Evidência clínica inédita de Transplante de Ilhotas sem imunossupressão no DM1

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O transplante de ilhotas pancreáticas tem se consolidado como uma importante terapia celular para o diabetes tipo 1, mas sua aplicação clínica tradicionalmente depende do uso de imunossupressão sistêmica. Recentemente, avanços em engenharia genética possibilitaram o desenvolvimento de células hipoimunes, abrindo caminho para a primeira evidência clínica inédita de transplante de ilhotas sem necessidade de imunossupressão.

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Transplante de Ilhotas Pancreáticas no Diabetes Tipo 1: Indicações, Benefícios e Perspectivas Futuras

O transplante de ilhotas pancreáticas constitui uma modalidade de terapia de reposição celular indicada para pacientes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) que apresentam hipoglicemias graves de repetição, labilidade glicêmica significativa ou perda da percepção da hipoglicemia, mesmo sob manejo intensivo com insulina e uso de tecnologias avançadas de monitorização contínua da glicose.

O procedimento envolve a infusão intraportal de ilhotas pancreáticas isoladas de doadores falecidos, com o objetivo de restaurar a secreção endógena de insulina e promover melhor controle metabólico.

Em comparação com o transplante de pâncreas inteiro, apresenta-se como uma alternativa menos invasiva, com menor morbidade cirúrgica e possibilidade de indicação em pacientes com comorbidades que contraindicam cirurgias de grande porte.

Transplante de ilhotas

Os dados disponíveis demonstram que o transplante de ilhotas é altamente eficaz na prevenção de episódios de hipoglicemia grave e na obtenção de metas glicêmicas (HbA1c <7%) com redução da variabilidade glicêmica.

A independência completa da insulina, embora possível, é alcançada por uma proporção limitada de pacientes e geralmente por tempo determinado. A durabilidade da função do enxerto depende de múltiplos fatores, incluindo a carga de ilhotas transplantadas, o regime imunossupressor utilizado e características imunológicas e metabólicas do receptor.

A aplicação clínica do transplante de células das ilhotas do pâncreas permanece restrita a casos bem selecionados, sobretudo devido à necessidade de imunossupressão sistêmica crônica para prevenção da rejeição do enxerto, o que implica riscos relevantes, como nefrotoxicidade, infecções oportunistas e neoplasias. Além disso, a escassez de pâncreas de doadores e a necessidade de múltiplos doadores por receptor são limitações importantes.

Frente a esses desafios, diversas estratégias estão em investigação, como o uso de células-tronco para geração de células beta funcionais, técnicas de encapsulamento para isolamento imunológico das ilhotas e o desenvolvimento de fontes alternativas.

Transplante de ilhotas

Superando Barreiras do Transplante Convencional: Ilhotas Geneticamente Modificadas no Tratamento do DM1

O transplante de células de ilhotas geneticamente modificadas desponta como uma das abordagens mais inovadoras e promissoras em desenvolvimento para o tratamento do DM1, sobretudo diante dos entraves do transplante convencional, como a escassez de órgãos doadores e a dependência de imunossupressão crônica.

A engenharia genética tem como principal objetivo conferir às células propriedades que aumentem sua viabilidade funcional e capacidade de evasão imunológica, visando reduzir — ou idealmente abolir — a necessidade de imunossupressão sistêmica, frequentemente associada a efeitos adversos relevantes.

Entre as estratégias empregadas, destacam-se a edição de genes que codificam moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (HLA), diminuindo o reconhecimento imunológico, e a superexpressão de proteínas imunomodulatórias, como CD47, capazes de inibir a fagocitose e a ativação de células do sistema imune inato e adaptativo. Também são exploradas abordagens que promovem resistência das células à inflamação e aos mecanismos de rejeição mediados por linfócitos T.

Essas modificações genéticas podem ser potencializadas por tecnologias complementares, como o encapsulamento celular, que oferece uma barreira física contra a resposta imune, preservando a difusão de oxigênio, nutrientes e hormônios.

