Mindfulness para gestantes pode ajudar contra ansiedade perinatal

Mindfulness para gestantes pode ajudar contra ansiedade perinatal
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A gravidez e o parto apresentam desafios psicológicos, biológicos e sociais significativos. Apesar de seus efeitos a longo prazo tanto no feto quanto no recém-nascido, programas preventivos voltados para a ansiedade e questões cognitivo-comportamentais durante a gravidez têm recebido atenção relativamente limitada. Nos últimos anos, no entanto, tem havido uma ênfase crescente em aumentar a satisfação materna e criar uma experiência positiva de parto.

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Os riscos da ansiedade perinatal

A gravidez e o parto são socialmente considerados eventos naturais na vida da mulher. No entanto, frequentemente são acompanhados de ansiedade e mudanças psicológicas e físicas significativas.

Em países de baixa e média renda, a prevalência combinada de sintomas de ansiedade autorrelatados é de 29,2% durante o período pré-natal, e 24,4% durante o período pós-natal. Por outro lado, a prevalência de transtornos de ansiedade de fato diagnosticados clinicamente é de 8,1% no pré-natal e 16,0% no pós-natal.

Os principais fatores que contribuem para o medo e a ansiedade durante a gravidez incluem: o medo do parto, a apreensão em dar à luz uma criança com deficiência e preocupações com possíveis mudanças na vida pessoal, sendo que a ansiedade durante a gravidez é um preditor significativo de resultados adversos no parto.

A ansiedade crônica, por meio da estimulação sustentada do sistema nervoso autônomo, leva à contração da musculatura lisa arterial, à redução do fluxo sanguíneo uteroplacentário e à diminuição do suprimento de oxigênio para o útero. Essas alterações fisiológicas estão associadas a um aumento da incidência de frequências cardíacas fetais anormais e a um risco aumentado de parto prematuro.

Gestantes com altos níveis de ansiedade têm maior probabilidade de dar à luz crianças com hiperatividade, irritabilidade, baixo peso ao nascer e dificuldades para comer e dormir, em comparação com aquelas com níveis mais baixos de ansiedade.

Além disso, a ansiedade pré-natal tem sido associada a um risco aumentado de desenvolver esquizofrenia infantil, transtornos afetivos futuros, autismo e problemas respiratórios na prole.

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Satisfação com o parto: indicador de qualidade do atendimento materno

A satisfação das mulheres com a experiência do parto é considerada por profissionais de saúde e formuladores de políticas como um indicador-chave da qualidade do atendimento materno.Uma experiência positiva de parto contribui para a melhoria da saúde física e mental da mãe e do bebê, além de promover um vínculo mais forte entre eles.

A satisfação com o parto abrange a avaliação da mulher sobre sua experiência de trabalho de parto e parto, incluindo suas percepções sobre a qualidade do atendimento, seu senso de controle pessoal, o nível de apoio recebido e as intervenções médicas realizadas.

A satisfação com o parto está associada ao aumento da autoestima, atitudes maternas positivas em relação a futuras gestações, melhor bem-estar emocional e vínculos mais fortes com a criança.

Por outro lado, a insatisfação com o parto tem sido associada a uma série de desfechos adversos, incluindo depressão pós-parto, transtorno de estresse pós-traumático, abortos espontâneos subsequentes, disfunção sexual, maiores taxas de cesárea, sentimentos negativos em relação ao bebê, dificuldades de adaptação ao papel materno e desafios na amamentação.

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Estratégias para maior satisfação com a experiência do parto

Nos últimos anos, tem havido crescente ênfase na satisfação materna e na garantia de uma experiência positiva de parto. Mulheres que vivenciam experiências negativas no parto, lembrando-se do evento com dor, raiva, medo ou tristeza, podem enfrentar complicações como ansiedade pós-parto, redução da capacidade de amamentar, depressão pós-parto, aumento do risco de aborto, diminuição da função sexual, comportamento inadequado e negligência infantil.

Estratégias eficazes para aumentar a satisfação com a experiência do parto incluem:

a realização de aulas de preparação para o parto;

o fornecimento de aconselhamento para aliviar a ansiedade e promover uma perspectiva positiva sobre o parto;

educar as mães sobre as opções de parto natural, bem como o parto sem dor ou com dor, e;

abordar conceitos errôneos em torno do parto natural.

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Mindfulness para gestantes

Dada a associação entre problemas de saúde mental, ansiedade durante a gravidez, resultados adversos para a mãe e o bebê e insatisfação com a experiência do parto, é essencial fornecer intervenções psicológicas eficazes.

Intervenções baseadas em mindfulness têm sido propostas como uma abordagem promissora para lidar com os desafios da saúde mental. Essas intervenções visam ajudar pacientes a reconhecerem que os pensamentos são apenas "pensamentos", e não sua realidade objetiva.

Ao promover essa consciência, os indivíduos são encorajados a sair de suas estruturas mentais imediatas, permitindo-lhes perceber a realidade com mais clareza e melhorar sua capacidade de gerenciar eventos.

