Emergência em Saúde Pública: como reconhecer, prevenir e agir em situações de crise sanitária

Emergência em saúde pública
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O que constitui uma emergência em saúde pública?

A evolução dos padrões epidemiológicos e a rápida mudança no comportamento de doenças infecciosas levaram à necessidade de estabelecer o conceito de emergência em saúde pública. Esse termo abrange situações que exigem respostas imediatas e coordenadas para preservar a saúde da população.

É importante destacar que emergências em saúde pública não se limitam a doenças transmissíveis. Elas também incluem agravos decorrentes de desastres naturais, crises ambientais, interrupções de serviços essenciais e situações de desassistência que comprometam a proteção e o cuidado em saúde.

Emergência em saúde pública

Nesse contexto, podem ser considerados emergências em saúde pública:

- Surtos ou epidemias com risco de ampla disseminação, provocados por agentes infecciosos inesperados ou de relevância epidemiológica.

- Reintrodução de doenças previamente eliminadas, representando ameaça à segurança sanitária nacional.

- Situações com elevada gravidade ou que ultrapassem a capacidade de resposta das estruturas estaduais do SUS, demandando apoio adicional para contenção e manejo.

- Eventos reconhecidos pelo Poder Executivo Federal como situação de emergência ou estado de calamidade pública, que exijam atuação direta do setor de saúde.

  • Cenários oficialmente declarados como emergência ou calamidade pelo ente federado, nos quais a população fique vulnerável devido à incapacidade de resposta local.

Insuficiência de oferta de serviços ou incapacidade de atendimento à demanda, extrapolando a capacidade operacional dos níveis federal, estadual, distrital ou municipal do SUS.

Ao reconhecer a complexidade e a diversidade dos cenários que podem configurar uma emergência em saúde pública, torna-se indispensável adotar estratégias sistematizadas de prevenção e resposta.

Emergência em saúde pública

Medidas gerais de prevenção em casos de emergências de saúde pública

As medidas gerais de prevenção em situações de risco sanitário envolvem um conjunto de cuidados essenciais para reduzir a transmissão de doenças e garantir a segurança da população.

O primeiro ponto fundamental é assegurar o consumo de água potável.

Sempre que não houver abastecimento seguro, recomenda-se ferver a água ou utilizar métodos simples de purificação, como filtrar e adicionar duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro, aguardando 30 minutos antes do consumo. A água deve ser armazenada em recipientes limpos, tampados e de boca estreita, evitando a recontaminação.

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A higiene das mãos é outra medida indispensável.

As mãos devem ser lavadas com água e sabão sempre que houver sujeira visível, ou higienizadas com álcool 70% na ausência de sujidade aparente. Esse cuidado é especialmente importante antes do preparo de alimentos, antes de tocar os olhos, a nariz ou a boca e após o uso do banheiro.

O uso adequado de equipamentos de proteção individual também contribui para evitar infecções.

Máscaras, luvas e botas devem ser utilizadas principalmente ao manusear água, solo, entulhos ou materiais possivelmente contaminados. Além disso, recomenda-se evitar contato com água de enchentes e manter distanciamento físico sempre que possível, reduzindo o risco de transmissão por gotículas e aerossóis.

Emergência em saúde pública

No que diz respeito à segurança dos alimentos, é essencial garantir boas práticas de higiene durante a manipulação, incluindo limpeza rigorosa das mãos e utilização de equipamentos de proteção.

Os alimentos devem ser armazenados em recipientes limpos, secos, fechados e identificados, e aqueles envolvidos no preparo das refeições não devem apresentar sintomas respiratórios ou gastrointestinais.

Para evitar contaminações, é importante garantir o cozimento completo dos alimentos, proteger a cozinha contra insetos e roedores, preferir leite e derivados pasteurizados e nunca consumir itens vencidos.

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A higiene ambiental também desempenha um papel crucial na prevenção de doenças.

Os ambientes devem ser limpos regularmente, com aumento da frequência quando houver presença de secreções ou fluidos. O descarte dos resíduos precisa ser adequado, e a higienização das superfícies deve seguir duas etapas: limpeza com água e sabão, seguida de desinfecção com solução preparada com quatro colheres de chá de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro de água, usada imediatamente após o preparo.

