Gravidez e Doença Inflamatória Intestinal: um novo consenso
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Consenso inédito dobre gravidez e doença inflamatória intestinal
Pela primeira vez, um grupo internacional de especialistas de seis continentes elaborou um consenso global unificado sobre os cuidados na gravidez e doença inflamatória intestinal (DII), com recomendações abrangendo todas as etapas — da pré-concepção ao aleitamento.
O documento, publicado simultaneamente em seis periódicos de destaque (incluindo Clinical Gastroenterology and Hepatology, American Journal of Gastroenterology e Gut), estabelece condutas padronizadas e reforça a segurança do uso contínuo de medicamentos biológicos, tiopurinas e ácido acetilsalicílico em baixa dose durante a gestação e a lactação.
O documento também classifica toda gravidez em portadoras de DII como de alto risco obstétrico, exigindo acompanhamento multiprofissional.

Doença inflamatória intestinal na gestação: o que sabemos?
A Doença Inflamatória Intestinal (DII) é um termo que engloba principalmente duas condições crônicas: a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa. Ambas se caracterizam por inflamação recorrente do trato gastrointestinal, com períodos alternados de remissão e reativação da doença.
A Doença de Crohn pode afetar qualquer segmento do tubo digestivo, desde a boca até o ânus, geralmente de forma descontínua e transmural (atingindo todas as camadas da parede intestinal). Já a Retocolite Ulcerativa limita-se ao cólon e ao reto, com inflamação contínua restrita à mucosa.

Historicamente, a condução de gestantes com DII sempre foi permeada por incertezas, uma vez que os ensaios clínicos raramente incluem mulheres grávidas e as diretrizes variam entre diferentes sociedades médicas.
Essa escassez de evidências resultava em decisões clínicas inconsistentes e, muitas vezes, na suspensão de terapias imunossupressoras — o que aumentava o risco de reativação da doença e de complicações obstétricas.
Segundo Dr. Rogério Parra, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), a falta de dados robustos sobre o uso de medicamentos para gestantes gerava insegurança entre médicos e pacientes, culminando em condutas que poderiam ser prejudiciais tanto para a mãe quanto para o feto.

Novo consenso estabelece orientações para doença inflamatória intestinal na gestação
O consenso internacional, denominado “Global Consensus Statement on the Management of Pregnancy in Inflammatory Bowel Disease”, foi produzido por 39 especialistas em DII, obstetrícia, cirurgia colorretal e lactação, além de sete representantes de pacientes.
O grupo seguiu metodologias reconhecidas para formulação de recomendações clínicas: utilizou o método GRADE (para evidências robustas) e o RAND/UCLA (para situações com dados limitados), complementados por consenso entre especialistas.
O resultado foi um documento amplo, com 34 recomendações formais e 35 declarações de consenso, cobrindo temas desde fertilidade, manejo durante a gestação, parto, até desfechos neonatais e vacinação infantil.

Principais recomendações
Um dos pilares do consenso é o reconhecimento de que a atividade inflamatória da DII — e não o uso de medicamentos — é o principal fator associado a desfechos adversos. Assim, a manutenção da remissão é a prioridade absoluta durante toda a gestação.
Com base nas evidências atuais, os especialistas recomendam a continuidade dos imunobiológicos (como anti-TNF, vedolizumabe e ustequinumabe) e das tiopurinas, inclusive no terceiro trimestre e durante o aleitamento, contrariando recomendações antigas que sugerem suspensão temporária.
A interrupção dessas terapias mostrou-se associada a maior risco de reativação da doença, o que aumenta complicações tanto maternas quanto fetais.

Outro ponto inovador é a autorização do ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose entre a 12ª e a 16ª semana de gestação (na prevenção de pré-eclâmpsia) para as gestantes com DII, uma vez que os estudos mostram que tal prescrição não aumenta a atividade inflamatória intestinal. O AAS sempre deve ser associado à suplementação de cálcio, também protetora contra a pré-eclâmpsia.
Em termos de conduta obstétrica, o consenso reserva o parto cesáreo apenas para situações específicas — como doença perianal ativa ou presença de anastomose íleo-anal —, privilegiando o parto vaginal sempre que possível.
No campo da imunização, as novas recomendações representam uma mudança relevante: bebês expostos intraútero a medicamentos biológicos podem receber a vacina oral contra o rotavírus, desde que não apresentem contraindicações. A única vacina que deve ser adiada até os seis meses de idade é a BCG, devido à possibilidade de transferência transplacentária de IgG no terceiro trimestre.

