Síndrome Geniturinária da Lactação: condição negligenciada que afeta 7 em cada 10 mulheres no pós-parto
Baixos níveis hormonais durante a amamentação causam sintomas genitais e sexuais semelhantes aos da menopausa, mas ainda negligenciados no acompanhamento clínico das puérperas - a chamada “Síndrome Geniturinária da Lactação”.
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Síndrome Geniturinária da Lactação: um desafio pouco reconhecido no pós-parto
O puerpério é uma das fases mais desafiadoras de um ciclo de vida da mulher, uma vez que as alterações emocionais, hormonais e de autoimagem são imensas. Nesse período, a mulher fica praticamente sem libido.
Ora, é fácil de entender: o corpo precisa concentrar os esforços completamente no novo ser que nasceu, já que, se existisse uma nova gravidez, a vida que foi gerada não teria seus cuidados totalmente supridos.

Durante o período pós-parto, quando a mulher está amamentando, os níveis elevados de prolactina bloqueiam a produção de estrogênio e androgênio. “Quem não está amamentando consegue restaurar o equilíbrio hormonal de forma mais rápida. Já entre as lactantes, essa inibição hormonal é mais intensa e prolongada”, explicou Sara Perelmuter (estudante de medicina no Weill Cornell Medical College (EUA) e autora de artigos na área de ginecologia).
Assim, muitas mulheres que estão amamentando apresentam sintomas parecidos com os da menopausa. Esse conjunto de manifestações, observado no período pós-parto, foi recentemente denominado de “síndrome geniturinária da lactação”, conforme descrito em uma revisão sistemática publicada na revista Obstetrics & Gynecology. O termo foi introduzido em 2024, após discussões entre especialistas de diversas áreas, como ginecologia, obstetrícia e urologia, e inspirado na já reconhecida síndrome geniturinária da menopausa.
Apesar de ser uma condição frequente, a síndrome ligada à amamentação ainda é pouco reconhecida no acompanhamento do pós-parto, sendo frequentemente negligenciada tanto no diagnóstico quanto no tratamento. De acordo com Sara Perelmuter, os estudos indicaram uma
forte ligação entre a amamentação e um conjunto de sintomas que inclui ressecamento e atrofia vaginal, alterações urinárias, dor durante o sexo (dispareunia) e disfunções sexuais.
Mais de 70% das lactantes apresentam disfunção sexual
A análise envolveu pesquisadores dos Estados Unidos e de outros países, que revisaram 65 estudos considerados relevantes — sendo que quase 80% deles apresentavam alta qualidade metodológica. Os resultados da revisão tiveram um Intervalo de Confiança de 95%.
A prevalência conjunta de disfunção sexual entre as mulheres lactantes foi de 73,5% e a pontuação média no FSFI (Female Sexual Function Index) foi de 21,5 ± 1,83 — valor que indica disfunção relevante.
Outros achados importantes:
Sintomas vaginais:
Dois terços das mulheres que amamentam no puerpério apresentaram sinais de atrofia vaginal — uma chance 2,34 vezes maior em comparação às que não estavam amamentando.
A atrofia vaginal apresentou prevalência de 63,9%.
O ressecamento vaginal foi relatado por 53,6% das mulheres.
Dispareunia: 60,0% aos 3 meses; 39,7% aos 6 meses; 28,5% aos 12 meses.

Sintomas reais, reconhecimento ausente: a luta por visibilidade na Síndrome Geniturinária da Lactação
A motivação para realizar essa revisão surgiu do aumento do reconhecimento da síndrome geniturinária da menopausa. "Por outro lado, ninguém falava sobre as mulheres que estavam amamentando no puerpério e passando por uma condição fisiológica semelhante, marcada pela baixa de estrogênio e androgênios", explicou a estudante. "Era frustrante ver tantas pacientes nesse período, principalmente lactantes, sofrendo com sintomas vaginais e urinários significativos, sem que isso fosse abordado ou tratado adequadamente".
Ela reforça que se trata de uma condição fisiológica e hormonal real, que afeta milhões de mulheres, e que merecia, há muito tempo, ter um nome e ser reconhecida clinicamente.
Mesmo com sua alta frequência, ainda não existem protocolos de rastreio nas consultas pós-parto, nem orientações terapêuticas específicas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o American College of Obstetricians and Gynecologists ainda não publicou nenhuma diretriz sobre essa nova síndrome relacionada à lactação.
“Nós realmente nos surpreendemos com a frequência e a invisibilidade desses sintomas”, afirmou Perelmuter. “A síndrome geniturinária da lactação ocorre em um momento culturalmente idealizado — o início da maternidade — mas que, na verdade, também envolve mudanças profundas no corpo e no estilo de vida da mulher.”

