Inteligência Artificial na Cirurgia Robótica: Avanços, Desafios e Perspectivas Futuras

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A cirurgia robótica vem passando por uma transformação significativa com o avanço da inteligência artificial. Estudos recentes demonstram que a inteligência artificial na cirurgia robótica tem potencial para executar tarefas com alta precisão, autonomia parcial e até completa em cenários experimentais. Embora o uso clínico ainda enfrente limitações técnicas e éticas, os progressos indicam um futuro em que robôs inteligentes poderão atuar de forma cada vez mais ativa e autônoma na prática cirúrgica.

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Uso de robô cirurgião avança com modelo baseado em IA e demonstra 100% de sucesso em colecistectomias ex vivo

Pesquisadores das universidades Johns Hopkins e Stanford deram um passo importante rumo à cirurgia robótica totalmente autônoma ao desenvolverem um sistema que combina planejamento cirúrgico e execução motora guiados por inteligência artificial (IA).

Segundo os autores, os testes com colecistectomias obtiveram uma taxa de sucesso de 100% em oito diferentes casos, operando de forma totalmente autônoma, sem intervenção humana.

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A tecnologia emprega uma abordagem hierárquica: uma camada superior, responsável pelo raciocínio e planejamento da tarefa, opera por meio de linguagem natural — permitindo que o robô compreenda e reaja a comandos de alto nível, como se estivesse recebendo instruções de um mentor cirurgião. A camada inferior executa os movimentos finos e precisos, ajustando-se em tempo real a variações anatômicas e operando com autonomia motora.

O treinamento do sistema foi baseado em técnicas de aprendizado por imitação, com mais de 17 horas de vídeos cirúrgicos e mais de 16 mil trajetórias de instrumentos extraídas de procedimentos realizados por cirurgiões experientes. Esse volume de dados alimentou o algoritmo que agora é capaz de reconhecer estruturas, aplicar clipes, realizar dissecções e cortar tecidos com precisão, mesmo diante de variabilidade anatômica.

A técnica escolhida para validação da cirurgia robótica autônoma foi a colecistectomia, procedimento amplamente realizado na prática cirúrgica e que envolve desafios técnicos consideráveis devido à proximidade de estruturas críticas e à variação anatômica entre pacientes.

O robô demonstrou capacidade de adaptação a situações imprevistas — um avanço considerável em comparação com tentativas anteriores, que exigiam ambientes altamente controlados e seguimento estrito de um plano fixo.

Os autores destacam que, embora o tempo cirúrgico do robô ainda seja superior ao de um cirurgião humano experiente, a precisão e a capacidade de correção de erros representam um avanço técnico inédito. Segundo Axel Krieger, líder da equipe de Johns Hopkins, o feito é comparável a "ensinar um robô a dirigir por uma estrada desconhecida apenas com base em regras de trânsito e conhecimento prévio de direção".

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores reconhecem que o uso clínico de um robô cirurgião ainda depende da superação de obstáculos técnicos, regulatórios e éticos. Questões como responsabilidade por falhas, tomada de decisão em cenários ambíguos e a integração com equipes cirúrgicas humanas permanecem em aberto. Até que essas barreiras sejam superadas, o controle das decisões continuará nas mãos de cirurgiões experientes.

Ainda assim, o estudo representa um marco no desenvolvimento de sistemas cirúrgicos inteligentes e aponta para um futuro em que a IA poderá atuar como assistente ou mesmo protagonista em procedimentos minimamente invasivos — ampliando a segurança, a padronização e a acessibilidade em contextos clínicos diversos.

Cirurgia robótica

Inteligência Artificial na Cirurgia Robótica: avanços tecnológicos e impacto na prática médica

A inteligência artificial (IA) está transformando profundamente diversos setores da sociedade, e na medicina, um dos campos mais promissores e dinâmicos é a cirurgia robótica. Trata-se de uma área em rápida evolução, marcada por inovações tecnológicas que têm ampliado as possibilidades terapêuticas, melhorado a precisão cirúrgica e redefinido os paradigmas do ensino e da prática médica.

Modelos avançados de IA têm sido incorporados às plataformas robóticas para fornecer aos cirurgiões métricas intraoperatórias em tempo real, incluindo medições de força, sensibilidade tátil e detecção precoce de estruturas anatômicas críticas. Esses sistemas possibilitam, por exemplo, a identificação de margens cirúrgicas comprometidas com maior acurácia, contribuindo para a redução de recorrência tumoral em cirurgias oncológicas.

Além disso, o uso da IA na cirurgia já permite automatizar etapas específicas de procedimentos, como suturas, dissecações e aplicação de clipes, com níveis de precisão comparáveis aos de especialistas humanos.

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No campo da educação médica, a IA também tem desempenhado um papel revolucionário.

A análise de vídeos operatórios e de dados de movimento dos instrumentos permite gerar avaliações objetivas e automatizadas de desempenho técnico, identificando padrões de movimento, tempo de execução e eficiência operatória. Esses sistemas têm o potencial de substituir ou complementar avaliações subjetivas, padronizando o ensino e permitindo o monitoramento contínuo da curva de aprendizado.