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Indivíduos atentos percebem as realidades internas e externas com clareza e sem distorção, demonstrando uma forte capacidade de navegar em seus ambientes. Eles vivenciam um amplo espectro de pensamentos, emoções e experiências, abrangendo aspectos positivos e negativos.

Embora alguns estudos sugiram que intervenções baseadas em mindfulness podem abordar eficazmente questões como depressão, estresse percebido, ansiedade, transtornos mentais, bem-estar e sintomas físicos, descobertas recentes de uma revisão sistemática e metanálise revelam resultados mistos.

Especificamente, algumas pesquisas indicam que não há impacto significativo da terapia de mindfulness em gestantes em comparação com grupos de controle. Além disso, lacunas notáveis ​​neste campo incluem o risco de viés nos estudos existentes e a falta de ensaios clínicos randomizados.

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O efeito do aconselhamento baseado em mindfulness nos níveis de ansiedade e satisfação com o parto entre gestantes primíparas

A satisfação com o parto natural é cada vez mais reconhecida como uma estratégia eficaz para reduzir a demanda por cesáreas. Programas de aconselhamento, particularmente o aconselhamento baseado em mindfulness, surgiram como uma abordagem promissora.

Este método promove a conscientização da atenção plena, permitindo que mães com ansiedade materna pratiquem meditação baseada em mindfulness. Por meio dessa prática, elas obtêm maior consciência de suas respostas emocionais e melhoram sua capacidade de gerenciá-las de forma eficaz.

Nesse sentido, pesquisadores da Universidade de Ciências Médicas de Kermanshah realizaram um estudo com o objetivo de avaliar o efeito do aconselhamento baseado em mindfulness nos níveis de ansiedade e na satisfação com o parto entre gestantes primíparas atendidas em centros de saúde na província de Kermanshah, localizada no oeste do Irã.

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Como o estudo foi realizado?

A população do estudo incluiu gestantes primíparas atendidas em centros de saúde na província de Kermanshah (oeste do Irã) em 2019. As participantes foram divididas de maneira aleatória em um grupo de “aconselhamento baseado em mindfulness" e grupo controle.

O critério que permitiu a identificação de mulheres que poderiam ser incluídas no estudo foi a pontuação de 8 a 25 (ansiedade leve e moderada) de um questionário de ansiedade de Beck com 21 itens.

Os critérios de inclusão foram: gestantes com 14 a 24 semanas de gestação, primíparas, gestação única, gravidez desejada e alfabetização.

Os critérios de exclusão foram: complicações médicas ou obstétricas, condições neurológicas ou psiquiátricas graves, uso de medicamentos narcóticos ou antipsicóticos ou tiveram histórico de dependência química, ideação suicida, psicose ou tentativas de suicídio.

Além disso, os indivíduos foram excluídos caso tivessem faltado a duas ou mais sessões de intervenção, desenvolvido uma doença mental que exigisse medicação durante a intervenção ou enfrentado estresse inesperado significativo durante o período de intervenção.

Participantes com experiência prévia em cursos de mindfulness, outras formas de psicoterapia, psicanálise ou aqueles que tenham enfrentado um evento traumático nos últimos meses também foram excluídos.

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Treinamento baseado em mindfulness

O programa de treinamento baseado em mindfulness incluiu principalmente atividades como meditação, conscientização respiratória, escaneamento corporal, yoga consciente, educação cognitiva sobre dor do parto, técnicas de manejo da dor e explicações sobre o processo de parto.

Após cada sessão, as participantes do grupo de intervenção foram instruídas a praticar mindfulness em casa por 30 a 40 minutos diariamente. Essas práticas em casa envolveram exercícios formais como respiração consciente, escaneamento corporal, yoga consciente e o espaço de respiração de 3 minutos, bem como práticas informais como alimentação consciente, escovação consciente dos dentes, lavagem facial consciente e incorporação da mindfulness em outros aspectos de suas rotinas diárias.

O grupo de intervenção, além dos cuidados pré-natais de rotina, recebeu oito sessões de aconselhamento em grupo com duração de 60 a 90 minutos, baseadas em mindfulness, duas vezes por semana.

O grupo controle recebeu cuidados pré-natais de rotina, incluindo aferição de peso, aferição da pressão arterial, aferição da altura uterina, controle da frequência cardíaca fetal (FCF), educação em saúde bucal e dentária, triagem de violência doméstica, triagem de tabagismo/álcool/uso de drogas e educação em saúde sexual.

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Questionários e escalas

Antes, imediatamente após e um mês após a intervenção, o formulário resumido do Inventário de Ansiedade na Gravidez de Van den Berg foi preenchido pelas participantes. Vinte e quatro horas após o parto, a escala de satisfação de Gungor foi preenchida por ambos os grupos.

O Questionário de Ansiedade Relacionada à Gravidez (PRAQ17) envolve cinco fatores:

  • Medo do parto (3 itens)
  • Medo de dar à luz uma criança com problemas de saúde física ou mental (4 itens)
  • Medo de mudanças no relacionamento conjugal (4 itens)
  • Medo de mudanças de humor e seu impacto na criança (3 itens) e
  • Medo egocêntrico ou medo de mudanças na vida pessoal da mãe (3 itens).

