MenstruAI: dispositivo pioneiro que usa sangue menstrual para detectar doenças

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Pesquisadores da ETH Zurich (Escola Politécnica Federal de Zurique) anunciaram em maio de 2025 o desenvolvimento de uma tecnologia pioneira: o MenstruAI, um dispositivo inovador que integra sensores em absorventes higiênicos para analisar biomarcadores presentes no sangue menstrual. Além do grupo de bioengenharia, o projeto envolve designers da Zurich University of the Arts (Universidade de Artes de Zurique) - o design precisa tornar o produto não apenas funcional, mas aceitável e confortável.

Essa iniciativa busca transformar um fluido até hoje pouco explorado na medicina em uma fonte valiosa de dados clínicos. O projeto, liderado pelo doutorando Lucas Dosnon e pela professora Inge Herrmann, propõe um método simples, não invasivo e acessível para monitorar a saúde feminina de forma cotidiana. A ideia é reduzir barreiras psicológicas e sociais ligadas ao uso de dispositivos que envolvem menstruação, ainda fortemente estigmatizada.

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De resíduo a fonte de dados clínicos: o valor do sangue menstrual

Apesar de mais de 1,8 bilhão de pessoas menstruarem no mundo, o sangue menstrual sempre foi considerado resíduo biológico sem valor clínico. Essa negligência reflete um desinteresse sistêmico pela saúde da mulher.

Segundo Dosnon, a inovação rompe com essa visão, ao demonstrar que o sangue menstrual contém centenas de proteínas, muitas delas relacionadas com biomarcadores já usados em exames convencionais de sangue venoso.

Esse fluido pode, portanto, fornecer informações sobre inflamações, tumores e condições ginecológicas como endometriose e câncer de ovário. A proposta do MenstruAI é justamente aproveitar essa fonte subutilizada para oferecer monitoramento regular e descentralizado.

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MenstruAI: como funcionam os absorventes inteligentes

O sistema é inspirado em testes rápidos como os de COVID-19, mas adaptado para absorventes. O princípio é simples:

  • Uso normal do absorvente – a paciente utiliza o absorvente que contém uma câmara de silicone com tiras de teste.
  • Coleta controlada – o sangue é direcionado de forma precisa ao sensor, evitando borrões e garantindo confiabilidade.
  • Reação imunoquímica – se o biomarcador específico estiver presente, ele reage com anticorpos na tira, gerando uma mudança de cor proporcional à concentração da proteína.
  • Leitura dos resultados – o resultado pode ser visto a olho nu ou, de forma mais precisa, fotografado com um smartphone.
  • Análise via app – um aplicativo com inteligência artificial interpreta a intensidade da cor e quantifica os níveis do biomarcador.
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Biomarcadores menstruais já avaliados no MenstruAI

Na fase inicial, o dispositivo foi calibrado para três biomarcadores:

  • Proteína C-reativa (PCR): marcador geral de inflamação.
  • Antígeno carcinoembrionário (CEA): associado a diversos tipos de câncer.
  • CA-125: relacionado a endometriose e câncer de ovário.

Esses três foram escolhidos pela relevância clínica e pela correlação estabelecida com doenças de alta prevalência em mulheres. Contudo, a equipe planeja expandir a lista para dezenas de proteínas, ampliando o espectro de rastreamento.

dispositivo pioneiro que usa sangue menstrual para detectar doenças

Validação científica do MenstruAI em absorventes inteligentes

Após estudos preliminares de viabilidade, os pesquisadores se preparam para realizar um ensaio de campo com mais de 100 participantes. Os objetivos principais são:

  • Avaliar a usabilidade no dia a dia;
  • Comparar resultados do MenstruAI com exames laboratoriais tradicionais;
  • Mapear a variabilidade biológica do sangue menstrual, que muda conforme o ciclo e entre diferentes indivíduos.

A etapa de validação também deve atender exigências regulatórias, como testes de biocompatibilidade dos materiais, já considerados seguros.

sangue menstrual na medicina

Sangue menstrual para detectar doenças: impacto na saúde feminina

A tecnologia tem grande potencial em termos de acessibilidade e equidade em saúde. Por ser barata, descartável e não exigir infraestrutura laboratorial, o MenstruAI poderia:

  • Facilitar rastreamentos populacionais em regiões com poucos recursos médicos;
  • Permitir detecção precoce de doenças graves;
  • Auxiliar no monitoramento longitudinal, identificando variações sutis ao longo do tempo;
  • Empoderar mulheres no acompanhamento da própria saúde.

No entanto, os autores deixam claro que o dispositivo não substitui exames diagnósticos convencionais. Ele funciona como um sistema de alerta precoce, orientando a busca por assistência médica quando necessário.

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Menstruação, estigma e desafios culturais do MenstruAI

Um aspecto notável do projeto é seu enfrentamento ao estigma da menstruação, presente até mesmo em ambientes acadêmicos. Herrmann relata que colegas inicialmente consideraram a ideia “nauseante” ou “impraticável”. A resistência cultural demonstra como a saúde da mulher foi historicamente negligenciada.

Para os pesquisadores, o MenstruAI representa também um ato político e social: desafiar padrões enraizados e ampliar o espaço da saúde feminina na ciência. Como disse Dosnon, são necessários projetos corajosos para transformar esse cenário.

Limites atuais e futuro da tecnologia MenstruAI

Entre os principais desafios estão:

  • Variabilidade biológica do sangue menstrual;
  • Regulamentação para uso clínico;
  • Aceitação cultural e quebra de barreiras psicológicas;
  • Necessidade de ensaios clínicos robustos para validação.

Se superados, o MenstruAI poderá se tornar o primeiro dispositivo a explorar de forma sistemática os dados de saúde contidos no sangue menstrual.

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O MenstruAI é mais que uma inovação técnica: é um marco no movimento por maior equidade na pesquisa biomédica. Ao transformar absorventes em ferramentas diagnósticas, a equipe da ETH Zurique oferece um caminho para integrar a menstruação à prática médica, um tema historicamente marginalizado.

Combinando acessibilidade, simplicidade e impacto social, o projeto tem potencial de revolucionar não apenas a forma como rastreamos doenças, mas também como a sociedade enxerga a saúde feminina. Ainda em fase de testes, ele representa uma aposta ousada na integração entre ciência, design e justiça em saúde.

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Referências:

Dosnon, L., Rduch, T., Meyer, C., & Herrmann, I. K. (2025). A Wearable In-Pad Diagnostic for the Detection of Disease Biomarkers in Menstruation Blood. Advanced science (Weinheim, Baden-Wurttemberg, Germany), 12(32), e05170. https://doi.org/10.1002/advs.202505170

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