural e comprometimento vascular, configurando uma complicação devastadora do câncer metastático avançado.

Síndrome de Compressão Medular

Sintomas, diagnóstico e exames recomendados

O processo de compressão medular maligna pode ser insidioso e gradual (evoluindo em dias ou semanas), mas, em alguns casos, ocorre de forma aguda, especialmente quando há fratura e colapso súbitos da cortical vertebral.

A coluna torácica é o segmento mais frequentemente acometido (~70% dos casos). Em seguida, a região lombar (20%) e cervical (10%). Em cerca de 30% dos pacientes, há compressão em múltiplos níveis da coluna vertebral.

O diagnóstico da síndrome de compressão medular neoplásica baseia-se em alta suspeita clínica, seguida de confirmação por imagem.

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Dor

A dor é o sintoma inicial mais comum em pacientes com compressão medular. Acomete ~95% dos pacientes, sendo o marcador mais precoce de comprometimento epidural. Pode anteceder em 4 a 5 meses outros sinais neurológicos.

Inicialmente, a dor é localizada no ponto da lesão, de caráter mecânico ou neuropático, resultante da invasão tumoral do periósteo e de tecidos moles adjacentes. Com a progressão, torna-se radicular, irradiando-se conforme o dermátomo comprometido, e costuma piorar em decúbito dorsal, ortostatismo ou durante a manobra de Valsalva.

Dor noturna ou progressiva, nova em pacientes com câncer, ou associada a déficits neurológicos deve sempre levantar suspeita de compressão medular.

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Déficits motor e sensitivo

O déficit motor inicialmente acomete a musculatura proximal, progredindo para fraqueza distal.

Lesões acima do cone medular apresentam padrão piramidal típico, com preservação relativa de alguns músculos. Lesões na cauda equina produzem fraqueza assimétrica e paralisia flácida bilateral.

A progressão costuma seguir: fraqueza → perda da marcha → paralisia.

O déficit sensitivo acomete aproximadamente 50% dos pacientes com compressão medular, geralmente abaixo do nível da compressão. Pode apresentar-se como perda sensorial em dois segmentos acima ou cinco segmentos abaixo da compressão. Parestesias e hiposensibilidade podem acompanhar a dor radicular.

Fenômenos específicos incluem:

Sinal de Lhermitte: choque elétrico irradiando da cervical aos membros ao fletir o pescoço (lesão cervical ou torácica superior).

Anestesia em sela: em lesões da cauda equina ou do cone medular.

Síndrome de Horner: em lesões torácicas superiores.

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Outros achados clínicos na compressão medular maligna

Alterações vesicais e intestinais (disfunção autonômica) ocorrem tardiamente em cerca de metade dos pacientes. Retenção urinária é comum; constipação intestinal pode preceder incontinência urinária.

Instabilidade vertebral e dor mecânica: dor apenas com movimento indica instabilidade estrutural da coluna. A instabilidade varia conforme o nível:

Cervical: dor cervical ou interescapular com movimentos de flexão/extensão/rotação.

Torácica: dor em decúbito.

Lombar: radiculopatia mecânica ao caminhar ou em carga axial.

Marcadores de gravidade clínica: sinal de Lhermitte, dor agravada em decúbito dorsal ou à manobra de Valsalva, dor radicular, dor de padrão crescente ou súbito, paresias, alterações esfincterianas e déficits sensoriais.

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Exames de imagem

Ressonância magnética (RMN) é o exame de escolha para o diagnóstico da síndrome de compressão medular. Deve abranger toda a coluna (cervical, torácica e lombossacral), sem e com contraste. Permite localizar a compressão, avaliar extensão epidural e paravertebral e identificar lesões intramedulares ou leptomeníngeas.

É importante avaliar outros segmentos da coluna, pois múltiplas lesões epidurais coexistem em cerca de um terço dos pacientes.

Tomografia computadorizada com mielografia é alternativa quando RMN é contraindicada (dispositivos cardíacos, corpo estranho metálico).

