Síncope no Pronto Atendimento: quando a Regra de San Francisco é útil?

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A Regra de San Francisco foi desenvolvida como uma ferramenta clínica para auxiliar na estratificação de risco de pacientes com síncope ou pré-síncope atendidos no pronto-socorro, com o objetivo de prever eventos clínicos graves em até 7 dias após o episódio inicial. Embora não se destine ao diagnóstico etiológico da síncope, a regra pode ser útil para guiar decisões sobre alta hospitalar ou necessidade de internação, especialmente em casos aparentemente benignos.

A seguir, são apresentados os cinco critérios clínicos e fisiológicos que compõem o escore, juntamente com a forma de pontuação utilizada durante a avaliação inicial do paciente.

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Como utilizar a Regra da Síncope de San Francisco?

A Regra da Síncope de San Francisco é um índice utilizado para predizer o risco de desfechos graves após 7 dias em pacientes que apresentaram quadro de síncope ou quase síncope.

parada cardiaca Regra de San Francisco

A regra (San Francisco Syncope Rule) foi desenvolvida em 2004, a partir de um estudo prospectivo de centro único com 684 pacientes que deram entrada na emergência se queixando de síncope ou quase síncope. Nesse estudo, o escore de San Francisco apresentou sensibilidade de 96% e especificidade de 62%. Posteriormente, outros estudos validaram essa ferramenta.

A Regra de San Francisco é composta por 5 critérios clínicos e fisiológicos, que devem ser utilizados em pacientes em admissão no pronto atendimento com queixa de síncope ou quase síncope:

  1. Histórico de insuficiência cardíaca congestiva. Sim: +1 ponto. Não: 0 pontos.
  2. Hematócrito < 30%. Sim: +1 ponto. Não: 0 pontos.
  3. ECG anormal (alterado ou qualquer ritmo não sinusal). Sim: +1 ponto. Não: 0 pontos.
  4. Sintomas de falta de ar. Sim: +1 ponto. Não: 0 pontos.
  5. PA sistólica < 90 mmHg no momento da triagem. Sim: +1 ponto. Não: 0 pontos.
Regra de San Francisco

O uso da Regra de San Francisco pode reduzir internações desnecessárias

A aplicação da Regra de San Francisco permite identificar pacientes com síncope de baixo risco, que provavelmente não se beneficiariam de investigação invasiva ou internação hospitalar. Estudos sugerem que o uso desse escore pode reduzir em até 10% o número de hospitalizações, contribuindo para a diminuição de custos e redução de riscos associados à hospitalização desnecessária.

Como interpretar a pontuação?

Após a avaliação dos cinco critérios, cada item positivo recebe 1 ponto. A soma total define a categoria de risco:

Pontuação total = 0

→ Baixo risco de desfechos graves em curto prazo.

Pontuação total ≥ 1

→ Alto risco de desfechos graves.

Ou seja, a presença de qualquer um dos critérios já classifica o paciente como de alto risco, indicando maior necessidade de monitoramento e investigação adicional.

Regra de San Francisco

Por que o Escore de San Francisco não basta?

O Escore de San Francisco não tem como finalidade o diagnóstico etiológico da síncope. Trata-se de uma ferramenta voltada para estratificação de risco, utilizada para avaliar a probabilidade de eventos clínicos graves em curto prazo após um episódio de síncope, auxiliando na tomada de decisão quanto à necessidade de internação ou alta hospitalar.

É importante destacar que alguns eventos graves podem não ser identificados como de alto risco por esse escore, levando a uma possível subestimação do risco clínico. Entre esses desfechos, destacam-se o acidente vascular cerebral e a hemorragia intracraniana, os quais podem se apresentar de forma atípica e, portanto, exigir maior vigilância clínica.

Adicionalmente, disritmias cardíacas — um dos principais desfechos adversos associados à síncope — nem sempre são detectadas pela Regra de San Francisco, o que limita sua sensibilidade para essa etiologia. Por isso, mesmo com escore baixo, deve-se manter atenção clínica rigorosa diante de suspeitas eletrocardiográficas ou histórico sugestivo.

Estudos de validação demonstraram que, embora o escore tenha se mostrado útil na estratificação de risco em grupos de alto e baixo risco, os valores de sensibilidade e especificidade obtidos não foram consistentes entre diferentes populações e contextos clínicos, gerando controvérsias quanto à sua acurácia e aplicabilidade universal.

Assim, mesmo nos cenários mais favoráveis, a Regra de Síncope de San Francisco não é infalível. Sempre que houver suspeita de condição subjacente grave, a conduta mais prudente é a realização de investigação diagnóstica complementar, independentemente da pontuação atribuída pelo escore.

Escore GWTG Regra de San Francisco

Decisão Clínica Pós-Síncope: Internar ou Liberar?

A abordagem do paciente com síncope ou pré-síncope deve ser guiada pela estratificação de risco, considerando os achados clínicos e o julgamento médico:

Baixo risco:

na ausência de sinais de alarme ou comprometimento clínico, e desde que não haja outros fatores que justifiquem observação prolongada, o paciente pode ser liberado com orientações e seguimento ambulatorial.

Alto risco:

recomenda-se hospitalização para monitorização contínua, investigação etiológica e prevenção de desfechos graves.

Desfechos clínicos graves de curto prazo incluem eventos potencialmente fatais que ocorrem até 7 dias após o episódio de síncope ou quase síncope, como:

  • Morte súbita;
  • Infarto agudo do miocárdio;
  • Arritmias significativas;
  • Embolia pulmonar;
  • Acidente vascular cerebral;
  • Hemorragia subaracnoidea;
  • Hemorragias de grande monta;
  • Qualquer intercorrência que leve à reconsulta emergencial ou nova hospitalização.

Atenção: a investigação diagnóstica nunca deve retardar intervenções de suporte vital, especialmente em pacientes instáveis. A estabilização hemodinâmica e a ressuscitação devem sempre preceder exames complementares.

Regra de San Francisco

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Referências:

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