Órtese 3D de baixo custo para tratamento do pé torto congênito

Órtese 3D de baixo custo para tratamento do pé torto congênito
pé torto congênito

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Tecnologia que cabe no pé e no orçamento: UFPR desenvolve órtese 3D de baixo custo para tratamento do pé torto congênito

Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desenvolveram uma órtese pediátrica de baixo custo, produzida com tecnologia de impressão 3D, voltada para o tratamento de crianças com pé torto congênito (talipes equinovarus).

A iniciativa é conduzida no Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LITS), do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPR, e conta com apoio da Superintendência de Parcerias e Inovação (SPIn) da instituição. O projeto já entrou em fase de testes clínicos com pacientes no Hospital de Clínicas da UFPR.

O desenvolvimento dessa órtese responde a uma demanda assistencial urgente: a limitação de acesso a dispositivos ortopédicos personalizados no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente para pacientes pediátricos. O objetivo é oferecer uma alternativa funcional e financeiramente viável às órteses comerciais utilizadas na manutenção do alinhamento dos pés após a fase inicial de correção com o método de Ponseti.

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O papel das órteses no tratamento do pé torto congênito

O pé torto congênito (PTC) é uma malformação musculoesquelética que se caracteriza por quatro deformidades principais: equino do tornozelo, varo do retropé, adução do antepé e cavo plantar. É uma condição frequente, com incidência estimada entre 1 e 2 por 1.000 nascidos vivos, e representa uma das principais causas ortopédicas de incapacidade funcional na infância se não for corrigida adequadamente.

O tratamento de escolha para o pé torto congênito é o método de Ponseti, que inclui manipulações seriadas, imobilizações com gesso, tenotomia do tendão calcâneo (em muitos casos), e posterior uso contínuo de órtese abdução-barra para manter a correção obtida. A adesão ao uso da órtese, especialmente durante os primeiros 4 anos de vida, é determinante para o sucesso do tratamento e prevenção de recidivas, que podem ultrapassar 80% em casos de não adesão.

No entanto, as órteses disponíveis comercialmente apresentam obstáculos significativos: são padronizadas, geralmente importadas, têm alto custo (podendo ultrapassar R$ 2.000), e muitas vezes não se adaptam adequadamente à anatomia do paciente. Isso pode gerar desconforto, irritação na pele, limitação funcional e baixa aceitação familiar, impactando diretamente na continuidade do tratamento.

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A inovação tecnológica: impressão 3D e personalização anatômica

Com o objetivo de superar essas limitações, a equipe da UFPR utilizou a tecnologia de impressão 3D para criar uma órtese pediátrica personalizada, anatômica e financeiramente acessível. O projeto integra conhecimentos da engenharia biomédica, ortopedia pediátrica e design paramétrico, com potencial de aplicação em larga escala.

A órtese é composta por duas sapatas ajustadas à anatomia dos pés, conectadas por uma barra central rígida, que mantém os pés posicionados em abdução de forma semelhante às órteses comerciais. A fixação é realizada por meio de cintas ajustáveis. A modelagem digital é feita com base em escaneamento tridimensional ou medidas personalizadas dos pés da criança.

Os ângulos de abdução considerados respeitam os protocolos clássicos do método de Ponseti: cerca de 70° para o pé afetado e 30° a 40° para o contralateral. Essa adaptação individualizada permite maior conforto, além de favorecer o uso contínuo, fator crítico na manutenção da correção da deformidade.

O dispositivo é impresso em 3D utilizando a tecnologia FDM (Fused Deposition Modeling), com polímeros termoplásticos de baixo custo, como o PLA (ácido polilático), material de origem vegetal, biodegradável, biocompatível e com resistência mecânica adequada para aplicações ortopédicas leves. A leveza da estrutura, aliada à personalização, contribui para uma melhor aceitação pelas famílias.

O custo médio estimado da órtese final varia entre R$ 200 e R$ 300 por unidade, dependendo do tamanho do pé e da quantidade de material empregado — uma economia significativa em comparação com os modelos importados disponíveis no mercado brasileiro.

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Aplicações clínicas e testes em andamento

A tecnologia está sendo aplicada em fase experimental no Hospital de Clínicas da UFPR. Os testes clínicos, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, têm como objetivo principal avaliar:

  • A usabilidade do dispositivo em contexto real;
  • O nível de conforto relatado pelos responsáveis;
  • A durabilidade da órtese em uso prolongado;
  • A resposta clínica em relação à manutenção da correção ortopédica.

Além da produção da órtese em si, o projeto também inclui o desenvolvimento de um sistema digital de modelagem, que pode permitir a produção descentralizada e remota dos dispositivos, facilitando a replicação da tecnologia em centros de reabilitação, ambulatórios de ortopedia e hospitais com acesso a impressoras 3D.

A capacidade de impressão local também pode reduzir o tempo de espera por dispositivos ortopédicos sob medida e promover autonomia na produção, reduzindo a dependência de importações e fortalecendo a logística da assistência em regiões remotas.

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Implicações para o SUS e potencial de expansão

A proposta da UFPR representa uma estratégia concreta para ampliar o acesso ao tratamento ortopédico de base tecnológica no sistema público de saúde. Por aliar baixo custo, personalização, material nacional e tecnologia replicável, a órtese tem potencial de ser incluída em programas de fornecimento público de dispositivos assistivos, como os realizados por Centros Especializados em Reabilitação (CERs) e hospitais universitários.

Além disso, o modelo pode ser adaptado a outras indicações ortopédicas pediátricas que demandem contenção postural, como sequelas neurológicas ou outras deformidades congênitas.

O projeto foi desenvolvido por docentes e estudantes da graduação e pós-graduação da UFPR, com financiamento da Fundação Araucária e do Ministério da Saúde, por meio do Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG). Representa uma iniciativa de ciência aplicada com forte impacto social, fortalecendo o papel das universidades públicas como polos de inovação tecnológica voltada à saúde populacional.

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Referências:

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. Impressão 3D de baixo custo de órteses pediátricas para pé torto congênito. Ciência UFPR, 2024. Disponível em: https://ciencia.ufpr.br/portal/impressao-3d-baixa-custo-de-orteses-pediatricas-para-pe-torto-congenito/.

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