Manter banheiros limpos, acionar a descarga com a tampa fechada e manter o lixo ensacado e coberto são práticas que ajudam a controlar vetores. Na ausência de sanitários, deve-se estabelecer uma área isolada para eliminação e enterrar as fezes de forma profunda, evitando contaminação do solo e de cursos d’água.

A limpeza de caixas d’água deve ocorrer a cada seis meses, tanto em instituições quanto em domicílios, e os ambientes precisam ser bem ventilados para favorecer a renovação do ar. O tratamento adequado do esgoto e a destinação correta dos resíduos completam esse conjunto de medidas, reduzindo a exposição ambiental a agentes infecciosos.

Biossegurança em serviços de saúde Emergência em saúde pública

Por fim, a prevenção depende também da educação em saúde e da organização adequada de espaços coletivos, como abrigos.

É fundamental informar a população sobre formas de transmissão, sinais de alerta e medidas eficazes de prevenção. Nos abrigos, a vacinação deve ser atualizada conforme as recomendações para situações de emergência.

A estrutura do ambiente deve contar com áreas delimitadas para dormir, preparar e consumir alimentos, higiene pessoal e descarte de resíduos, mantendo-se, sempre que possível, ao menos um metro de distância entre os colchões.

Além disso, é importante monitorar continuamente os riscos de surtos e as condições de higiene, incluindo a qualidade da água e o manejo dos alimentos. Essas medidas integradas fortalecem a proteção coletiva e minimizam o risco de disseminação de doenças em contextos adversos.

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Estratégias de imunização em emergências de saúde pública

A vacinação é uma das estratégias mais eficazes para prevenir doenças infecciosas, especialmente em situações de risco aumentado ou em contextos de emergência sanitária.

A vacina contra hepatite A constitui a principal medida preventiva e deve ser aplicada por via intramuscular, preferencialmente no músculo deltoide em adolescentes e adultos, ou no vasto lateral da coxa direita em crianças.

A vacina contra influenza pode ser administrada por via intramuscular ou subcutânea, sendo o deltoide o local preferencial de aplicação. De forma semelhante, as vacinas de febre tifoide e dengue são aplicadas por via subcutânea, também na região do deltoide.

Para a COVID-19, as vacinas atualmente recomendadas são, majoritariamente, as vacinas de mRNA, que apresentam melhor perfil de eficácia e segurança em comparação às vacinas de vetor adenovírus.

Em populações expostas a surtos ou vivendo em áreas de transmissão endêmica, a vacina contra cólera pode ser utilizada como medida preventiva adicional, sendo administrada por via oral.

A vacinação antitetânica permanece fundamental e deve ser atualizada conforme os esquemas recomendados para cada faixa etária e situação de exposição.

No caso da raiva, a vacinação pode ser realizada por via intradérmica ou intramuscular, com aplicação no músculo deltoide para adolescentes e adultos e no vasto lateral da coxa direita para crianças. Após 14 dias da última dose, é necessária a avaliação sorológica; valores inferiores a 0,5 UI/mL indicam a necessidade de uma dose de reforço intramuscular.

A vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) é administrada por via subcutânea na região do deltoide, seguindo o esquema de duas doses de 0,5 mL: a primeira aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de idade.

Para indivíduos não vacinados expostos ao vírus, adota-se a profilaxia pós-exposição com uma dose administrada em até 72 horas após o contato. Em situações que justifiquem imunização passiva, como risco aumentado de evolução grave, pode-se utilizar imunoglobulina na dose de 0,25–0,5 mL/kg em até seis dias após a exposição.

Essas medidas vacinais, quando corretamente aplicadas, reduzem substancialmente o risco de adoecimento e contribuem para o controle efetivo de diversos agravos infecciosos.

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Medidas específicas para prevenção de infecções

As medidas específicas variam conforme o agente etiológico e a forma de transmissão de cada doença.

Dengue

No caso da dengue, a ação mais importante é impedir a proliferação do Aedes aegypti. Isso inclui eliminar todos os potenciais criadouros do mosquito, como recipientes, pneus, vasos, lonas ou qualquer objeto capaz de acumular água parada.

Caixas d’água e reservatórios devem permanecer bem vedados, e, quando a eliminação do foco não for possível, recomenda-se o uso de larvicidas.

Repelentes aplicados corretamente sobre a pele e as roupas, telas em portas e janelas, mosquiteiros e a manutenção de ambientes limpos e sem acúmulo de água complementam a proteção e reduzem significativamente o risco de transmissão.

