Síndrome de Anorexia-Caquexia: fisiopatologia, diagnóstico e manejo multidisciplinar

Síndrome de Anorexia-Caquexia: fisiopatologia, diagnóstico e manejo multidisciplinar
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O que é a Síndrome de Anorexia-Caquexia?

A síndrome de anorexia-caquexia (SAC), também chamada de cancer-related anorexia-cachexia syndrome (CACS), é uma condição multifatorial e progressiva, caracterizada por perda involuntária de peso, redução de massa muscular (sarcopenia), anorexia e alterações metabólicas e inflamatórias sistêmicas.

A SAC evolui em fases sucessivas (pré-caquexia, caquexia estabelecida e caquexia refratária) e ocorre tanto em pacientes oncológicos quanto em pessoas com doenças crônicas avançadas, como insuficiência cardíaca, DPOC e doença renal crônica.

Síndrome de Anorexia-Caquexia

Relevância clínica e impacto prognóstico

A síndrome é altamente prevalente e está diretamente associada à redução da sobrevida, menor resposta terapêutica e pior qualidade de vida.

Em pacientes com câncer avançado, a prevalência varia entre 50% e 80%, especialmente em tumores pancreáticos, gástricos e esofágicos.

Em doenças crônicas não oncológicas, ocorre em 5% a 15% dos casos.

Estima-se que até 20% dos óbitos relacionados ao câncer estejam associados à anorexia-caquexia.

Além de comprometer o estado nutricional, a síndrome reduz a força muscular, a funcionalidade física e a independência, reforçando a necessidade de rastreamento e manejo multidisciplinar precoce.

Síndrome de Anorexia-Caquexia

Fisiopatologia: interação entre inflamação, metabolismo e tumor

A síndrome de anorexia-caquexia resulta de um desequilíbrio entre síntese e degradação de proteínas e gorduras, impulsionado por mediadores inflamatórios como TNF-α, IL-1 e IL-6, além da ativação das vias proteolíticas (ubiquitina-proteassoma).

Esses mecanismos provocam:

  • Catabolismo muscular e lipólise aumentados;
  • Redução do apetite e alteração da regulação hipotalâmica da fome;
  • Resistência à insulina e inflamação crônica;
  • Alterações anatômicas e digestivas causadas por tumores gastrointestinais;
  • Efeitos adversos de tratamentos oncológicos, como quimioterapia e radioterapia, que agravam anorexia e má absorção.

O resultado é um ciclo vicioso de perda de peso, inflamação e fadiga, frequentemente irreversível nas fases tardias.

Síndrome de Anorexia-Caquexia

Diagnóstico e avaliação clínica

O diagnóstico da síndrome de anorexia caquexia exige avaliação nutricional, metabólica e funcional contínua, com ênfase na identificação precoce. Os critérios incluem:

  • Perda de peso > 5% em 6 meses (ou > 2% com IMC baixo/sarcopenia);
  • Anorexia persistente e ingestão alimentar reduzida;
  • Marcadores inflamatórios elevados (PCR, IL-6, TNF-α);
  • Declínio funcional e redução da massa muscular.

Ferramentas como NRS-2002, MUST, PG-SGA e Nutriscore® são amplamente utilizadas para triagem e acompanhamento nutricional.

Síndrome de Anorexia-Caquexia

Estratégias de manejo: foco multidisciplinar

O tratamento da síndrome de anorexia-caquexia é multimodal, combinando suporte nutricional, farmacoterapia e fisioterapia. O objetivo é preservar massa magra, controlar sintomas e manter qualidade de vida.

Intervenções farmacológicas

  • Megestrol e corticosteroides (dexametasona, prednisona) podem estimular o apetite, embora com efeitos temporários.
  • Olanzapina em baixa dose (2,5–5 mg/dia) demonstrou melhora do apetite e ganho ponderal.

Novas terapias em estudo incluem agonistas da grelina (anamorelina), anti-inflamatórios, canabinoides e anticorpos contra GDF-15 (ponsegromabe).

Intervenções nutricionais

  • Aconselhamento dietético individualizado, com foco em alimentos hipercalóricos e hiperproteicos.
  • Suplementação oral balanceada para otimizar aporte calórico.
  • Nutrição enteral ou parenteral em casos de ingestão oral insuficiente.
  • Suporte fisioterapêutico e psicológico, essenciais para o bem-estar e adesão terapêutica.
Síndrome de Anorexia-Caquexia

Prognóstico e cuidados paliativos

A síndrome de anorexia-caquexia é um marcador de gravidade e terminalidade, especialmente em pacientes oncológicos. A perda de massa muscular e a inflamação sistêmica estão associadas a maior mortalidade, redução da tolerância ao tratamento e pior qualidade de vida.

Nos estágios avançados, o foco terapêutico deve priorizar o conforto, o controle sintomático e o suporte paliativo, respeitando as metas individuais de cuidado.

Trata-se de uma condição complexa, que vai além da desnutrição simples, exigindo abordagem multidisciplinar, diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo para otimizar o manejo e preservar a qualidade de vida dos pacientes com câncer ou doenças crônicas avançadas.

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Referências:

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