Nobel de Medicina 2025 revela segredo da imunoterapia
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Nobel de Medicina 2025: descoberta sobre a tolerância imune abre caminho para novas terapias contra o câncer e doenças autoimunes
O Prêmio Nobel de Medicina 2025 foi concedido nesta segunda-feira (6) aos cientistas Shimon Sakaguchi, Mary Brunkow e Fred Ramsdell, por suas descobertas sobre os mecanismos da tolerância imunológica periférica — um sistema de controle essencial que impede o corpo de atacar a si mesmo e, ao mesmo tempo, abre novas fronteiras para o tratamento de cânceres e doenças autoimunes.
A Assembleia Nobel do Instituto Karolinska, na Suécia, destacou que o trio “lançou as bases para um novo campo da imunologia, fundamental para o desenvolvimento de terapias imunológicas modernas”. Os laureados recebem um prêmio de 11 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,2 milhão) e uma medalha de ouro, entregue pelo rei da Suécia em cerimônia tradicional no dia 10 de dezembro.

A descoberta que transformou a imunologia moderna
Em 1995, Shimon Sakaguchi, da Universidade de Osaka, no Japão, desafiou o entendimento vigente ao demonstrar que o sistema imunológico possui dois níveis de tolerância: o central, no timo — responsável por eliminar linfócitos autorreativos ainda imaturos — e o periférico, que atua fora desse órgão, controlado por um grupo especial de células T.
Essas células, que Sakaguchi chamou de células T reguladoras (Tregs), funcionam como “freios” da imunidade, mantendo o equilíbrio entre defesa e autodestruição.
Em 2001, Mary Brunkow e Fred Ramsdell complementaram a descoberta ao identificar que mutações no gene FOXP3 impedem a formação adequada das Tregs, levando ao desenvolvimento de doenças autoimunes severas — como a síndrome IPEX, descrita em crianças.
Dois anos depois, em 2003, Sakaguchi demonstrou que o FOXP3 governa o desenvolvimento das próprias Tregs, unificando as descobertas e consolidando o conceito de tolerância imunológica periférica — uma revolução conceitual que transformou tanto a pesquisa em autoimunidade quanto o entendimento da evasão tumoral.

Quando o sistema imune se torna aliado do câncer
As descobertas do trio também ajudaram a explicar como alguns tumores conseguem escapar da destruição imunológica. Certos tipos de câncer, como pâncreas e pulmão de pequenas células, utilizam Tregs para silenciar as células de ataque, camuflando-se da vigilância imune.
Hoje, a densidade de Tregs em um tumor já é estudada como biomarcador prognóstico e preditivo de resposta à imunoterapia. Em alguns tumores, níveis altos dessas células indicam resistência ao tratamento; em outros, podem associar-se a melhor desfecho clínico.
Da teoria à prática: a era da imunoterapia
O entendimento sobre as Tregs e o gene FOXP3 pavimentou o caminho para os inibidores de checkpoint imune, como anti-PD-1 e anti-CTLA-4, que revolucionaram o tratamento oncológico. Essas terapias funcionam removendo os freios do sistema imune, permitindo que as células T ataquem o tumor.
Ensaios clínicos atuais investigam medicamentos que bloqueiam seletivamente as Tregs dentro do microambiente tumoral — como o mogamulizumabe, o sorafenibe e o sunitinibe — para aumentar a eficácia da imunoterapia.
Além da oncologia, o controle das Tregs é promissor em doenças autoimunes e transplantes. Versões modificadas da interleucina-2 (IL-2) vêm sendo testadas para estimular Tregs de forma controlada, com resultados iniciais positivos em diabetes tipo 1 e doenças inflamatórias intestinais.

Um prêmio que reforça a ponte entre imunologia e medicina
Mais de um século após sua criação, o Prêmio Nobel de Medicina continua reconhecendo avanços que transformam a prática clínica. Depois de laurear cientistas por descobertas como a penicilina e o microRNA, a edição de 2025 reafirma o impacto da imunologia translacional — ciência que conecta o laboratório à beira do leito.
As descobertas de Sakaguchi, Brunkow e Ramsdell não apenas explicam por que o corpo não se volta contra si mesmo, mas também oferecem novas ferramentas terapêuticas para reprogramar o sistema imune — tornando-o, cada vez mais, um aliado na luta contra o câncer, a autoimunidade e as rejeições em transplantes.
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Referências:
THE NOBEL ASSEMBLY AT KAROLINSKA INSTITUTET. Press release: The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2025. NobelPrize.org, 6 out. 2025. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2025/press-release/
THE NOBEL PRIZE. The Nobel Prize in Physiology or Medicine. NobelPrize.org, s.d. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/
THE NOBEL ASSEMBLY AT KAROLINSKA INSTITUTET. Summary: The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2025. NobelPrize.org, 06 out. 2025. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2025/summary/