Infertilidade Masculina: impacto de diferentes modalidades de exercício sobre parâmetros seminais
A infertilidade masculina representa um importante desafio clínico, estando frequentemente associada à piora de parâmetros seminais, como volume, motilidade, concentração e morfologia dos espermatozoides.
Diversas intervenções não farmacológicas têm sido propostas como estratégias complementares para melhorar a função reprodutiva masculina, com destaque para a prática regular de exercícios físicos.
Evidências recentes apontam que diferentes modalidades de exercício promovem benefícios distintos sobre parâmetros específicos do sêmen: o exercício aeróbico ao ar livre mostrou-se eficaz na melhora do volume seminal; os chamados "outros esportes", como ioga e pilates, contribuíram significativamente para a motilidade e a contagem total de espermatozoides; o treinamento de resistência favoreceu a morfologia espermática; e o ciclismo aeróbico demonstrou impacto positivo na concentração espermática.
Veja uma revisão que aborda os efeitos fisiológicos do exercício físico sobre a infertilidade masculina, destacando as intervenções mais eficazes, seus mecanismos subjacentes e as limitações metodológicas ainda presentes na literatura.
[lwptoc colorScheme="inherit" borderColor="#f9f9f9"]
Infertilidade Masculina: da terapia antioxidante ao estilo de vida saudável como tratamento
Cerca de 30-80% da infertilidade masculina é atribuída aos efeitos negativos do estresse oxidativo sobre os espermatozoides. Ela ocorre quando as espécies reativas de oxigênio (EROs) excedem as defesas antioxidantes do sêmen, o que danifica proteínas, DNA e lipídios.
Danos ao DNA espermático induzidos pelo estresse oxidativo podem levar à diminuição da viabilidade espermática, danos à membrana acrossômica, diminuição da fertilização espermática e finalmente, diminuição da fertilidade. Portanto, intervenções eficazes para melhorar a função reprodutiva masculina são necessárias.
Atualmente, os principais medicamentos utilizados no tratamento da infertilidade masculina são antioxidantes, hormônios, hexacosanolona e levocarnitina (LC), que apresentam as desvantagens de efeitos colaterais não controlados, preço elevado, dependência caso a caso e prognóstico ruim.

Um estilo de vida saudável, como exercícios regulares, alimentação equilibrada e cessação do tabagismo, pode proporcionar um ambiente mais favorável aos processos reprodutivos e melhorar ou prevenir a regressão dos parâmetros hormonais e do sêmen.
O exercício aeróbico, como um dos estilos de vida importantes para a promoção da saúde, não apenas alivia o estresse psicológico e melhora a qualidade do sono, mas também melhora a adaptabilidade das funções musculares e cardiorrespiratórias, aumenta a capacidade do corpo de combater as respostas ao estresse e retarda os sintomas clínicos de algumas doenças crônicas.
Ao mesmo tempo, exercícios e intervenções não farmacológicas, como acupuntura, massagem e gua sha, foram desenvolvidos e aplicados no manejo e tratamento da infertilidade masculina.
Tratamentos não farmacológicos, especialmente por meio de modalidades de intervenção com exercícios, têm sua eficácia controlada e não apresentam efeitos colaterais, podendo ser usados para melhorar a qualidade, vitalidade e morfologia do esperma por meio de intervenções como a mudança de modalidades de exercícios, melhorando assim o condicionamento físico geral dos homens.

Há algum tipo de exercício físico que melhora a qualidade do esperma?
Para responder a essa pergunta, pesquisadores realizaram uma metanálise avaliando homens não congenitamente inférteis, sem doença da tireoide ou doença crônica, com a faixa etária entre 18 e 60 anos.
O grupo de comparação adiciona uma intervenção de exercício ao grupo controle, onde o tipo de exercício é um esporte ou uma combinação de mais de um esporte e não é combinado com outras intervenções.
Os desfechos avaliados foram: volume espermático, concentração espermática, motilidade espermática, morfologia espermática, contagem total de espermatozoides, densidade espermática, número de espermatozoides ativos e número de espermatozoides necróticos.
Leia: espermograma – como interpretar?

Foram avaliados 1.079 indivíduos, sendo 610 no grupo experimental e 469 no grupo controle. As principais intervenções utilizadas no grupo experimental foram: oito tipos de exercícios aeróbicos ao ar livre, exercícios aeróbicos em ambientes fechados, movimentos multicomponentes, esportes competitivos, treinamento de resistência, exercícios aeróbicos em bicicleta, exercícios aeróbicos de resistência e “outros esportes”. Em contraste, o grupo controle não praticou nenhuma atividade física regular.
Redução da densidade espermática associada ao treinamento aeróbico indoor e ao treinamento de resistência
Treinamentos aeróbicos realizados em ambientes fechados, assim como exercícios de resistência, demonstraram reduzir a densidade espermática em comparação aos controles.
Atividades aeróbicas intensas e prolongadas ao ar livre, particularmente de alta intensidade, podem comprometer a espermatogênese por meio da disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HPG) e do aumento do estresse oxidativo sistêmico. Esse ambiente fisiológico adverso pode suprimir a produção espermática e prejudicar a função reprodutiva masculina.
Esses achados indicam que modalidades específicas de exercício, especialmente aquelas de alta intensidade, devem ser consideradas com cautela no tratamento da infertilidade masculina.

