Manejo da Uropatia Obstrutiva Infecciosa
Patógenos mais comuns, risco de resistência antimicrobiana e pilares do manejo clínico da uropatia obstrutiva infecciosa.
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A uropatia obstrutiva infecciosa ocorre quando a obstrução do fluxo urinário favorece a proliferação bacteriana no trato urinário, resultando em infecção potencialmente grave. Pode acometer indivíduos em qualquer faixa etária, mas apresenta maior incidência em dois grupos: lactentes, em decorrência de malformações congênitas, e idosos, principalmente homens, pela obstrução prostática.
Quais patógenos podem estar envolvidos na uropatia obstrutiva infecciosa?
A uropatia obstrutiva infecciosa resulta da associação entre obstrução mecânica do trato urinário e crescimento bacteriano, criando um cenário de maior gravidade clínica, risco de sepse e necessidade de tratamento rápido e direcionado.
Agente mais frequente: Escherichia coli.
- Principal uropatógeno em infecções comunitárias e hospitalares.
- Associada a casos de obstrução do trato urinário, como pielonefrite obstrutiva por cálculo ureteral.
- Destaca-se a presença de cepas multirresistentes, produtoras de β-lactamases de espectro estendido (ESBL), com resistência crescente a fluoroquinolonas e cefalosporinas.

Outros Enterobacteriaceae relevantes
- Klebsiella spp.
- Proteus spp. (associado à formação de cálculos por sua capacidade de produzir urease).
- Enterobacter spp.
- Citrobacter spp.
Esses patógenos são mais comuns em infecções hospitalares e em pacientes com fatores de risco, como cateterismo vesical, manipulação urológica prévia ou imunossupressão.
Situação especial: Transplantados renais
- Predomínio de cepas coli do complexo clonal ST131
- Altamente virulentas e frequentemente multirresistentes.
- Impacto clínico relevante na evolução do enxerto.
Menos comuns, mas ainda importante - Corynebacterium urealyticum
- Associado a pacientes com nefrostomia, manipulação urológica ou uso prévio de antibióticos.
- Causa cistite e pielite encrustante, quadros frequentemente subdiagnosticados.
- Pode levar à obstrução urinária e disfunção do enxerto renal em transplantados.
Em resumo: embora a E. coli seja o agente mais prevalente, a uropatia obstrutiva infecciosa deve levantar suspeita para patógenos multirresistentes (Enterobacteriaceae ESBL, ST131) e para agentes atípicos como C. urealyticum em contextos específicos.
Isso reforça a importância da coleta de urocultura antes da antibioticoterapia e da escolha cuidadosa do esquema antimicrobiano, sobretudo em cenários de risco ou em pacientes vulneráveis.

Como tratar a infecção na uropatia obstrutiva?
O manejo deve ser sempre considerado uma urgência urológica, pois a obstrução associada à infecção aumenta o risco de sepse grave e falência orgânica. O tratamento da uropatia obstrutiva infecciosa envolve três pilares principais:
- Estabilização clínica
Correção da instabilidade hemodinâmica com reposição volêmica e suporte vasopressor, se necessário.
Controle da dor com analgésicos adequados.
Suspender fármacos que aumentam o risco de complicações metabólicas, como: betabloqueadores, AINEs e antagonistas de aldosterona, que podem agravar a hipercalemia.
Em casos de taxa de filtração glomerular < 30 mL/min com sobrecarga hídrica, considerar o uso de diuréticos de alça.

- Antimicrobianos
A antibioticoterapia deve ser iniciada precocemente, idealmente após coleta de urocultura, e ajustada conforme resultados de sensibilidade. A escolha empírica deve considerar o perfil de resistência local e a alta prevalência de patógenos multirresistentes nesse contexto.
Primeira linha: Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia.
Alternativas: Levofloxacino, Ciprofloxacino, Piperacilina + Tazobactam.
Em casos graves (sepse, obstrução aguda, pacientes hospitalizados): carbapenêmicos (imipeném ou meropeném), frequentemente em associação com vancomicina até exclusão de infecção por Gram-positivos resistentes.
- Desobstrução do trato urinário
O desvio urinário de urgência é o ponto central do tratamento e deve ser realizado o mais precocemente possível. A escolha depende da disponibilidade local, experiência da equipe e condições clínicas do paciente.

Em resumo: o sucesso terapêutico na uropatia obstrutiva infecciosa depende da estabilização clínica imediata, do início rápido de antimicrobianos adequados e, sobretudo, da desobstrução urinária precoce, que é a medida mais eficaz para controle da infecção e prevenção de complicações.
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Referências:
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