Sensibilidade ao glúten não celíaca: o que a ciência sabe até agora
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O que é a Sensibilidade ao Glúten Não-celíaca?
A sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) é um quadro clínico caracterizado por manifestações gastrointestinais e sistêmicas que surgem após a ingestão de alimentos contendo trigo ou outras fontes de glúten, em pessoas que não apresentam doença celíaca nem alergia ao trigo.
Trata-se de uma condição ainda pouco compreendida, tanto em seus mecanismos quanto em sua definição diagnóstica, o que contribui para debates contínuos na literatura científica.
Embora o glúten seja o principal candidato a desencadear os sintomas, outros componentes do trigo e fatores psicológicos também parecem exercer influência relevante.
Além disso, os carboidratos fermentáveis presentes no trigo (especialmente os FODMAPs) são considerados potenciais responsáveis por muitos dos sintomas tradicionalmente atribuídos ao glúten.
Isso sugere que a sensibilidade não celíaca ao glúten pode representar um fenômeno multifatorial, no qual elementos dietéticos, respostas individuais e mecanismos psicobiológicos se somam.

Qual a atual prevalência?
Uma metanálise recente, abrangendo 25 estudos e mais de 49 mil participantes de 16 países, demonstrou que cerca de 10% da população adulta relata algum grau de sensibilidade ao glúten ou ao trigo. Essa taxa, embora alta, refere-se ao autorrelato, e não à confirmação diagnóstica.
A análise revelou que a prevalência é maior entre mulheres, e aproximadamente 40% das pessoas que se consideram sensíveis adotam uma dieta isenta de glúten. Entre os sintomas mais frequentemente relatados estão distensão abdominal, desconforto ou dor abdominal e fadiga.
Estudos incluídos na metanálise também observaram que indivíduos com sensibilidade ao glúten autorrelatada apresentam maior probabilidade de descrever sintomas ansiosos e depressivos, além de uma associação expressiva com a síndrome do intestino irritável.
Esses achados reforçam a interseção entre a sensibilidade ao glúten não celíaca e os chamados distúrbios da interação intestino-cérebro, nos quais fatores digestivos e psicológicos se influenciam mutuamente.
Apesar do grande número de pessoas que acreditam ter sensibilidade ao glúten, pesquisas com desafios alimentares duplo-cegos (considerados padrão-ouro) mostram que apenas uma porcentagem menor, estimada entre 16% e 30% dos autorrelatos, reage especificamente ao glúten em condições controladas.

Cuidados com a interpretação
A interpretação desses dados, porém, é dificultada pela heterogeneidade metodológica existente entre os estudos.
Muitos testes utilizam alimentos contendo não apenas glúten, mas também carboidratos fermentáveis, que por si mesmos podem desencadear sintomas como gases, distensão e dor. Esse fator metodológico levanta dúvidas sobre o real papel do glúten como causa primária dos sintomas em grande parte dos casos atribuídos à sensibilidade ao glúten.
Outro aspecto relevante é o impacto cultural e econômico em torno do tema.
O mercado de produtos sem glúten cresceu de forma acelerada na última década, impulsionado por tendências de saúde, marketing e alta visibilidade na mídia. Isso contribuiu para que a SGNC passasse a ser percebida por muitos como uma condição comum ou mesmo como um diagnóstico autossuficiente, frequentemente sem acompanhamento clínico adequado.
Consequentemente, dietas restritivas são iniciadas espontaneamente, por vezes sem evidência de benefício real e com risco de deficiências nutricionais a longo prazo, especialmente quando não supervisionadas.

No contexto da pesquisa recente, a metanálise mostrou importante heterogeneidade entre os estudos analisados. Essa variabilidade reflete diferenças nos critérios adotados para definir a SGNC, nos métodos de avaliação dos sintomas, nas características das populações estudadas e em possíveis vieses de publicação.
Além disso, a dependência do autorrelato como critério principal limita a precisão dos achados, pois memórias imprecisas, expectativas e interpretações subjetivas podem distorcer a identificação dos gatilhos alimentares.
Outro ponto de destaque é que, apesar da cobertura geográfica ampla, ainda existem regiões com dados escassos ou inexistentes, o que reduz a generalização dos resultados para populações globais.

Ainda não há um biomarcador específico
No momento, a sensibilidade não-celíaca ao glúten continua sendo uma condição sem biomarcadores reconhecidos, o que torna o diagnóstico essencialmente clínico e dependente da exclusão de outras doenças.
O processo geralmente envolve a investigação de doença celíaca, alergia ao trigo e outros distúrbios gastrointestinais, seguida de uma avaliação estruturada da resposta a dietas com e sem glúten.
Como não há teste laboratorial definitivo, a precisão diagnóstica depende de protocolos rigorosos, que nem sempre são aplicados na prática clínica. Por essa razão, muitos especialistas consideram que a SGNC se insere no espectro dos distúrbios da interação intestino-cérebro, nos quais fatores emocionais, neuromodulatórios e alimentares interagem de maneira dinâmica.

Conclusão
Do ponto de vista do manejo, recomenda-se cautela. Intervenções dietéticas podem ser úteis para alguns pacientes, mas devem ser acompanhadas por profissionais capacitados, garantindo que a restrição alimentar não prejudique a ingestão de nutrientes essenciais.
Da mesma forma, é importante considerar o papel de fatores psicológicos, como ansiedade e expectativa, na modulação dos sintomas. Uma abordagem integrada, que contemple alimentação, saúde emocional e acompanhamento clínico, é considerada a estratégia mais segura enquanto a ciência continua a esclarecer os mecanismos envolvidos.
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Referências:
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Cárdenas-Torres, F. I., Cabrera-Chávez, F., Figueroa-Salcido, O. G., & Ontiveros, N. (2021). Non-Celiac Gluten Sensitivity: An Update. Medicina (Kaunas, Lithuania), 57(6), 526. https://doi.org/10.3390/medicina57060526
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Qual é a verdadeira prevalência global da sensibilidade ao glúten não celíaca? - Medscape - 04 de novembro de 2025.