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Leptospirose

Para a leptospirose, a principal medida preventiva é evitar o contato direto com água de enchentes, lama ou áreas inundadas. Em situações de risco, o uso de botas e luvas impermeáveis torna-se indispensável.

A higiene ambiental, com eliminação de resíduos e ações que reduzam a presença de roedores — reservatórios da Leptospira — é essencial, podendo ser associada ao controle físico ou químico desses animais.

A quimioprofilaxia deve ser restrita a grupos com alta exposição.

Em pré-exposição, é indicada para militares, socorristas, voluntários ou trabalhadores atuando por curto período em áreas altamente endêmicas. Já a profilaxia pós-exposição é recomendada quando há contato direto com urina de animais potencialmente infectados ou situações de alto risco ambiental.

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Tétano

A prevenção do tétano baseia-se na proteção individual e na adequada abordagem de ferimentos. É imprescindível utilizar equipamentos de proteção quando se lida com materiais cortantes ou ambientes de risco, além de realizar a limpeza imediata e cuidadosa de qualquer ferimento com água corrente e sabão.

Em lesões com risco para tétano, podem ser necessárias medidas como vacinação, administração de soro ou de imunoglobulina, de acordo com a classificação do ferimento e o histórico vacinal do paciente.

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Ectoparasitoses

Nas ectoparasitoses, medidas de higiene e controle direto do parasita são fundamentais. A lavagem de roupas pessoais, roupas de cama e toalhas com água quente (idealmente acima de 50°C) auxilia na eliminação de piolhos, ácaros e seus ovos. Itens utilizados nas últimas 48 horas devem ser lavados e submetidos a secagem em alta temperatura.

Pessoas com contato próximo ao caso devem ser avaliadas e tratadas para evitar reinfestações. O pente-fino aplicado no cabelo úmido ajuda na remoção mecânica de lêndeas. Em situações de alta infestação em abrigos, pode-se considerar tratamento coletivo com ivermectina em dose única, além do uso de produtos tópicos como permetrina 1% ou deltametrina, sempre associados ao pente-fino para otimizar o controle.

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Raiva

Na prevenção da raiva após exposições potencialmente transmissíveis, a primeira medida é a lavagem abundante do local da lesão com água e sabão ou antissépticos, como clorexidina ou soluções iodadas.

Nos casos envolvendo cães e gatos, quando possível, o animal deve ser observado por 10 dias para monitorar sinais de adoecimento.

A necessidade de vacinação e soro antirrábico depende da gravidade da exposição, do estado clínico do animal e do histórico vacinal do paciente, seguindo os esquemas padronizados de profilaxia pós-exposição.

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Sarampo

As medidas específicas contra o sarampo incluem isolamento do paciente desde o período prodrômico até o sétimo dia após o início do exantema, devido à alta transmissibilidade do vírus por aerossóis.

Gestantes suscetíveis devem ser afastadas de qualquer contato com casos suspeitos ou confirmados e também de comunicantes durante o período de incubação, que pode chegar a 23 dias. O isolamento respiratório adequado requer máscaras do tipo PFF-2 ou N95.

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Malária

No caso da malária, a prevenção envolve estratégias individuais e coletivas.

Entre as medidas pessoais estão o uso de mosquiteiros — preferencialmente impregnados com inseticidas —, aplicação de repelentes, uso de roupas que cubram braços e pernas, instalação de telas nas residências e utilização de inseticidas no ambiente doméstico.

No âmbito coletivo, são essenciais ações de manejo ambiental, como drenagem de áreas alagadas, obras de saneamento destinadas a eliminar criadouros, limpeza e aterro das margens de corpos d’água, modificação do fluxo hídrico para evitar acúmulo de água parada, controle da vegetação aquática e melhorias estruturais nas moradias e locais de trabalho.

O planejamento urbano e o uso adequado do solo também contribuem para reduzir áreas propícias à proliferação do vetor.

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Referências:

Serviço de Controle de Infecção Hospitalar - Albert Einstein. Manual de Prevenção e Manejo de Doenças Infectocontagiosas em Desastres Climáticos. São Paulo: 2025.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. Guia de preparação e resposta à emergência em saúde pública por inundação. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.

Chackungal, S., et al (2011). Prehospital and Disaster Medicine, 26 (6), 429–437. doi:10.1017/S1049023X12000064

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