Influência dos hormônios sexuais no controle da pressão arterial
Hormônios e hipertensão estão diretamente ligados. Estudos da American Heart Association revelam como o equilíbrio entre estrogênio e androgênios influencia o controle da pressão arterial e o risco cardiovascular em diferentes fases da vida.
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Hormônios e hipertensão: o que muda entre homens e mulheres
A regulação da pressão arterial (PA) é um processo multifatorial, dependente da interação entre mecanismos neurais, renais, vasculares e endócrinos. Entre esses componentes, os hormônios sexuais — principalmente estrogênios, androgênios e progesterona — têm se destacado como moduladores importantes da função cardiovascular.
Evidências crescentes indicam que as diferenças de gênero observadas nos níveis de PA e no risco de hipertensão não se devem apenas a fatores anatômicos ou comportamentais, mas também às variações hormonais ao longo da vida.
Durante a idade reprodutiva, as mulheres tendem a apresentar valores pressóricos mais baixos do que os homens, fenômeno que se inverte após a menopausa, quando ocorre a queda significativa dos níveis de estrogênio.

O estrogênio exerce efeitos vasoprotetores, promovendo vasodilatação mediada pelo óxido nítrico, redução da resistência vascular periférica e modulação da reatividade simpática. Por outro lado, os androgênios podem exercer ações opostas, favorecendo vasoconstrição, aumento da atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e retenção de sódio.
Alterações no equilíbrio entre estrogênios e androgênios, como ocorre na síndrome dos ovários policísticos (SOP), na menopausa ou em terapias de supressão androgênica em homens, têm sido associadas a variações significativas na PA.
No entanto, os mecanismos exatos dessa influência hormonal ainda não estão totalmente elucidados, e os efeitos das terapias hormonais sobre a PA permanecem inconsistentes entre os estudos.

O papel dos hormônios sexuais no controle da pressão arterial: o que diz a American Heart Association
Compreender como os hormônios sexuais interagem com os sistemas de controle cardiovascular é essencial para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas individualizadas e para o aprimoramento do manejo da hipertensão arterial, considerando as diferenças biológicas e hormonais entre os sexos.
Considerando a importância desse tema, o papel desempenhado pelo equilíbrio entre estrogênios e androgênios na regulação da pressão arterial, independentemente da concentração isolada de cada hormônio, foi avaliado por pesquisadores na Hypertension Scientific Sessions 2025, promovida pela American Heart Association.
O interesse em compreender as diferenças entre os sexos na regulação da PA vem crescendo, embora o impacto dos hormônios sexuais na hipertensão ainda seja pouco investigado.
Para o estudo, foram incluídos 14 estudos — sendo 4 ensaios clínicos randomizados e 10 observacionais — envolvendo mulheres na menopausa, mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) e homens submetidos a tratamento antiandrogênico.
O Dr. Vyom J. Patel, médico osteopata e residente de clínica médica na Indiana University School of Medicine (EUA), explicou que o objetivo da revisão foi analisar sistematicamente como as variações hormonais ou terapias hormonais afetam a PA, especialmente em populações que passam por transições hormonais significativas, como a menopausa ou a supressão androgênica.

Hormônios e pressão alta: o que muda na menopausa e na SOP
Em geral, antes da menopausa, mulheres apresentam pressão arterial mais baixa do que homens. Após a menopausa, a queda dos níveis de estrogênio associa-se ao aumento da PA, assim como em mulheres com SOP (caracterizada por excesso de androgênios), nas quais também se observa elevação pressórica.
Nos ensaios clínicos, a terapia de reposição estrogênica esteve associada a discreta redução da PA, ao passo que o uso de contraceptivos orais mostrou pequeno aumento. Em homens, o bloqueio androgênico promoveu leve queda da PA.
Um achado central da revisão da AHA foi que não apenas os níveis absolutos de estrogênio ou androgênios são determinantes, mas sim o equilíbrio entre eles — o chamado “balanço hormonal” — que parece exercer papel relevante na regulação cardiovascular.
Segundo o Dr. Vyom, os resultados foram heterogêneos, refletindo a complexidade dos mecanismos hormonais na regulação e controle da pressão arterial. Ele enfatizou que profissionais de saúde devem considerar o sexo biológico e o perfil hormonal do paciente ao avaliar e manejar a hipertensão.
Embora as terapias hormonais apresentem potencial efeito modulador, seus impactos sobre a PA são modestos e dependentes do contexto clínico, reforçando a necessidade de abordagens individualizadas.

Hormônios sexuais na saúde cardiovascular: quais são as limitações do estudo?
A revisão destacou o número reduzido de ensaios clínicos de alta qualidade e a heterogeneidade metodológica entre os estudos (diferenças de desenho, populações, tipos de terapia e métodos de aferição da PA).
O Dr. Vyom ressaltou a importância de ensaios maiores e mais padronizados, explorando tipos específicos de hormônios, vias de administração e subgrupos de pacientes que possam se beneficiar de intervenções hormonais.
A Dra. Sabrina Islam, professora associada de medicina na Lewis Katz School of Medicine (Temple University, EUA), destacou que compreender o papel fisiológico dos hormônios sexuais na saúde cardiovascular é essencial para aprimorar a prevenção e o manejo da hipertensão. Para ela, a principal contribuição do estudo está em demonstrar que o equilíbrio entre estrogênio e androgênios, mais do que os valores isolados, determina o comportamento pressórico.
Segundo a pesquisadora, níveis mais altos de estrogênio e menores de androgênios tendem a favorecer pressão arterial reduzida, embora essa relação varie conforme o contexto e o indivíduo.
A compreensão mais profunda dessas interações pode ajudar a identificar novas oportunidades terapêuticas e otimizar a vigilância clínica e o controle da pressão arterial em pacientes com risco cardiovascular aumentado.

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Referências:
Sex Hormones Drive Blood Pressure Regulation - Medscape - September 16, 2025.
Abstract TH180: Sex Hormone Modulation in Hypertension: A Systematic Review of Blood Pressure Effects. https://doi.org/10.1161/hyp.82.suppl_1.TH180
Drury, E. R., Wu, J., Gigliotti, J. C., & Le, T. H. (2024). Sex differences in blood pressure regulation and hypertension: renal, hemodynamic, and hormonal mechanisms. Physiological reviews, 104(1), 199–251. https://doi.org/10.1152/physrev.00041.2022
Willemars, M. M. A., Nabben, M., Verdonschot, J. A. J., & Hoes, M. F. (2022). Evaluation of the Interaction of Sex Hormones and Cardiovascular Function and Health. Current heart failure reports, 19(4), 200–212. https://doi.org/10.1007/s11897-022-00555-0