O que está por trás do chamado “Ozempic Brasileiro”?

Ozempic brasileiro
caneta injetável

O termo “Ozempic brasileiro” tem ganhado popularidade para designar medicamentos produzidos no Brasil que mimetizam os efeitos clínicos das canetas de semaglutida, como o Ozempic. Contudo, o termo refere-se principalmente às canetas Olire e Lirux, da farmacêutica EMS, que contêm liraglutida — um agonista do receptor de GLP-1 da mesma classe farmacológica, porém com perfil farmacocinético distinto, exigindo aplicação diária e apresentando eficácia moderada em comparação à semaglutida, que é de uso semanal.

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Ozempic Brasileiro? Considerações Baseadas em Evidências sobre Semaglutida e Liraglutida

A liraglutida e a semaglutida são agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Embora pertençam à mesma classe farmacológica, apresentam diferenças estruturais e farmacocinéticas que influenciam diretamente sua posologia, eficácia e tolerabilidade.

Recentemente, foram lançados no Brasil os medicamentos Olire® (para obesidade) e Lirux® (para diabetes tipo 2), ambos contendo liraglutida e desenvolvidos pela EMS. Popularmente chamados de “Ozempic brasileiro”, eles não contêm semaglutida, princípio ativo do Ozempic®, Wegovy® e Rybelsus®, mas sim uma molécula da mesma classe com propriedades distintas.

A semaglutida possui meia-vida prolongada (~165 horas), permitindo administração subcutânea semanal (1 mg para diabetes, 2,4 mg para obesidade), além de estar disponível em formulação oral (Rybelsus®) para diabetes tipo 2.

A liraglutida, com meia-vida de 13–15 horas, exige administração diária (até 1,8 mg para diabetes e 3,0 mg para obesidade), como nas formulações Victoza®, Saxenda®, Olire® e Lirux®.

semaglutida manipulada Ozempic brasileiro

Estudos clínicos e meta-análises demonstram que a semaglutida é superior à liraglutida tanto na redução da hemoglobina glicada (HbA1c) quanto na perda ponderal. Em um estudo de 68 semanas, a semaglutida 2,4 mg promoveu uma perda de peso média 9,4 pontos percentuais maior do que a liraglutida 3,0 mg.

Ambos os fármacos apresentam eventos adversos gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia), geralmente transitórios e mais frequentes durante a fase de titulação. A incidência é semelhante entre os dois, embora alguns estudos indiquem taxas ligeiramente maiores de descontinuação com semaglutida. A conveniência posológica da administração semanal pode favorecer a adesão à semaglutida em alguns perfis de pacientes.

Em relação à segurança cardiovascular, tanto liraglutida quanto semaglutida demonstraram redução de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em estudos de desfecho específicos. A liraglutida mostrou benefício no estudo LEADER, enquanto a semaglutida apresentou resultados positivos no SUSTAIN-6 e no SELECT (em pacientes com sobrepeso/obesidade e sem diabetes), ampliando sua relevância terapêutica em populações de maior risco.

Ozempic brasileiro

Acesso, custo e disponibilidade no Brasil

A disponibilidade nacional de diferentes marcas — incluindo os recentes lançamentos de Olire® e Lirux® — tem ampliado o acesso à liraglutida, com custos potencialmente mais baixos, o que pode influenciar significativamente a escolha terapêutica, sobretudo em contextos fora da saúde suplementar.

Já a semaglutida, especialmente na formulação de 2,4 mg (Wegovy®), ainda enfrenta restrições de acesso e distribuição no Brasil, associadas a um custo consideravelmente mais elevado em comparação à liraglutida.

Com o fim da patente da semaglutida previsto para 2026, empresas brasileiras como Biomm e Hypera já anunciaram planos para comercializar versões genéricas ou biossimilares, o que pode democratizar o acesso a essa molécula de maior eficácia.

Além disso, novas classes de agentes injetáveis com dupla ação (como os agonistas de GLP-1/GIP, a exemplo da tirzepatida) vêm sendo avaliadas no Brasil, com resultados promissores tanto no manejo da obesidade quanto do diabetes tipo 2.

tirzepatida Zepbound Ozempic brasileiro

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Referências:

Rubino DM, Greenway FL, Khalid U, et al. Effect of Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Daily Liraglutide on Body Weight in Adults With Overweight or Obesity Without Diabetes: The STEP 8 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2022;327(2):138–150. doi:10.1001/jama.2021.23619

Collins L, Costello RA. Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists. [Updated 2024 Feb 29]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK551568/

Lau, J., Bloch, P., Schäffer, L., Pettersson, I., Spetzler, J., Kofoed, J., Madsen, K., Knudsen, L. B., McGuire, J., Steensgaard, D. B., Strauss, H. M., Gram, D. X., Knudsen, S. M., Nielsen, F. S., Thygesen, P., Reedtz-Runge, S., & Kruse, T. (2015). Discovery of the Once-Weekly Glucagon-Like Peptide-1 (GLP-1) Analogue Semaglutide. Journal of medicinal chemistry, 58(18), 7370–7380. https://doi.org/10.1021/acs.jmedchem.5b00726

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