As escalas para medir a satisfação materna em partos normais e cesareanos (SMMS) foram preenchidas 24 horas após o parto por ambos os grupos.

O SMMS-parto normal inclui 10 domínios de percepção dos profissionais de saúde (4 itens), cuidados de enfermagem/obstetrícia no trabalho de parto (2 itens), conforto (4 itens), informação e envolvimento na tomada de decisões (8 itens), encontro com o bebê (3 itens), cuidados pós-parto (6 itens), quarto de hospital (4 itens), instalações hospitalares (3 itens), respeito à privacidade (3 itens) e atendimento às expectativas (4 itens).

Os desfechos primários analisados foram:

Ansiedade gestacional antes, imediatamente após e um mês após a conclusão da intervenção, utilizando o Inventário de Ansiedade na Gravidez de Van den Berg;

Satisfação com o parto 24 horas após o parto, utilizando a escala de satisfação de Gungor.

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O que os pesquisadores encontraram?

O estudo contou com 55 participantes, sendo que não houve uma diferença significativa na ansiedade entre os grupos no período anterior à intervenção.

Entretanto, houve diferença estatisticamente significativa entre os escores médios de ansiedade nos dois grupos imediatamente após e um mês após a intervenção.

Além disso, a pontuação média de ansiedade nos três estágios (antes, imediatamente após e um mês após a intervenção) foi significativamente diferente no grupo experimental, mas não foi significativa no grupo controle. A pontuação média de satisfação com o parto foi significativamente maior no grupo experimental do que no grupo controle.

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Possíveis explicações

Segundo os pesquisadores, o tratamento com mindfulness causa mudanças cognitivas na maneira de pensar e agir das pacientes e emprega princípios de imposição condicional. Assim, pacientes lutam para avançar para o próximo estágio e esse desejo contínuo de progresso leva a uma melhora gradual entre cada estágio. Com isso, o paciente continua se tratando com atenção plena e em paz e resolvendo os problemas nas sessões seguintes.

Além disso, foi demonstrado que o mindfulness aumenta a atividade na região cortical frontal, enquanto reduz a conectividade funcional nas regiões neurais envolvidas na resposta de luta ou fuga.

O mindfulness facilita o descentramento das gestantes em relação ao julgamento de seus pensamentos, emoções e sensações corporais angustiantes. Permite que os indivíduos observem seus pensamentos e sentimentos sem julgamento, visualizando-os não como parte de si mesmos ou como reflexos da realidade, mas sim como eventos mentais e físicos simples e transitórios que vêm e vão. Essa perspectiva pode contribuir para a redução dos sintomas de ansiedade.

A natureza grupal da intervenção pode ter contribuído para a redução observada na ansiedade. Fazer parte de um grupo ao lado de outras gestantes, compartilhar preocupações e se envolver em apoio mútuo provavelmente desempenhou um papel no alívio da ansiedade. O aconselhamento em grupo também enfatiza a expressão e a aceitação de emoções, promovendo um ambiente de apoio.

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Com relação ao efeito positivo do mindfulness na satisfação com o parto, o mindfulness oferece uma oportunidade para as mulheres usarem o período de transição da gravidez para o parto como um meio de aprender habilidades para a vida e gerenciar o estresse, a dor e o medo — experiências comuns durante essa jornada. Gestantes que praticam estar presentes no momento podem descobrir que conseguem navegar por essa transição com maior autoconfiança.

Oferecer informações detalhadas sobre o progresso do trabalho de parto, utilizar estratégias não farmacológicas de manejo da dor e envolver ativamente as mulheres nos processos de tomada de decisão podem aumentar a satisfação geral com a experiência do parto.

Por outro lado, a falta de informações adequadas sobre as condições do parto, particularmente entre mães de primeira viagem, está associada a um risco aumentado de uma experiência pós-parto mais negativa.

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Programas de mindfulness para gestantes são promissores

Este estudo sugere que o treinamento de mindfulness para gestantes pode melhorar significativamente a satisfação com o parto e reduzir a ansiedade durante a gravidez. O programa de 4 semanas de Mindfulness-Based Childbirth and Parenting (MBCP), implementado para gestantes no Irã, demonstrou eficácia e alta aceitabilidade como intervenção para a saúde mental materna. Para facilitar a implementação ativa de programas de MBCP por profissionais de saúde, é crucial organizar sessões de treinamento em serviço e desenvolver políticas de saúde de apoio.

Pesquisas futuras podem avaliar os efeitos das intervenções de mindfulness sobre indicadores fisiológicos maternos. Por exemplo, a espectroscopia funcional no infravermelho próximo (fNIRS) pode ser empregada para avaliar a ativação cortical durante tarefas de mindfulness.

Esta abordagem poderia fornecer informações sobre as respostas ao tratamento da atenção plena e ajudar a explorar os mecanismos fisiológicos subjacentes aos seus efeitos.

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Referências

FELI, R. et al. The effect of mindfulness-based counselling on the anxiety levels and childbirth satisfaction among primiparous pregnant women: a randomized controlled trial. BMC Psychiatry (2024) 24:964 https://doi.org/10.1186/s12888-024-06442-3.

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