Além disso, pesquisadores vêm explorando o uso da IA na cirurgia para fornecer feedback intraoperatório personalizado durante simulações ou procedimentos supervisionados, ajustado ao nível de experiência do cirurgião. Isso pode tornar o treinamento mais eficaz e individualizado, acelerando o desenvolvimento de habilidades críticas e reduzindo riscos para os pacientes.

A integração da IA à cirurgia robótica representa, portanto, uma convergência poderosa entre ciência de dados, engenharia e prática médica. Seus impactos são sentidos não apenas no centro cirúrgico, mas também na formação de novos profissionais e na segurança do cuidado prestado ao paciente.

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Leia também: Cirurgia Robótica – História e Evolução dos Robôs na Medicina

Além da inovação: as barreiras éticas e regulatórias da IA na prática cirúrgica

Apesar do potencial promissor, o uso da IA na cirurgia robótica levanta questões éticas complexas. A primeira delas é quanto a privacidade, visto que a IA depende fortemente de dados.

O desenvolvimento de modelos de aprendizado de máquina (ML) para cirurgia robótica exige grandes volumes de vídeos cirúrgicos, dados de cinemática dos instrumentos, entre outros. Isso requer o compartilhamento em larga escala de dados entre diversas instituições.

A privacidade dos dados é uma preocupação central, especialmente diante do risco de ataques cibernéticos. O uso de métodos padronizados para anonimizar os dados desde a coleta até a utilização é fundamental para garantir essa proteção.

Além disso, modelos de ML frequentemente operam como uma “caixa-preta”. Em ambientes de alto risco, como a sala de cirurgia, a confiabilidade e a reprodutibilidade dos algoritmos de assistência inteligente são essenciais. A falta de transparência pode comprometer a confiança tanto dos cirurgiões quanto dos pacientes. Por isso, cresce o campo da “IA explicável” (explainable AI), e estão sendo estabelecidos padrões para o desenvolvimento e a divulgação de modelos de IA.

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Outra questão fundamental é a de que algoritmos podem apresentar vieses intrínsecos, o que pode perpetuar desigualdades na saúde ao discriminar com base em raça, gênero ou outras características. Esses vieses geralmente têm origem nos conjuntos de dados usados para treinar os modelos, mas podem ser mitigados com o uso de bases mais diversas e padronizadas, ou por meio de ajustes no processo de treinamento dos algoritmos.

Ainda, não está claro quem deve ser responsabilizado caso um paciente sofra um desfecho adverso relacionado ao uso de tecnologias baseadas em IA. Com o uso crescente desses algoritmos no diagnóstico, planejamento terapêutico e cirurgia robótica, a responsabilidade tende a ser compartilhada entre diferentes agentes: o médico, o fornecedor do software, o desenvolvedor do algoritmo e até mesmo a entidade que forneceu os dados usados para o treinamento da IA.

Em relação às questões financeiras, também temos uma questão ética importante. Por um lado, é importante manter incentivos adequados para que fabricantes de robôs e desenvolvedores de IA continuem impulsionando avanços na área, com foco na melhoria da assistência médica. Por outro, é necessário evitar o uso antiético de algoritmos com fins meramente lucrativos, como em casos em que o sistema recomenda medicamentos, exames ou dispositivos em desacordo com diretrizes clínicas, apenas para beneficiar financeiramente os envolvidos.

Por fim, se faz necessário um avanço na regulamentação da IA. Em outubro 2023, os Estados Unidos emitiram uma ordem executiva sobre uma IA segura, protegida e confiável, estabelecendo diretrizes para o desenvolvimento ético da IA. No Brasil, há um projeto de Lei em andamento que regulamenta o uso da IA – que aguarda aprovação pela Câmara dos Deputados.

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Da assistência à autonomia — o longo caminho até a aplicação humana

A realização de cirurgia robótica totalmente autônoma com inteligência artificial em humanos ainda não é uma realidade clínica. Atualmente, os sistemas robóticos cirúrgicos amplamente utilizados, como o Da Vinci, operam sob o paradigma “master-slave”, em que o cirurgião controla diretamente todos os movimentos do robô, sem autonomia decisória ou execução independente de tarefas complexas.

O desenvolvimento de aplicações intraoperatórias de inteligência artificial na cirurgia robótica está em estágio inicial, com a maioria das soluções apresentando apenas níveis baixos de autonomia, como assistência robótica (nível 1) ou autonomia de tarefas específicas (nível 2).

Apenas raros exemplos de autonomia condicional (nível 3) foram descritos, e nenhum estudo clínico em humanos foi identificado; a maioria dos experimentos ocorre em ambientes simulados, ex vivo ou em modelos animais, como suínos.

Há demonstrações experimentais de procedimentos autônomos supervisionados, como sutura e anastomose intestinal em modelos animais, que mostraram desempenho comparável ou superior ao de cirurgiões humanos em métricas específicas. No entanto, mesmo nesses casos, a autonomia é supervisionada e restrita a tarefas bem delimitadas, sem extrapolação para procedimentos cirúrgicos completos ou tomada de decisão intraoperatória independente.

A literatura destaca que, embora a IA já contribua para análise de imagens, navegação, feedback intraoperatório e automação de subtarefas, a cirurgia autônoma plena — em que o robô realiza todo o procedimento sem intervenção humana — permanece um objetivo futuro, com desafios técnicos, éticos, regulatórios e de segurança ainda não superados.

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Referências:

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