Intervenções com Ioga e Pilates apresenta benefícios na contagem total de espermatozoides
Entre as intervenções avaliadas, práticas classificadas como “outros exercícios” — incluindo modalidades como ioga e pilates — demonstraram o maior impacto na melhora da contagem total de espermatozoides.
Esses efeitos podem estar relacionados ao maior gasto energético associado a essas atividades e a seus padrões integrativos de movimento e respiração, que podem modular positivamente os níveis de hormônios reprodutivos e favorecer a espermatogênese.
A ioga, em particular, enquanto prática complementar de medicina integrativa, atua na ativação de vias neuro-hormonais, promovendo maior perfusão sanguínea, fortalecimento da musculatura pélvica e perineal, regulação autonômica e redução do estresse oxidativo. Tais mecanismos contribuem para o equilíbrio hormonal — com ênfase na redução dos níveis de cortisol — e para a melhora da morfologia e viabilidade espermática.
Leia também: Yoga e fertilidade - benefícios da prática na saúde reprodutiva.

No entanto, ao se analisar parâmetros específicos, como a quantidade de espermatozoides móveis (ativos) e a proporção de espermatozoides necróticos (inativos), as diferentes intervenções com exercício físico não demonstraram diferenças estatisticamente significativas.
A ausência de impacto claro sobre essas subpopulações celulares sugere que a eficácia dos exercícios pode estar limitada a determinados aspectos da função reprodutiva ou pode variar de acordo com fatores individuais, como suscetibilidade ao estresse oxidativo, perfil hormonal basal e taxa de apoptose espermática.
Adicionalmente, alterações na contagem de espermatozoides necróticos podem refletir variações na dinâmica do dano oxidativo e nos mecanismos celulares de morte programada, os quais são potencialmente modulados de maneira distinta pelas diferentes modalidades de exercício.
Dessa forma, embora haja evidências promissoras sobre os benefícios globais do exercício para a saúde reprodutiva, a resposta espermática a essas intervenções permanece complexa e multifatorial.

Modulação da espermatogênese por intervenções físicas: da aeróbica ao treinamento de resistência
Entre as modalidades avaliadas, as intervenções aeróbicas realizadas ao ar livre demonstraram os efeitos mais significativos na melhora dos parâmetros seminais, seguidas por exercícios multicomponentes. Esportes competitivos e o treinamento aeróbico em ambientes fechados também contribuíram para o aumento do volume seminal.
A prática regular de exercícios aeróbicos ao ar livre, especialmente de intensidade moderada, parece exercer um efeito protetor contra a deterioração dos parâmetros espermáticos associada à síndrome metabólica, por meio da atenuação do estresse oxidativo.
Já o treinamento de resistência, resistido ou concorrente mostrou-se eficaz em elevar significativamente os níveis séricos de testosterona e hormônio luteinizante (LH), o que pode favorecer a espermatogênese e melhorar a qualidade seminal.
Embora os esportes competitivos promovam benefícios à saúde reprodutiva em geral, a prática de atividades de alta intensidade e carga crônica, como ocorre com atletas profissionais, pode resultar em disfunção testicular e alterações hormonais adversas. Nessas condições, observa-se um aumento dos níveis de estresse oxidativo no plasma seminal e uma redução das defesas antioxidantes enzimáticas, levando à disfunção da espermatogênese, com consequente piora na qualidade espermática e no potencial fértil.

Melhora da motilidade dos espermatozoides por intervenções físicas
No que se refere à melhora da motilidade espermática, a categoria denominada “outros esportes” — que inclui práticas como ioga e pilates — apresentou os resultados mais expressivos. Além disso, intervenções como treinamento aeróbico ao ar livre, treinamento de resistência, esportes competitivos e ciclismo aeróbico também demonstraram efeitos benéficos nesse parâmetro.
Exercícios aeróbicos moderados realizados em ambientes fechados mostraram-se eficazes em aumentar a capacidade antioxidante testicular, promovendo maior proteção contra danos oxidativos ao DNA espermático. Esse efeito parece estar associado ao aumento na expressão de enzimas antioxidantes endógenas e à elevação dos níveis de glutationa, resultando em melhor integridade funcional dos espermatozoides.

