Tratamento da apneia obstrutiva do sono ganha nova perspectiva com Mounjaro
Novo avanço no tratamento da apneia obstrutiva do sono: a tirzepatida (Mounjaro) reduz roncos e pausas respiratórias, melhora o sono e ajuda no controle do peso. A aprovação pela Anvisa marca uma nova etapa no cuidado de pacientes com obesidade e apneia.
[lwptoc colorScheme="inherit" borderColor="#f9f9f9"]
Apneia obstrutiva do sono: quando o ronco e as pausas respiratórias indicam um problema sério
A apneia obstrutiva do sono (AOS) é uma condição caracterizada por episódios recorrentes de obstrução parcial ou total das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em pausas respiratórias (apneias) ou redução significativa do fluxo de ar (hipopneias). Esses eventos causam quedas na oxigenação sanguínea, seguidas de microdespertares, fragmentando o sono e comprometendo a qualidade do descanso noturno.
A condição acomete aproximadamente 5% dos homens e 2,5% das mulheres, sendo mais frequente a partir dos 35 anos e ultrapassando 10% em indivíduos acima dos 65 anos.
Os principais fatores de risco incluem:
- Idade avançada
- Sexo masculino
- Obesidade, especialmente com acúmulo de tecido adiposo cervical
- Anormalidades craniofaciais (retrognatia, micrognatia)
- Tabagismo
- Menopausa
- Hipotireoidismo
- História familiar de apneia do sono

Fisiopatologia
Durante o sono, ocorre relaxamento natural da musculatura faríngea. Em indivíduos predispostos, essa redução do tônus muscular leva ao estreitamento ou colapso das vias aéreas superiores, dificultando a passagem do ar. O resultado são roncos e pausas respiratórias transitórias.
Esses episódios de obstrução repetida provocam hipoxemia intermitente, hipercapnia e aumento da atividade simpática, o que desencadeia uma resposta inflamatória e vasoconstritora sistêmica. A longo prazo, esse desequilíbrio contribui para hipertensão arterial, resistência à insulina, disfunção endotelial e risco cardiovascular aumentado.
Manifestações Clínicas e Diagnóstico
Os principais sintomas incluem:
- Roncos intensos e intermitentes
- Sonolência diurna excessiva
- Fadiga persistente
- Cefaleia matinal
- Irritabilidade, déficit de atenção e concentração
- Despertares com sensação de sufocamento
- Noctúria e boca seca ao despertar

Além dos sintomas noturnos, a AOS pode desencadear hipertensão arterial sistêmica, arritmias, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, além de síndrome metabólica e diabetes tipo 2.
O diagnóstico da AOS é estabelecido por meio da polissonografia, que avalia ondas cerebrais, saturação de oxigênio, frequência cardíaca e movimentos respiratórios. O índice de apneia-hipopneia (IAH) determina a gravidade:
Leve: 5–15 eventos/hora
Moderada: 15–30 eventos/hora
Grave: >30 eventos/hora

Tratamento Convencional
As abordagens terapêuticas tradicionais incluem mudanças no estilo de vida, redução de peso, uso de CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) e, em casos selecionados, intervenções cirúrgicas. No entanto, a adesão ao CPAP é limitada, e a perda de peso sustentável é frequentemente difícil de alcançar, o que levou à busca por alternativas farmacológicas eficazes.

Do controle glicêmico ao sono restaurado
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, é um agonista duplo dos receptores GIP (peptídeo inibidor gástrico) e GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1). Inicialmente desenvolvida para diabetes tipo 2 e obesidade, a substância demonstrou efeitos significativos também sobre a apneia obstrutiva do sono. O efeito colateral mais comum relatado foram problemas estomacais leves.
Em 2024, um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que o uso de tirzepatida em pacientes obesos com AOS reduziu de forma expressiva o número de episódios de apneia e hipopneia, além de melhorar a saturação de oxigênio e a qualidade do sono. Esses resultados levaram, em outubro de 2025, à aprovação pela Anvisa do uso da tirzepatida para o tratamento da apneia obstrutiva do sono em adultos com obesidade.

Tratamento da apneia obstrutiva do sono com tirzepatida
O benefício da tirzepatida na AOS é multifatorial, envolvendo mecanismos metabólicos, neuromusculares e inflamatórios:
Redução da gordura corporal total e cervical
A tirzepatida promove perda de peso significativa, reduzindo a gordura subcutânea e visceral. A diminuição do tecido adiposo no pescoço reduz a compressão mecânica das vias aéreas superiores, facilitando a ventilação noturna.
Melhora do controle glicêmico e da sensibilidade à insulina
O efeito insulinotrópico e incretínico da tirzepatida reduz a resistência insulínica e o estado pró-inflamatório associado à obesidade. A melhora metabólica atenua a resposta simpática noturna e a instabilidade ventilatória.
Ação anti-inflamatória e redução da inflamação das vias aéreas
A tirzepatida reduz citocinas inflamatórias como IL-6 e TNF-α, frequentemente elevadas em pacientes com AOS. Isso contribui para a melhora do tônus muscular faríngeo e da função neuromuscular respiratória.
Efeitos sobre o centro respiratório e o controle neural da respiração.
Estudos experimentais sugerem que a tirzepatida pode modular indiretamente o controle central da ventilação, reduzindo oscilações do CO₂ e melhorando a estabilidade do padrão respiratório durante o sono.
O resultado clínico é uma redução do IAH, menor fragmentação do sono e melhora significativa dos sintomas diurnos, como fadiga e sonolência.

Impacto Clínico e Perspectivas
De acordo com a Eli Lilly, fabricante do medicamento, a tirzepatida é o primeiro fármaco validado como terapia para apneia do sono no Brasil. O medicamento não substitui terapias mecânicas como o CPAP, mas oferece uma alternativa especialmente útil para pacientes com obesidade e baixa adesão ao tratamento convencional.
Além da melhora respiratória, a tirzepatida contribui para a redução do risco cardiovascular, melhora da pressão arterial, sensibilidade à insulina e controle do peso corporal, promovendo benefícios sistêmicos que ultrapassam a esfera respiratória.
Assim, o tratamento da apneia obstrutiva do sono avança para uma abordagem integrada e metabólica, onde o manejo do peso e da inflamação passa a ser parte essencial do cuidado clínico. A tirzepatida surge, portanto, como uma das terapias mais promissoras na intersecção entre endocrinologia e medicina do sono.

--
Referências:
Anderer S. FDA Approves Tirzepatide as First Drug for Obstructive Sleep Apnea. JAMA. 2025;333(8):656. doi:10.1001/jama.2024.28055
Malhotra et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. Published June 21, 2024. N Engl J Med 2024;391:1193-1205. DOI: 10.1056/NEJMoa2404881
Anvisa aprova uso de Mounjaro para tratamento da apneia do sono. https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2025/10/20/anvisa-aprova-uso-de-mounjaro-para-tratamento-da-apneia-do-sono.ghtml. Acesso em 24 de outubro de 2025.
Caneta contra obesidade: substância do Mounjaro é o 1º remédio eficaz contra apneia do sono, aponta estudo. https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2024/06/22/caneta-contra-obesidade-substancia-do-mounjaro-e-o-1o-remedio-eficaz-contra-apneia-do-sono-aponta-estudo.ghtml. Acesso em 24 de outubro de 2025.