Paracoccidioidomicose: panorama clínico, impacto epidemiológico e desafios diagnósticos no Brasil
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Paracoccidioidomicose: uma ameaça persistente em regiões agrícolas
A paracoccidioidomicose, também chamada de “tuberculose do campo”, “blastomicose sul-americana” ou “doença de Lutz-Splendore-Almeida”, é uma micose sistêmica causada por fungos do gênero Paracoccidioides.
Amplamente distribuída em áreas subtropicais, especialmente na América Latina, a doença permanece como um dos principais problemas infecciosos negligenciados em regiões rurais brasileiras.
Estima-se que até 10 milhões de pessoas já tenham sido infectadas por Paracoccidioides, e em áreas endêmicas a prevalência pode alcançar 75% da população adulta.
O Brasil concentra cerca de 80% dos casos registrados mundialmente, com incidência anual entre 1 e 3 casos por 100 mil habitantes — taxas mais elevadas nas regiões Sul e Sudeste.
A infecção acomete predominantemente trabalhadores rurais do sexo masculino, sobretudo entre 30 e 50 anos, refletindo o perfil ocupacional de exposição ao solo.

Manifestações clínicas: entre quadros agudos raros e formas crônicas predominantes
Clinicamente, a doença apresenta duas formas principais.
A forma aguda, responsável por apenas 5% dos casos, acomete crianças, adolescentes e adultos jovens de ambos os sexos. Costuma manifestar-se como febre persistente e linfonodomegalia generalizada, frequentemente simulando quadros mononucleose-like. Pode haver hepatosplenomegalia, acometimento osteoarticular, lesões cutâneas e, em situações mais raras, comprometimento do hilo hepático levando à icterícia obstrutiva.
A forma crônica, por sua vez, corresponde a 95% dos casos e predomina em adultos acima dos 30 anos, principalmente homens. O quadro pulmonar é quase universal: tosse produtiva persistente, febre e alterações radiológicas que lembram tuberculose. Lesões em pele e mucosas, especialmente na cavidade oral, também são frequentes.
Após a fase ativa, muitos pacientes evoluem para uma “forma residual”, marcada por sequelas como fibrose pulmonar, cicatrizes cutaneomucosas e disfunções persistentes de adrenal ou sistema nervoso central.

Da radiologia à microscopia: como a doença é identificada
O diagnóstico da paracoccidioidomicose costuma surgir a partir da suspeita clínica em pacientes com histórico de exposição rural e sintomas respiratórios de longa duração.
O raio X de tórax pode revelar o clássico padrão em “asa de morcego”, caracterizado por infiltrado bilateral simétrico em região peri-hilar.
A confirmação é feita pela visualização do fungo em escarro, raspado de lesões ou aspirado de linfonodos, mostrando o típico aspecto microscópico em “roda de leme”. Técnicas sorológicas, como ELISA e imunofluorescência indireta, e métodos moleculares, como PCR, também auxiliam na identificação.

Impacto e consequências da paracoccidioidomicose no Brasil
Sem tratamento adequado, a paracoccidioidomicose pode gerar sequelas graves e irreversíveis, especialmente no sistema respiratório e nas glândulas adrenais, comprometendo significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
A doença pode evoluir com fibrose pulmonar, insuficiência adrenal e alterações funcionais persistentes que limitam atividades cotidianas e a capacidade laboral, sobretudo em trabalhadores rurais.
Embora a mortalidade registrada no Brasil seja relativamente baixa — cerca de 0,14 por 100 mil habitantes —, o impacto crônico e incapacitante da infecção representa um desafio contínuo para a saúde pública, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento adequado.

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Referências:
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