Sepse Pediátrica: impacto do sexo biológico e de fatores socioeconômicos na mortalidade
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Sepse pediátrica: um desafio global
A sepse é uma das principais causas de mortalidade infantil no mundo, caracterizada por disfunção orgânica causada por resposta desregulada a uma infecção. No contexto pediátrico, a evolução pode ser rápida e imprevisível, demandando diagnóstico precoce e intervenção imediata.
Apesar dos avanços em protocolos de manejo, a mortalidade por sepse ainda é significativa, especialmente em ambientes com recursos limitados. Estudos anteriores já sugeriam que fatores como idade, comorbidades e gravidade inicial influenciam o prognóstico, mas a influência do sexo biológico permanecia incerta.

Diferença de mortalidade entre meninos e meninas e influência dos fatores socioeconômicos
Uma revisão sistemática e metanálise publicada no periódico Critical Care Explorations em 2025 analisou dados de mais de 426 mil casos de sepse pediátrica e identificou uma diferença estatisticamente significativa, embora pequena, na mortalidade entre meninos e meninas. Os resultados indicam que pacientes do sexo masculino apresentam um risco ligeiramente maior de óbito, diferença que se torna mais pronunciada em países de menor renda.
O estudo foi conduzido por pesquisadores internacionais e utilizou dados publicados entre 2005 e 2022. Foram incluídos 124 estudos, abrangendo diferentes cenários clínicos e níveis de complexidade hospitalar. A proporção de meninas na amostra foi de 47%.
O resultado principal da análise indicou uma diferença de risco (risk difference) de −0,005 (IC 95%: −0,0099 a −0,00001; p = 0,049), apontando mortalidade ligeiramente maior em pacientes do sexo masculino.
Quando os pesquisadores ajustaram o modelo para o nível de renda do país (classificação do Banco Mundial), a diferença aumentou para −0,008 (IC 95%: −0,013 a −0,002; p = 0,005). Isso sugere que fatores socioeconômicos podem potencializar ou mitigar a influência do sexo sobre o desfecho.
A qualidade da evidência foi considerada moderada, e a heterogeneidade dos estudos incluídos — com variação em definições, protocolos e populações — foi reconhecida como limitação.

Possíveis explicações
Embora não exista resposta definitiva, os autores levantam hipóteses plausíveis:
Modulação hormonal da resposta imune
Hormônios sexuais e imunidade:
Desde a vida fetal, os hormônios sexuais (estrogênios e testosterona) exercem efeitos distintos sobre o sistema imunológico.
Os estrogênios, predominantes no sexo feminino, tendem a promover uma resposta imune mais robusta e regulada. Eles estimulam a produção de citocinas anti-inflamatórias e facilitam a ativação de células imunes como linfócitos T e células natural killer, que são essenciais para combater infecções.
Por outro lado, a testosterona, predominante no sexo masculino, possui um efeito imunossupressor, reduzindo a atividade dessas células de defesa e a produção de mediadores inflamatórios que poderiam controlar a infecção rapidamente.
Impacto no equilíbrio inflamatório:
A sepse é caracterizada por uma resposta inflamatória desregulada, com produção exacerbada de citocinas pró-inflamatórias, seguida muitas vezes de imunossupressão. A modulação hormonal pode alterar esse equilíbrio, levando a uma resposta menos eficaz e maior risco de falência orgânica no sexo masculino.

Influência genética ligada ao cromossomo X
Genes imunológicos no cromossomo X:
Muitas das proteínas essenciais para a regulação do sistema imune são codificadas por genes localizados no cromossomo X. Como as mulheres (cisgênero) possuem duas cópias desse cromossomo (XX), elas têm potencial vantagem em relação aos meninos (XY) para expressar variantes funcionais desses genes, mesmo quando uma cópia está defeituosa. Isso pode proporcionar maior diversidade e eficiência na resposta imune feminina.
Mosaicismo e expressão diferencial:
No sexo feminino, ocorre um processo chamado inativação do cromossomo X, mas essa inativação é parcial e variável, permitindo que algumas células expressem diferentes genes de cada cópia do X. Essa heterogeneidade celular pode aumentar a capacidade de resposta imune.

Diferenças na resposta inflamatória e tolerância à sepse
Citocinas e mediadores inflamatórios:
Estudos experimentais indicam que meninos (cis) podem apresentar níveis mais altos de citocinas pró-inflamatórias (como TNF-alfa e IL-6) durante a sepse, que, apesar de importantes para o combate inicial à infecção, quando em excesso podem causar danos aos tecidos e órgãos.
Já as meninas tendem a apresentar uma resposta inflamatória mais balanceada, com melhor regulação da fase anti-inflamatória, reduzindo o risco de choque séptico e falência múltipla de órgãos.
Diferenças na ativação de células imunes:
A ativação e a função de neutrófilos, macrófagos e células dendríticas podem variar entre os sexos, influenciando a eficiência na eliminação do patógeno e na resolução da inflamação.

Aspectos sociais e comportamentais que podem amplificar o risco
Desigualdade no acesso e na qualidade do atendimento:
Em países de baixa e média renda, pacientes do sexo masculino podem ser levados ao serviço de saúde com mais demora, ou a triagem inicial pode apresentar vieses inconscientes. Isso pode agravar o quadro clínico e impactar negativamente a sobrevida.
Influência cultural e familiar:
Em alguns contextos, o cuidado e a atenção dispensados a meninos e meninas podem variar, influenciando o tempo até a busca por tratamento e adesão a terapias.

Implicações para a prática clínica e políticas públicas
Mesmo sendo pequena em termos absolutos, essa diferença carrega relevância epidemiológica, especialmente quando aplicada a populações inteiras. Os achados sustentam ações como:
- Monitorar mortalidade por sepse estratificada por sexo em bancos de dados hospitalares.
- Uniformizar protocolos de manejo, independentemente do sexo biológico.
- Investir em pesquisa nacional, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.
- Treinar equipes de saúde para reconhecer precocemente sinais de sepse e reduzir vieses na priorização de atendimento.
Nos países de baixa e média renda (onde a mortalidade por sepse já é mais alta), a sobreposição de vulnerabilidades pode gerar impacto clínico e social mais expressivo.

Sepse pediátrica: sinais de alerta para pais e cuidadores
- Febre persistente ou temperatura muito baixa.
- Respiração acelerada ou dificuldade para respirar.
- Pele pálida, fria ou com manchas.
- Sonolência excessiva ou confusão mental.
- Frequência cardíaca muito elevada.
- Redução na quantidade de urina.
Atenção: diante desses sinais, procure atendimento médico imediatamente.
Conclusão
Esta metanálise revela que meninos (XY) com sepse pediátrica apresentam risco discretamente maior de morte do que meninas (XX), com tendência mais acentuada em países de menor renda.
Embora a magnitude seja pequena, o achado é consistente e abre caminho para investigações futuras sobre como interações entre biologia e determinantes sociais podem afetar desfechos críticos. Reconhecer padrões epidemiológicos sutis é um passo essencial para construir protocolos mais equitativos e salvar vidas.

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Referência:
KENNEDY, Colin E.; WONG, Henry R.; BAUMGARTEN, Andra M. et al. Sex Differences in Mortality Among Children With Sepsis: A Systematic Review and Meta-analysis. Critical Care Explorations, v. 7, n. 8, p. e1226, 2025. DOI: 10.1097/CCE.0000000000001226. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40162865/. Acesso em: 12 ago. 2025.