Intoxicação por Metanol: riscos, tratamento e resposta do Ministério da Saúde
A intoxicação por metanol voltou a ser uma preocupação de saúde pública no Brasil após a identificação de casos possivelmente relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Os riscos do metanol incluem acidose metabólica grave, neuropatia óptica com cegueira irreversível, falência renal, respiratória e neurológica, além de alta mortalidade, especialmente em exposições agudas e não tratadas.
[lwptoc colorScheme="inherit" borderColor="#ffffff"]
Metanol em bebidas alcoólicas? Veja o caso recente no Brasil
O Brasil tem enfrentado um aumento significativo e preocupante nos casos de intoxicação por metanol, especialmente devido à adulteração de bebidas alcoólicas.
Em média, o país costumava registrar cerca de 20 casos por ano de intoxicação por metanol. Até ontem (5/10), quase 200 casos já foram relatados. Destes, 13 resultaram em óbito. São Paulo concentra a maior parte dos casos suspeitos, mas também há relatos em investigação em outras regiões como Pernambuco, Distrito Federal, Bahia, Mato Grosso do Sul e Paraná.
A principal suspeita e foco das investigações é a adulteração de bebidas alcoólicas destiladas (como whisky, gin e vodka) com metanol. Também se suspeita de ação criminosa na adulteração dessas bebidas, o que levou à abertura de inquérito pela Polícia Federal para apurar possíveis organizações envolvidas na cadeia de distribuição dessas bebidas adulteradas.

Quais os riscos do metanol?
O metanol (álcool metílico) é altamente tóxico para seres humanos, mesmo em doses reduzidas. Embora a exposição possa ocorrer por inalação ou contato cutâneo, os riscos são maiores em caso de ingestão - especialmente em contextos de adulteração de bebidas alcoólicas ou uso inadequado de produtos industriais.
Os principais riscos do metanol decorrem de sua metabolização hepática pela álcool desidrogenase, formando formaldeído e, subsequentemente, ácido fórmico, que é o principal responsável pela toxicidade sistêmica.
Os sintomas iniciais de intoxicação por metanol podem ser inespecíficos e incluem cefaleia, náuseas, vômitos, dor abdominal, tontura, visão turva e diminuição do nível de consciência.

Após algumas horas, podem surgir manifestações graves, como acidose metabólica com aumento do ânion gap, convulsões, coma e falência de múltiplos órgãos. A acidose metabólica é um marcador importante de gravidade e está associada a maior risco de complicações e mortalidade.
Um dos efeitos mais característicos e devastadores da intoxicação por metanol é a neuropatia óptica, que pode evoluir para cegueira irreversível devido ao efeito tóxico do ácido fórmico sobre o nervo óptico e a retina. Lesões histopatológicas incluem degeneração de axônios e células gliais do nervo óptico, além de danos retinianos.
Mesmo com tratamento, cerca de 30-40% dos sobreviventes podem apresentar sequelas visuais permanentes.
Além do comprometimento visual, a intoxicação por metanol pode causar insuficiência renal aguda, insuficiência respiratória, falência neurológica e, em casos graves, morte. A mortalidade hospitalar pode chegar a 24% em grandes séries, especialmente quando há múltiplas falências orgânicas.

Como tratar um caso de intoxicação por metanol?
O tratamento recomendado para intoxicação por metanol baseia-se em três pilares principais: inibição da metabolização do metanol, correção da acidose metabólica e remoção do metanol e seus metabólitos tóxicos do organismo.
Inibição da metabolização: o objetivo é impedir a conversão do metanol em seus metabólitos tóxicos (formaldeído e ácido fórmico) pela enzima álcool desidrogenase.
O antídoto de escolha é o fomepizol, um potente inibidor da álcool desidrogenase, aprovado para esse uso nos EUA. O etanol pode ser utilizado como alternativa quando o fomepizol não está disponível, pois também compete pela álcool desidrogenase, mas exige monitorização rigorosa e pode causar depressão do sistema nervoso central.