A avaliação da estabilidade da coluna (SINS) determina se há necessidade de intervenção cirúrgica para estabilização.

escore de tomita Síndrome de Compressão Medular

Graduação da compressão medular

Grau 0 = tumor confinado ao osso.

Grau 1a = tumor com extensão epidural, sem deslocamento do saco tecal.

Grau 1b = tumor com extensão epidural e deslocamento do saco tecal, mas sem contato com a medula espinhal.

Grau 1c = tumor com extensão epidural e pilar medular, sem deslocamento.

Grau 2 = tumor que desloca ou comprime a medula espinhal, sem extensão tumoral circunferencial ou obliteração do espaço liquórico.

Grau 3 = tumor com extensão epidural circunferencial e/ou que causa compressão medular grave com obliteração do espaço liquórico.

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Orientações gerais para direcionar o tratamento da compressão medular neoplásica

A escolha terapêutica deve ser individualizada, considerando:

Prognóstico e funcionalidade do paciente (avaliada pelas escalas de PPS e KPS);

Tumor primário;

Número de vértebras envolvidas;

Grau de comprometimento neurológico no momento do diagnóstico.

O tempo de instalação dos déficits também é determinante: quanto mais precoce a intervenção, maior a chance de reversão funcional. Déficits instalados há mais de sete dias tendem a ser irreversíveis.

Principais objetivos do tratamento:

Preservar ou recuperar a função neurológica;

Controlar a dor e outros sintomas;

Manter a estabilidade da coluna vertebral;

Promover conforto e qualidade de vida, respeitando os objetivos de cuidado do paciente.

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Além disso, é importante destacar:

Cuidados com constipação e retenção urinária devem ser instituídos preventivamente.

Pacientes com instabilidade vertebral devem ser mantidos com mobilização mínima e uso de órteses até avaliação neurocirúrgica.

O suporte reabilitacional e a prevenção de complicações são fundamentais:

Profilaxia de tromboembolismo venoso em pacientes imobilizados;

Cateterismo vesical quando há retenção urinária;

Regime intestinal preventivo para evitar constipação e íleo paralítico;

Fisioterapia e reabilitação conforme estabilidade e tolerância.

Nos estágios avançados da doença, o foco deve permanecer no alívio sintomático, preservação da dignidade e comunicação clara sobre os objetivos de cuidado, priorizando conforto e qualidade de vida.

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Uso de sintomáticos

O primeiro passo no manejo da compressão medular maligna é a descompressão medicamentosa imediata com corticosteroides.

Ao mesmo tempo, é fundamental imobilizar a coluna para evitar piora da compressão e lesão medular secundária, utilizando colar cervical ou colete, conforme o nível acometido.

A corticoterapia deve ser iniciada precocemente, mesmo diante da suspeita clínica, antes da confirmação diagnóstica por imagem. Os corticoides reduzem o edema vasogênico e inflamatório ao redor da medula, melhorando a perfusão e aliviando a dor. A dexametasona é o fármaco de escolha.

O controle da dor também é fundamental e deve ser prioridade desde o diagnóstico, independentemente do prognóstico. A dor tem componentes mecânicos, inflamatórios e neuropáticos, exigindo abordagem multimodal.

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Terapia definitiva

A escolha entre radioterapia, cirurgia ou abordagem conservadora para a compressão medular depende da etiologia tumoral, extensão da lesão, estado neurológico atual, tempo de evolução dos sintomas e expectativa de vida do paciente.

Radioterapia

Uma das principais modalidades terapêuticas, considerada em praticamente todos os casos. Atua controlando o crescimento tumoral, reduzindo o edema local e promovendo alívio da dor.

Em tumores radiossensíveis (linfomas, mieloma múltiplo, câncer de mama e próstata), a radioterapia pode ser curativa e evitar cirurgia. Já em tumores radioresistentes (pulmão, rim, sarcomas), a resposta tende a ser limitada, sendo necessária avaliação cirúrgica.

