Pregabalina na prática clínica: indicações, posologia e manejo de efeitos adversos

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A pregabalina é um medicamento amplamente utilizado no Brasil para o manejo de condições de hiperexcitabilidade neural, especialmente a dor neuropática e a fibromialgia. Também desempenha um papel importante como terapia adjuvante no controle de crises parciais de epilepsia. Seu uso tem se expandido nos últimos anos devido à eficácia clínica, boa tolerabilidade e rápido início de ação, embora exija atenção quanto ao potencial de abuso, dependência e efeitos adversos específicos.

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Fundamentos farmacológicos e indicações da pregabalina

A pregabalina (Lyrica®) atua ligando-se com alta afinidade à subunidade α2-δ dos canais de cálcio voltagem-dependentes no sistema nervoso central. Essa ligação reduz a liberação de neurotransmissores excitatórios (glutamato, noradrenalina, substância P) e diminui a transmissão da dor e a excitabilidade neuronal.

Apesar de estruturalmente semelhante ao GABA, não age diretamente nos receptores GABAérgicos.

As principais indicações clínicas para o uso de pregabalina incluem:

  • Dor neuropática;
  • Neuralgia pós-herpética;
  • Fibromialgia;
  • Epilepsia (crises parciais);
  • Ansiedade generalizada (off-label).
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Leia também: critérios diagnósticos para fibromialgia.

Esquema de doses, titulação e ajustes da pregabalina

A dose de pregabalina deve ser individualizada de acordo com a condição tratada, resposta terapêutica e função renal do paciente. De modo geral, recomenda-se iniciar com doses mais baixas e fazer titulação gradual para minimizar efeitos adversos, especialmente tontura e sonolência.

Dor neuropática: iniciar com 150 mg/dia, divididos em 2 a 3 tomadas; pode-se aumentar para 300 mg/dia conforme resposta.

Neuralgia pós-herpética: titulação progressiva até 600 mg/dia, conforme tolerabilidade.

Fibromialgia: iniciar em doses menores e ajustar até 450 mg/dia, que costuma ser o limite de eficácia.

Crises parciais: dose alvo entre 300 e 600 mg/dia, como terapia adjuvante.

Como a pregabalina é eliminada predominantemente pelos rins, é essencial ajustar a dose em pacientes com redução da função renal, evitando acúmulo do fármaco e maior risco de efeitos adversos.

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Quais são os principais efeitos colaterais da pregabalina?

Os efeitos adversos mais comuns da pregabalina incluem tontura, sonolência e visão turva. Em geral, são eventos leves, mas podem comprometer atividades que exigem atenção, como dirigir ou operar máquinas.

Além desses, há relatos pouco frequentes que exigem cautela e, em muitos casos, suspensão imediata do medicamento:

Síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica: suspender o uso diante de qualquer sinal de reação cutânea grave.

Depressão respiratória grave: risco maior em pacientes predispostos ou em uso de depressores do SNC; suspender o medicamento.

Ideação ou comportamento suicida: monitorar atentamente e interromper o tratamento se necessário.

Encefalopatia: descontinuar em pacientes com fatores de risco ou sintomas sugestivos.

Distúrbios visuais: caso surjam queixas visuais persistentes, suspender o uso.

Angioedema: interromper imediatamente diante de edema de face, lábios, língua ou vias aéreas.

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Riscos de dependência, abuso e abstinência

A pregabalina apresenta risco reconhecido de abuso, dependência e síndrome de abstinência, sobretudo em indivíduos com histórico de uso de substâncias (especialmente opioides), transtornos psiquiátricos e maior vulnerabilidade social.

Dados de farmacovigilância indicam: aumento do uso recreativo da medicação, escalada de doses acima das prescrições, busca por efeitos euforizantes e ocorrência de abstinência após interrupção abrupta, com sintomas como ansiedade, irritabilidade e insônia.

O risco de abuso é superior com pregabalina quando comparado à gabapentina.

Além disso, casos de overdose são mais frequentes quando associados a opioides, benzodiazepínicos ou outros depressores do SNC, aumentando significativamente o risco de depressão respiratória e mortalidade.

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Recomendações práticas

A literatura sugere:

Evitar prescrever pregabalina para pacientes com histórico de dependência química ou alguns transtornos psiquiátricos;

Quando o uso for indispensável, realizar monitorização rigorosa de sinais de abuso e dependência;

Realizar retirada gradual, nunca suspensão súbita, para reduzir o risco de síndrome de abstinência.

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Referências:

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