Hemodiálise: indicada em casos de acidose metabólica grave, concentração sérica de metanol ≥ 50 mg/dL (16 mmol/L), deterioração clínica, comprometimento visual ou insuficiência renal.
A hemodiálise remove rapidamente o metanol e o ácido fórmico, reduzindo a toxicidade e o tempo de exposição. Deve ser iniciada precocemente em casos graves, e o uso concomitante de fomepizol ou etanol deve ser mantido durante o procedimento.
Suporte e correção de distúrbios metabólicos: a acidose metabólica deve ser tratada com bicarbonato de sódio intravenoso, visando manter o pH acima de 7,30. Suplementação de folato (ácido folínico ou ácido fólico) pode ser administrada para acelerar a conversão do ácido fórmico em CO₂ e água, reduzindo a toxicidade.
Outras medidas de suporte incluem reposição de eletrólitos, hidratação e monitorização intensiva dos parâmetros laboratoriais e clínicos.
O tratamento deve ser iniciado imediatamente diante de suspeita clínica forte, mesmo antes da confirmação laboratorial, para evitar complicações graves e irreversíveis, como cegueira e morte.

Ministério da Saúde anuncia medidas de prevenção e tratamento
Na última quinta-feira (2/10), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou um conjunto de ações estratégicas para prevenir novos episódios e reforçar a capacidade de diagnóstico e tratamento em todo o país.
Entre as medidas, o Ministério da Saúde estruturou, em parceria com a Ebserh, um estoque de 4,3 mil ampolas de etanol farmacêutico, antídoto utilizado no tratamento de intoxicações por metanol. Além disso, já está em andamento a compra emergencial de mais 150 mil ampolas, distribuídas conforme a demanda dos estados. Até o sábado, dia 4, foram enviadas 580 ampolas de etanol para serem utilizadas como antídoto em cinco estados.
Outra frente importante é a busca pelo fomepizol, medicamento considerado o tratamento mais eficaz, mas que ainda não está disponível no Brasil. A Anvisa abriu chamada pública para identificar fornecedores internacionais e a pasta oficializou pedido à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para doação e aquisição do fármaco.

Recomendações à população
O Ministério da Saúde alerta para os riscos do consumo de bebidas de origem duvidosa, principalmente líquidos incolores e sem procedência clara. As recomendações principais são:
- Evitar destilados artesanais ou de origem desconhecida;
- Verificar sempre a procedência da bebida;
- Não aceitar bebidas de estranhos em bares ou eventos.
Além disso, reforça-se a importância de manter hidratação e alimentação adequadas durante o consumo de álcool e nunca dirigir após ingerir bebidas alcoólicas.

Diante de sinais sugestivos, o paciente deve procurar atendimento médico o quanto antes. Os casos suspeitos de consumo de bebidas com metanol devem ser notificados imediatamente pelos profissionais de saúde, mesmo antes da confirmação laboratorial.
Atualmente, o Brasil conta com 32 Centros de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), que funcionam como referência em toxicologia, auxiliando no diagnóstico, manejo clínico e vigilância de intoxicações químicas.
--
Referências:
BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministro da Saúde anuncia ações estratégicas para tratar intoxicação por metanol. Publicado em 02/10/2025.
BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde confirma 195 registros de intoxicação por metanol após ingestão de bebida alcoólica. Publicado em 05/10/2025.
BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde inicia distribuição de antídoto contra intoxicação por metanol a cinco estados. Publicado em 04/10/2025.
Jangjou, A., et al (2023). Awareness raising and dealing with methanol poisoning based on effective strategies. Environmental research, 228, 115886. https://doi.org/10.1016/j.envres.2023.115886
Kraut J. A. (2016). Approach to the Treatment of Methanol Intoxication. American journal of kidney diseases : the official journal of the National Kidney Foundation, 68(1), 161–167. https://doi.org/10.1053/j.ajkd.2016.02.058
Liberski, S., Kaluzny, B. J., & Kocięcki, J. (2022). Methanol-induced optic neuropathy: a still-present problem. Archives of toxicology, 96(2), 431–451. https://doi.org/10.1007/s00204-021-03202-0
Wang, C., et al (2023). Kidney outcomes after methanol and ethylene glycol poisoning: a systematic review and meta-analysis. Clinical toxicology (Philadelphia, Pa.), 61(5), 326–335. https://doi.org/10.1080/15563650.2023.2200547
Zniber, A., et al (2025). Methanol poisoning outbreak in a northwestern Moroccan town: report of 22 cases treated with hemodialysis. Clinical toxicology (Philadelphia, Pa.), 1–7. https://doi.org/10.1080/15563650.2025.2525410