Melhora da qualidade espermática por intervenções físicas
Quanto à morfologia espermática, o treinamento resistido demonstrou ser uma intervenção promissora, ao lado do exercício aeróbico ao ar livre, do ciclismo aeróbico e de modalidades agrupadas como “outros exercícios”, como ioga e pilates.
No que se refere à concentração espermática, o ciclismo aeróbico foi a intervenção mais eficaz, seguido do exercício aeróbico em ambientes fechados.
Entretanto, apesar dos efeitos benéficos observados, o ciclismo prolongado e contínuo pode impactar negativamente a saúde reprodutiva masculina. Fatores como postura inadequada, tempo excessivo de prática e frequência elevada podem comprometer a vascularização escrotal e levar à redução da contagem espermática.
Essas possíveis divergências fisiopatológicas podem explicar variações entre os achados da literatura e os resultados do presente estudo, sendo influenciadas por aspectos como duração da intervenção e perfil dos participantes.

Moderação é a melhor estratégia
As intervenções baseadas em exercícios físicos demonstraram papel relevante na promoção da saúde reprodutiva masculina, com destaque para as modalidades agrupadas como “outros esportes” (como ioga e pilates) e para o treinamento aeróbico em ambientes fechados, que mostraram eficácia mais proeminente em diversas comparações.
De maneira geral, exercícios de intensidade moderada — como 30 a 60 minutos de atividade aeróbica, praticados 3 a 5 vezes por semana — estão associados a melhorias significativas nos parâmetros seminais, incluindo aumentos na concentração (12 a 17%), viabilidade (8 a 10%) e morfologia espermática.
Em contraste, a prática de exercícios vigorosos por mais de 10 horas semanais pode ter efeitos deletérios, com redução na concentração espermática de até 20%, sobretudo em regimes de alta frequência e intensidade, os quais promovem estresse oxidativo e comprometem a integridade do DNA espermático.
Quanto à duração da intervenção, programas moderados com 3 a 6 meses de duração foram eficazes em melhorar os parâmetros reprodutivos. Por outro lado, protocolos intensivos mantidos por mais de 12 meses podem prejudicar a qualidade seminal. Assim, recomenda-se um plano de exercícios moderados, com sessões de 30 a 60 minutos, de 3 a 5 vezes por semana, para obtenção dos melhores benefícios reprodutivos.

Os efeitos benéficos do exercício sobre a infertilidade masculina decorrem de múltiplos mecanismos
No eixo hormonal, o exercício moderado estimula a função do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HPG), promovendo o aumento dos níveis de testosterona, LH e FSH, e favorecendo a espermatogênese. Em contrapartida, o exercício intenso pode induzir elevações sustentadas de cortisol, que suprimem a atividade do eixo HPG e prejudicam a secreção de testosterona.
No aspecto oxidativo, o exercício moderado promove a atividade de enzimas antioxidantes, como superóxido dismutase e glutationa peroxidase, protegendo o DNA espermático contra os danos das espécies reativas de oxigênio (ERO). Já o exercício excessivo agrava o estresse oxidativo, podendo causar apoptose espermática e lesões no parênquima testicular.
Adicionalmente, a atividade física melhora a vascularização testicular, regula o metabolismo local e reduz mediadores inflamatórios, otimizando o microambiente reprodutivo. No plano psicológico, práticas como ioga e pilates contribuem para a redução do cortisol e o equilíbrio autonômico, enquanto exercícios aeróbicos favorecem a liberação de endorfinas, com impacto positivo na fertilidade ao mitigar o estresse crônico.
De forma geral, programas estruturados de exercícios moderados são eficazes e seguros na abordagem da infertilidade masculina, desde que respeitados os limites de intensidade e duração para evitar efeitos adversos.

Desafios e Lacunas na Evidência sobre Exercício Físico e Fertilidade Masculina
As diferenças entre países, condições clínicas, faixas etárias, índices de massa corporal (IMC), regimes de intervenção com exercício e critérios/métodos de avaliação inviabilizaram uma categorização homogênea e racional dos dados.
A limitação tanto na qualidade quanto na quantidade dos estudos incluídos compromete a generalização dos achados.
Diferentes tipos de exercício, protocolos de avaliação e padrões metodológicos podem influenciar de maneira variável os mecanismos fisiológicos relacionados à função reprodutiva masculina.Dessa forma, são necessários mais estudos clínicos controlados, com maior rigor metodológico e padronização de testes, para definir com maior clareza quais intervenções são mais eficazes e seguras.
Ainda assim, o fato de que diversas modalidades de exercício demonstraram benefícios consistentes na qualidade seminal, associado ao seu baixo custo e perfil de segurança, reforça o potencial dessas intervenções como estratégias complementares no tratamento da infertilidade masculina, especialmente em contextos de saúde pública e atenção ambulatorial.

Referências:
SONG, W. et al. Effectiveness of exercise interventions on sperm quality: a systematic review and network meta-analysis. Front. Endocrinol. 16:1537271. doi: 10.3389/fendo.2025.1537271.