Transplante de ilhotas

Atualmente, o desenvolvimento de ilhotas derivadas de células-tronco pluripotentes humanas, com edição genética para evasão imunológica, já avançou para estágios clínicos.

Ensaios iniciais demonstraram a capacidade dessas células de restabelecer a secreção endógena de insulina, melhorar significativamente o controle glicêmico e eliminar episódios graves de hipoglicemia em indivíduos com DM1 de difícil controle. Em alguns casos, observou-se até independência transitória da insulina exógena.

Contudo, a maioria dos protocolos ainda exige algum grau de imunossupressão, e a eliminação completa dessa exigência segue como meta em investigação.

Assim, o uso clínico de ilhotas geneticamente modificadas representa uma estratégia emergente, com potencial real para superar as limitações do transplante tradicional, especialmente no que diz respeito à imunoproteção e à ampliação da disponibilidade celular.

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Primeira Aplicação Clínica de Transplante de Ilhotas Geneticamente Modificadas sem Imunossupressão

O artigo recentemente publicado na New England Journal of Medicine (“Survival of Transplanted Allogeneic Beta Cells with No Immunosuppression) descreve o primeiro ensaio clínico em humanos avaliando o transplante de células de ilhotas pancreáticas alogênicas geneticamente modificadas para evasão imunológica, sem uso de imunossupressores sistêmicos.

O estudo foi conduzido por uma equipe do Hospital Universitário de Uppsala, e envolveu um único participante: um homem de 42 anos com diabetes tipo 1 há 37 anos, com hipoglicemias graves recorrentes.

As ilhotas transplantadas foram obtidas de um doador falecido com compatibilidade ABO, isoladas e submetidas à edição genética com CRISPR-Cas12b para inativação dos genes B2M e CIITA, associados à apresentação de antígenos, e transduzidas por lentivírus para superexpressão de CD47, proteína com função imunorregulatória.

As células foram então reagrupadas e implantadas em 17 trajetos no músculo braquiorradial esquerdo, sob anestesia geral. Nenhuma forma de imunossupressão, glicocorticoides ou agentes anti-inflamatórios foi utilizada.

Transplante de ilhotas

Durante 84 dias de acompanhamento, observou-se que as células geneticamente modificadas (hipoimunes) não desencadearam ativação de linfócitos T, produção de anticorpos ou citotoxicidade — diferentemente das células residuais selvagens e duplo knockouts, que sofreram ataque imunológico.

Os níveis de peptídeo C permaneceram estáveis e responsivos à glicose, com aumento durante o teste de refeição mista; a hemoglobina glicada apresentou queda de aproximadamente 42%.

Técnicas de imagem (ressonância magnética e PET com alvo no receptor de GLP-1) confirmaram a viabilidade dos enxertos e ausência de inflamação local. Quatro eventos adversos leves foram registrados, nenhum relacionado ao procedimento ou às células transplantadas.

Apesar da manutenção da insulinoterapia — já que apenas 7% da dose ideal de reposição de células beta foi implantada — os autores classificam o estudo como uma validação de “prova de sobrevivência” e “prova de função” para essa abordagem. O sucesso na ausência de resposta imune contra as células editadas representa um marco significativo no campo da terapia celular.

Evidência clínica inédita de Transplante de Ilhotas sem imunossupressão no DM1

Engenharia Genética como Caminho para Terapia Celular Segura no DM1

A necessidade de imunossupressão sistêmica tem sido uma das principais limitações do transplante de ilhotas, devido à sua toxicidade e impacto na morbimortalidade. Neste contexto, a engenharia genética hipoimune surge como uma estratégia promissora para possibilitar a reposição funcional de células beta de forma segura e duradoura, sem os riscos associados à imunossupressão crônica. A aplicação clínica ainda está em fase inicial, mas os achados reforçam o potencial dessa abordagem para transformar o manejo do diabetes tipo 1, especialmente em casos refratários ao tratamento convencional.

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Referências:

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