OMS declara eliminação da transmissão vertical do HIV no Brasil: o que mudou na prática?

grávida segurando um teste rápido de HIV. OMS declara eliminação da transmissão vertical do HIV no Brasil
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A transmissão vertical do HIV no Brasil — caracterizada pela passagem do vírus da mãe para o filho durante a gestação, o parto ou a amamentação — foi, por muitos anos, um dos principais desafios da resposta brasileira à epidemia de HIV/aids.

Graças a avanços científicos consistentes e ao fortalecimento de políticas públicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil alcançou um marco histórico recente: a eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, conforme critérios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O que é transmissão vertical do HIV?

Do ponto de vista biológico, a transmissão vertical do HIV pode ocorrer em três momentos distintos.

Durante a gestação, o vírus pode atravessar a barreira placentária, especialmente em situações de carga viral materna elevada ou de inflamação placentária associada a coinfecções. Embora possível, essa via é considerada menos frequente.

O maior risco de transmissão ocorre no momento do parto, quando o recém-nascido entra em contato com o sangue e as secreções genitais da mãe.

Já no período pós-natal, a principal via de infecção é a amamentação, uma vez que o HIV pode estar presente tanto em células infectadas quanto em partículas virais livres no leite materno.

Esses mecanismos explicam por que a carga viral materna é o principal determinante do risco de transmissão vertical. Gestantes em uso regular de terapia antirretroviral (TARV), com supressão viral sustentada, apresentam risco extremamente baixo de transmitir o HIV aos seus filhos.

Essa evidência fundamentou mudanças profundas nas estratégias globais e nacionais de prevenção da transmissão vertical do HIV.

Histórico da transmissão vertical do HIV no Brasil

No Brasil, a transmissão vertical foi historicamente responsável pela maioria dos casos de HIV em crianças.

Entre 2000 e junho de 2024, mais de 166 mil gestantes, parturientes ou puérperas com infecção pelo HIV foram notificadas nos sistemas de vigilância. Entre 2013 e 2023, a taxa de detecção de HIV em gestantes aumentou cerca de 33%, passando de 2,4 para 3,3 casos por mil nascidos vivos.

Esse aumento não indica necessariamente maior transmissão, mas reflete a ampliação do acesso à testagem no pré-natal, o fortalecimento da vigilância epidemiológica e a melhoria dos sistemas de notificação. Em 2023, foram identificados 8.277 casos de gestantes vivendo com HIV no país.

A identificação precoce da infecção é decisiva para interromper a transmissão vertical.

Dados recentes mostram que a maioria das gestantes já conhecia o diagnóstico antes do início do pré-natal, o que permite o início oportuno da TARV e o alcance de carga viral indetectável no momento do parto. Como resultado, os diagnósticos realizados apenas durante ou após o parto — considerados situações de maior risco — apresentaram queda expressiva na última década.

O Brasil eliminou a transmissão vertical do HIV? Sim. Em dezembro de 2025, a OMS reconheceu que o Brasil atingiu os critérios internacionais de eliminação como problema de saúde pública, mantendo taxa de transmissão abaixo de 2% e incidência inferior a 0,5 casos por mil nascidos vivos.

Indicadores materno-infantis e critérios de eliminação

Os avanços se refletem diretamente nos indicadores materno-infantis. Houve redução no número de gestantes vivendo com HIV, no total de crianças expostas ao vírus e no início tardio da profilaxia neonatal, demonstrando maior integração entre pré-natal, maternidades e atenção neonatal.

Entre 2015 e junho de 2024, foram notificados mais de 68 mil casos de crianças expostas ao HIV no Brasil. Ainda assim, o país manteve taxas de transmissão vertical abaixo de 2% e incidência de HIV em crianças inferior a 0,5 casos por mil nascidos vivos — parâmetros internacionais que caracterizam a eliminação da transmissão vertical como problema de saúde pública.

Esses resultados foram acompanhados por cobertura superior a 95% em pré-natal, testagem universal para HIV e oferta de tratamento antirretroviral às gestantes, alinhando o Brasil às metas globais de eliminação.

imagem de comprimidos em cima de um texto que contém HIV / AIDS

Impacto das políticas públicas e prevenção combinada

Paralelamente aos avanços no cuidado materno-infantil, o Brasil registrou melhora expressiva nos desfechos gerais da epidemia.

Entre 2023 e 2024, os óbitos por AIDS caíram para o menor patamar das últimas três décadas, refletindo o acesso ampliado a esquemas terapêuticos modernos, eficazes e mais bem tolerados, capazes de tornar o vírus indetectável e intransmissível.

Como o Brasil eliminou a transmissão vertical do HIV?

A estratégia de prevenção combinada foi central nesse processo.

Além da TARV, o país expandiu o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), à profilaxia pós-exposição (PEP) e à testagem rápida e autodiagnóstica. Essas ações contribuíram para o diagnóstico precoce, o início oportuno do tratamento e a redução sustentada de novas infecções.

A eliminação da transmissão vertical do HIV no Brasil é, portanto, o resultado de décadas de produção científica, fortalecimento do SUS e compromisso com o acesso universal à saúde.

Embora a vigilância contínua siga essencial, o país consolida-se como referência internacional ao demonstrar que é possível interromper a transmissão do HIV de mãe para filho de forma equitativa, sustentável e baseada em evidências científicas.

Em 2025, a OMS declarou a eliminação da transmissão vertical do HIV no Brasil. Na imagem, um boneco de massinha segurando uma fita vermelha, símbolo de luta contra HIV/AIDS.

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Referências:

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Brasil elimina transmissão vertical do HIV, da mãe para o bebê, e alcança menor taxa de mortalidade dos últimos anos.

Cardenas MC, Farnan S, Hamel BL, Mejia Plazas MC, Sintim-Aboagye E, Littlefield DR, Behl S, Punia S, Enninga EAL, Johnson E, Temesgen Z, Theiler R, Gray CM, Chakraborty R. Prevention of the Vertical Transmission of HIV; A Recap of the Journey so Far. Viruses. 2023 Mar 26;15(4):849. doi: 10.3390/v15040849. PMID: 37112830; PMCID: PMC10142818.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim epidemiológico de 2024.

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