O esquema depende do prognóstico e da expectativa de vida:

Paliativo: 8 Gy em dose única ou 20 Gy em cinco frações – indicado para pacientes com sobrevida limitada ou baixa performance;

Convencional: 30 Gy em 10 frações (ou até 40 Gy) – para pacientes com melhor prognóstico e expectativa de sobrevida mais longa.

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Cirurgia

A indicação cirúrgica depende da estabilidade mecânica, do grau de compressão e da condição clínica do paciente. Os escores de Tokuhashi e Tomita auxiliam na decisão quanto à possibilidade e à extensão da cirurgia.

A cirurgia é mais indicada quando há compressão mecânica com instabilidade vertebral; tumores radioresistentes; déficit neurológico progressivo apesar da radioterapia; e expectativa de vida superior a alguns meses.

A laminectomia isolada vem sendo substituída por técnicas de descompressão com estabilização instrumentada, que proporcionam melhor alinhamento e recuperação funcional.

Nos pacientes sem indicação cirúrgica, podem ser utilizados procedimentos minimamente invasivos, como vertebroplastia ou cifoplastia, para controle de dor e estabilização segmentar.

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Terapia sistêmica

Em casos de tumores hematológicos (linfoma, mieloma múltiplo) ou neoplasias metastáticas sensíveis à quimioterapia, o tratamento sistêmico específico deve ser introduzido precocemente.

Associar radioterapia ou cirurgia, conforme a resposta esperada.

Prognóstico e qualidade de vida

A compressão medular maligna é uma complicação oncológica associada a alta morbidade e prognóstico reservado, especialmente em contextos paliativos.

Apesar dos avanços terapêuticos, a sobrevida global mediana após o diagnóstico ainda é de aproximadamente seis meses, variando amplamente conforme o tipo de tumor, extensão metastática e funcionalidade pré-tratamento.

Pacientes ambulatórios no momento do diagnóstico apresentam melhor evolução. De 67% a 82% permanecem deambulando após o tratamento, com sobrevida mediana de 8 a 10 meses.

Em contraste, aqueles não deambulantes antes da terapia têm sobrevida mediana entre 2 e 4 meses, e quando permanecem não deambulantes após o tratamento, a sobrevida raramente ultrapassa um mês.

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O tipo histológico tumoral é um determinante importante do prognóstico.

Tumores radiossensíveis, como mieloma múltiplo, linfoma, câncer de mama e de próstata, costumam ter sobrevida de 9 a 10 meses;

Pacientes com câncer de pulmão ou neoplasias de crescimento rápido geralmente apresentam sobrevida de 3 a 4 meses.

Em câncer de mama, tumores triplo-negativos estão associados a pior evolução em comparação aos hormônio-dependentes.

A função neurológica pré-tratamento é o fator isolado mais preditivo da evolução funcional.

Cerca de um terço dos pacientes paraparéticos (perda parcial) recupera a deambulação após o tratamento. A recuperação em paraplégicos é rara (2% a 6%), mais provável em tumores radiossensíveis.

O intervalo entre o início dos déficits motores e o tratamento também influencia fortemente os desfechos — quanto mais precoce a intervenção (idealmente em menos de 12 horas após perda de marcha), maior a chance de recuperação funcional.

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O desafio de manter a autonomia diante da compressão medular neoplásica

A qualidade de vida dos pacientes com a síndrome de compressão medular neoplásica tende a ser gravemente impactada.

A dor, a disfunção esfincteriana e a limitação da mobilidade exigem cuidados contínuos, muitas vezes com necessidade de analgesia opioide, suporte fisioterápico e assistência domiciliar ou institucional.

Mesmo diante de terapias específicas, o foco principal deve ser o controle de sintomas, preservação da função neurológica e manutenção da autonomia pelo maior tempo possível.

O diagnóstico precoce e o tratamento rápido continuam sendo os pilares para evitar sequelas irreversíveis e preservar a qualidade de vida dos pacientes com compressão medular neoplásica.

Síndrome de Compressão Medular

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Referências:

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