Estudo PIANO
Essas orientações são sustentadas por dados de longo prazo provenientes de registros clínicos internacionais. O mais importante deles é o registro PIANO (Pregnancy Inflammatory bowel disease And Neonatal Outcomes), uma coorte prospectiva que reúne milhares de gestantes com DII.
Seus resultados confirmam, de forma consistente, que a exposição intraútero a biológicos e tiopurinas não aumenta o risco de malformações congênitas, abortos, parto prematuro, baixo peso ao nascer, infecções no primeiro ano de vida nem atraso no desenvolvimento infantil.
Estudos recentes reforçam também a segurança de biológicos mais novos, como ustequinumabe e vedolizumabe, que apresentam perfil de segurança semelhante ao dos anti-TNF. Mesmo havendo transferência placentária de IgG no final da gestação, não se observou repercussão clínica adversa nos recém-nascidos.
Uma análise recente do PIANO (2024) demonstrou que gestantes tratadas com ustequinumabe e vedolizumabe apresentaram desfechos obstétricos e neonatais comparáveis aos das coortes de referência, sem aumento de complicações.
Estudos de 2025 corroboraram esses achados, mostrando ausência de incremento de defeitos congênitos, natimortalidade ou necessidade de UTI neonatal em bebês expostos a vedolizumabe. Essas evidências reforçam a mensagem central do consenso: manter a terapia biológica eficaz durante toda a gestação é a estratégia mais segura para mãe e bebê.

Vacinação infantil e planejamento reprodutivo
A atualização da recomendação sobre vacinação infantil é outro avanço prático. Estudos recentes, incluindo uma revisão sistemática e um estudo prospectivo, mostraram que a aplicação da vacina oral contra o rotavírus é segura em bebês previamente expostos a anti-TNF, vedolizumabe ou ustequinumabe. Não houve aumento de eventos adversos graves. Essa liberação, restringindo apenas a BCG nos primeiros meses, tende a reduzir infecções evitáveis e hospitalizações no primeiro ano de vida.
Outro aspecto crucial enfatizado no consenso é o planejamento reprodutivo. Estudos mostram que mulheres em remissão no momento da concepção apresentam menor probabilidade de reativação da doença durante a gestação e menores riscos de aborto, prematuridade e restrição de crescimento fetal.
Por isso, o documento valoriza o aconselhamento pré-concepção estruturado, com integração entre gastroenterologia, obstetrícia e medicina fetal, garantindo que a gravidez ocorra em um período de estabilidade clínica.

Perspectivas
Nos países de renda média, como o Brasil, a padronização das condutas pode ter grande impacto na prática clínica.
O consenso fornece base para atualização de protocolos em centros de referência e para a implementação de diretrizes uniformes tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na saúde suplementar. Isso melhora o acesso e a continuidade dos tratamentos, além de reduzir desigualdades regionais no cuidado pré-natal de alto risco.
Assim, o consenso global sobre gravidez e doença inflamatória intestinal representa um marco no cuidado da gestante e da puérpera, unificando diretrizes e fortalecendo a evidência de que a continuidade do tratamento é mais segura do que sua suspensão.
O documento consolida o entendimento de que manter a remissão inflamatória é o fator mais determinante para o sucesso gestacional e neonatal, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de cuidado multidisciplinar, vigilância intensiva e acesso equitativo a terapias eficazes.

Referências:
Biológicos, tiopurinas e AAS: consenso inédito sobre gestação e DII - Medscape - 13 de outubro de 2025.
GEDIIB – Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil. Cartilha de gestação e Doença Inflamatória Intestinal. São Paulo: GEDIIB, 2024. Disponível em: https://gediib.org.br
Mahadevan, U., et al (2025). Global Consensus Statement on the Management of Pregnancy in Inflammatory Bowel Disease. Inflammatory bowel diseases, 31(10), 2615–2664. https://doi.org/10.1093/ibd/izaf171
PIANO study - https://pianostudy.org/
Schell, T. L., et al (2025). Safety of Rotavirus Vaccination in Infants That Were Exposed to Biologics In Utero: A Systematic Review. Inflammatory bowel diseases, 31(7), 1789–1796. https://doi.org/10.1093/ibd/izae220