Sete em cada dez mulheres não recebem ajuda: a negligência da saúde sexual no pós-parto
Outro dado preocupante revelado pela pesquisa foi que mais de 70% das mulheres nunca buscaram ou receberam atendimento para esses sintomas. “Esses problemas não são isolados. Eles são comuns, amplamente subestimados e têm impacto significativo. Os dados finalmente deram nome a algo que muitos profissionais já viam rotineiramente na prática clínica, mas que até agora não tinha reconhecimento formal.”
Se uma paciente no período pós-parto estiver amamentando e relatar sintomas como ressecamento vaginal, dor ou dificuldades sexuais, o ideal é acolher a mulher e explicá-la de forma simples e acessível sobre o tema. É necessário ofertar opções como estrogênio vaginal, hidratantes vaginais, fisioterapia do assoalho pélvico, entre outras. Na verdade, a própria entrevista clínica da puérpera deve conter indagações sobre a vida sexual da mulher, e não apenas esperar que ela venha com essas queixas.

Comentando o tema, embora não tenha participado diretamente da revisão, o Dr. Irwin Goldstein — diretor da San Diego Sexual Medicine e professor de urologia na Universidade da Califórnia em San Diego — também destacou a importância de ampliar a conscientização tanto entre profissionais de saúde quanto no público geral.
Segundo ele, ainda que a queda nos hormônios reprodutivos seja considerada “normal” tanto na menopausa quanto durante a síndrome geniturinária da lactação, esse estado hormonal causa sintomas desagradáveis e dolorosos, que podem e devem ser tratados quando identificados. “Uma opção hormonal segura é o uso de desidroepiandrosterona (DHEA) intravaginal. Ela age localmente, dentro das células, sem se espalhar pela corrente sanguínea”.
Para Sara Perelmuter, a síndrome geniturinária da lactação reflete um padrão mais amplo de negligência à dor vivida por mulheres. “Precisamos transformar o cuidado pós-parto em uma oportunidade de cura ativa, e não apenas em um momento de sobrevivência silenciosa”, afirmou.
Ela conclui dizendo que este estudo é apenas um ponto de partida. “Nosso objetivo deve ser construir um futuro no qual todas as mulheres que amamentam tenham seus sintomas reconhecidos, recebam explicações claras sobre suas opções e tenham seus corpos respeitados em todas as dimensões.”
É fundamental que esse tipo de abordagem passe a integrar a formação de profissionais da atenção primária, ginecologistas, obstetras, consultores de amamentação e até de pediatras. Os autores da revisão enfatizaram a importância de que os médicos priorizem a informação, a detecção ativa e o cuidado individualizado para lidar com esses sinais e sintomas ainda pouco reconhecidos. A meta é melhorar a qualidade de vida das mães que estão em fase de amamentação.

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Referências:
Amamentação pode provocar sintomas semelhantes aos da menopausa em nova síndrome reconhecida - Medscape - 30 de mai de 2025. Acesso em 23 de julho de 2025.
Perelmuter, S., Burns, R., Shearer, K., Grant, R., Soogoor, A., Jun, S., Meurer, J. A., Krapf, J., & Rubin, R. (2024). Genitourinary syndrome of lactation: a new perspective on postpartum and lactation-related genitourinary symptoms. Sexual medicine reviews, 12(3), 279–287. https://doi.org/10.1093/sxmrev/qeae034
Perelmuter, S., Stokes, C., Chapalamadugu, M., Drian, A., Zusman, G. L., Berdugo, J., Davide, M., Andy, C., Grant, R., Drew, T., Burns, R., Meurer, J., Shah, A., Contractor, S., Messafi, A., Thompson, A., Krapf, J., & Rubin, R. (2025). Postpartum and Lactation-Related Genitourinary Symptoms: A Systematic Review. Obstetrics and gynecology, 146(1), 59–72. https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000005940