Paracetamol: indicações, doses seguras e riscos na prática clínica

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O paracetamol (acetaminofeno) é um dos analgésicos e antipiréticos mais utilizados na prática médica, tanto em ambiente ambulatorial quanto hospitalar. Apesar de seu amplo uso e perfil de segurança favorável quando corretamente prescrito, trata-se de um fármaco frequentemente associado a erros de dose, uso concomitante inadequado e hepatotoxicidade evitável.

Após períodos como feriados prolongados, marcados por maior consumo de álcool e automedicação, o paracetamol assume papel central na prática clínica e exige atenção redobrada por parte do médico.

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Indicações clínicas do paracetamol

O paracetamol é indicado principalmente para o tratamento de dor leve a moderada e febre, sendo amplamente utilizado em adultos, crianças e idosos.

Na prática clínica, é empregado em:

  • Cefaleia, mialgia e lombalgia.
  • Dor musculoesquelética leve.
  • Estados febris de diversas etiologias.
  • Dor pós-operatória leve.
  • Pacientes com contraindicação relativa ao uso de AINEs.

Sua principal vantagem é a ausência de efeito anti-inflamatório periférico significativo, o que reduz riscos gastrointestinais, cardiovasculares e renais quando comparado aos anti-inflamatórios não esteroides.

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Mecanismo de ação: por que o paracetamol não é um AINE?

O mecanismo de ação do acetaminofeno não é completamente elucidado, mas sabe-se que sua principal atuação ocorre no sistema nervoso central, por meio da inibição da síntese de prostaglandinas centrais.

Diferentemente dos anti-inflamatórios não esteroides, o fármaco apresenta mínima inibição periférica da ciclooxigenase, o que explica sua ausência de efeito anti-inflamatório significativo, bem como a menor incidência de eventos gastrointestinais, renais e hematológicos.

Doses recomendadas e limites de segurança

A correta prescrição do paracetamol depende, sobretudo, do respeito aos limites máximos diários, que são frequentemente ultrapassados na prática.

Adultos

  • Dose usual: 500 a 1.000 mg por dose.
  • Intervalo: 6–8 horas.
  • Dose máxima diária: até 4 g/dia em adultos saudáveis.

Em muitos cenários clínicos, recomenda-se limitar a dose máxima a 3 g/dia, especialmente em uso contínuo.

Crianças

  • Dose habitual: 10–15 mg/kg/dose.
  • Intervalo: 6–8 horas.
  • Máximo: 60–75 mg/kg/dia, conforme idade e orientação clínica.
febre em crianças paracetamol

Hepatotoxicidade: o principal risco clínico

A toxicidade hepática é o evento adverso mais relevante associado ao paracetamol e pode ocorrer tanto por superdosagem aguda quanto por uso repetido acima do limite terapêutico.

O risco aumenta significativamente em:

  • Etilismo crônico.
  • Jejum prolongado ou desnutrição.
  • Hepatopatia prévia.
  • Uso concomitante de múltiplas formulações contendo paracetamol.

Após períodos festivos, não é incomum que pacientes utilizem diferentes medicamentos “para dor, febre ou ressaca” sem reconhecer que todos contêm o mesmo princípio ativo.

Paracetamol e álcool: atenção redobrada

O uso concomitante de paracetamol e álcool merece destaque. O consumo crônico de álcool induz enzimas hepáticas que aumentam a formação do metabólito tóxico (NAPQI), reduzindo a margem de segurança do fármaco.

Na prática:

  • Evitar doses elevadas em pacientes etilistas.
  • Considerar redução do limite máximo diário.
  • Investigar uso recente de álcool em quadros de dor ou febre após festas.
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Vantagens e limitações na prática médica

O paracetamol continua sendo uma opção de primeira linha em muitos cenários, especialmente quando se busca analgesia segura em pacientes com risco gastrointestinal ou renal.

Entretanto, sua aparente “simplicidade” contribui para banalização do uso e subvalorização dos riscos. Conhecer suas limitações é tão importante quanto reconhecer seus benefícios.

Pontos-chave para o médico

  • Paracetamol é analgésico e antipirético, não
  • Hepatotoxicidade é dose-dependente e evitável.
  • Atenção ao uso concomitante de múltiplas apresentações.
  • Redobrar cautela em etilistas e pacientes com hepatopatia.
  • Respeitar sempre os limites máximos diários.

Conclusão

O paracetamol permanece como um dos pilares da analgesia e antipirese na prática clínica. Seu uso seguro depende menos da complexidade farmacológica e mais da atenção aos detalhes: dose total diária, perfil do paciente e contexto clínico.

Em períodos de maior automedicação e consumo de álcool, como após feriados prolongados, o papel do médico é fundamental para prevenir eventos adversos evitáveis e garantir que um medicamento amplamente seguro continue sendo utilizado de forma responsável.

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Referências:

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Whittaker, R., & Cheema, N. (2025). Acetaminophen Toxicity. Journal of education & teaching in emergency medicine, 10(1), SI1–SI19. https://doi.org/10.21980/J8435R

Gerriets, V., Anderson, J., Patel, P., & Nappe, T. M. (2024). Acetaminophen. In StatPearls. StatPearls Publishing.

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