Segurança do paciente em feriados: riscos, continuidade do cuidado e organização hospitalar
Durante os feriados, a segurança do paciente apresenta maior vulnerabilidade nos serviços de saúde. A redução da força de trabalho, a reorganização dos fluxos assistenciais e a fragmentação da rede de atenção criam um cenário em que eventos adversos se tornam mais prováveis, mesmo na ausência de falhas individuais.
As melhores práticas para mitigar esses riscos envolvem ações coordenadas em quatro dimensões centrais: identificação dos riscos específicos do período, garantia da continuidade do cuidado, organização adequada dos serviços de saúde e proteção do profissional contra sobrecarga e burnout, elementos inseparáveis da qualidade assistencial.
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Riscos à segurança do paciente em feriados
Há evidências consistentes de que pacientes internados, atendidos em emergência ou liberados para alta durante feriados apresentam piores desfechos clínicos, incluindo maior mortalidade, aumento de readmissões e maior complexidade na evolução clínica.
Esse fenômeno não decorre de um único fator, mas da convergência de fragilidades sistêmicas:
- Redução do número e da diversidade de profissionais disponíveis,
- Menor acesso a exames complementares e especialistas,
- Atrasos em decisões críticas,
- Descontinuidade do seguimento ambulatorial no pós-alta.
Populações mais vulneráveis, como idosos, crianças com condições crônicas e pacientes com menor suporte social ou barreiras de acesso ao sistema, são desproporcionalmente afetadas. Em feriados prolongados, a sobrecarga dos serviços de emergência atua como fator adicional de risco, funcionando como porta de entrada tardia para quadros que poderiam ter sido manejados precocemente em outros níveis da atenção.

Continuidade do cuidado em feriados e falhas de comunicação
A continuidade do cuidado é um dos pilares centrais da segurança do paciente em períodos de feriado. Sua falha expõe o paciente a riscos evitáveis, especialmente após altas hospitalares recentes.
Recomendações de sociedades médicas, como a American Academy of Pediatrics, destacam a importância de:
- Sumários de alta completos, com diagnóstico claro, plano terapêutico, sinais de alerta e contatos assistenciais;
- Orientações explícitas ao paciente e à família sobre o que fazer em caso de piora clínica;
- Planejamento antecipado para “dias de doença”, particularmente em pacientes pediátricos e crônicos.
Mudanças no funcionamento dos serviços durante feriados, como fechamento de unidades, redução de horários ou substituição de profissionais, devem ser comunicadas de forma proativa, clara e multicanal, garantindo que o paciente saiba exatamente onde e como buscar ajuda se necessário. Comunicação deficiente, nesses contextos, é reconhecida como fator contribuinte relevante para eventos adversos.
Organização dos serviços de saúde em feriados e impacto assistencial
A segurança do paciente em feriados depende menos do heroísmo individual e mais da qualidade do planejamento institucional.
Escalas de trabalho devem ser construídas de forma justa, transparente e previsível, equilibrando cobertura assistencial adequada e mitigação da fadiga profissional. Estudos mostram que modelos de escalonamento que consideram preferências individuais, compensações e rotatividade reduzem estresse, absenteísmo e risco de erro.
Além disso, o planejamento de recursos precisa antecipar:
- Aumento da demanda em serviços de urgência e emergência,
- Necessidade de cobertura para prescrições e intercorrências,
- Fluxos claros para transferência inter-hospitalar,
- Disponibilidade de equipes de retaguarda para suporte clínico e decisório.
Protocolos assistenciais bem definidos funcionam como barreiras de segurança, reduzindo a dependência excessiva de decisões improvisadas em contextos de suporte reduzido.

Burnout médico, sobrecarga e segurança do paciente no hospital
A segurança do paciente é inseparável da segurança do profissional de saúde. Ambientes que expõem médicos e equipes à sobrecarga contínua, especialmente em feriados, favorecem fadiga, erros cognitivos e queda na qualidade assistencial.
Estratégias organizacionais eficazes incluem:
- Sistemas de cobertura de prontuário eletrônico,
- Compartilhamento estruturado da responsabilidade clínica,
- Atuação de equipes multidisciplinares,
- Revisão periódica das listas de pacientes ativos antes de feriados prolongados.
A literatura aponta que sistemas capazes de absorver a ausência temporária de um profissional sem prejuízo ao cuidado representam um marcador de maturidade organizacional. Não se trata apenas de bem-estar ocupacional, mas de um componente essencial da segurança do paciente.
Leia também: Burnout Médico - como o esgotamento afeta empatia, profissionalismo e a formação de médicos
Considerações finais
A segurança do paciente durante os feriados não depende de esforços isolados, mas de planejamento antecipado, comunicação eficaz, organização robusta dos serviços e proteção ativa das equipes assistenciais.
As evidências mostram que o risco aumenta nesses períodos; ignorar esse fato significa aceitar desfechos adversos como inevitáveis, quando muitos são evitáveis. Embora a maior parte dos dados derive de contextos norte-americanos, os princípios gerais se aplicam amplamente, inclusive em sistemas de saúde com restrições estruturais.
Garantir segurança em feriados é reconhecer que o cuidado não pode entrar em modo reduzido quando a vulnerabilidade do paciente permanece integral.

Referências:
Lapointe-Shaw, L., Austin, P. C., Ivers, N. M., Luo, J., Redelmeier, D. A., & Bell, C. M. (2018). Death and readmissions after hospital discharge during the December holiday period: cohort study. BMJ (Clinical research ed.), 363, k4481. https://doi.org/10.1136/bmj.k4481
Lenti, M. V., Klersy, C., Brera, A. S., Musella, V., Benedetti, I., Padovini, L., Ciola, M., Croce, G., Ballesio, A., Gorgone, M. F., Bertolino, G., Di Sabatino, A., & Corazza, G. R. (2020). Clinical complexity and hospital admissions in the December holiday period. PloS one, 15(6), e0234112. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0234112