Doença de Pott: como reconhecer e manejar a tuberculose vertebral
A Doença de Pott, também chamada de espondilite tuberculosa, representa a manifestação mais frequente da tuberculose óssea, correspondendo a cerca de metade dos casos musculoesqueléticos. Provocada pelo Mycobacterium tuberculosis, afeta predominantemente a coluna vertebral e progride de forma lenta e silenciosa, o que pode atrasar o diagnóstico e levar à confusão com tumores ou outras infecções da coluna.
Veja a seguir uma análise detalhada sobre a Doença de Pott.
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Epidemiologia, fisiopatologia e relevância clínica da Doença de Pott
A doença de Pott, ou espondilite tuberculosa, é a forma mais comum de tuberculose osteoarticular, respondendo por cerca de metade dos casos musculoesqueléticos. Causada pelo Mycobacterium tuberculosis, acomete preferencialmente a coluna vertebral e evolui de forma insidiosa, o que frequentemente leva a diagnóstico tardio e confusão com neoplasias ou outras infecções vertebrais.

A tuberculose extrapulmonar representa cerca de 3% dos casos da doença, sendo que 10% correspondem à forma esquelética. A doença de Pott mantém relevância em populações vulneráveis, imunossuprimidos e regiões de alta endemicidade, e seu ressurgimento em países desenvolvidos tem sido associado ao aumento da migração global.
O processo patológico geralmente se inicia por disseminação hematogênica a partir de um foco pulmonar primário ou latente, atingindo principalmente as regiões torácica e lombar. A infecção provoca destruição progressiva dos corpos vertebrais, podendo levar a colapso, abscessos paravertebrais (incluindo abscesso do psoas) e deformidades angulares, como a cifose gibosa característica.
Complicações neurológicas, como paraplegia, podem ocorrer por compressão medular secundária à destruição óssea ou à presença de abscessos.

Manifestações clínicas, evolução e diagnóstico da Doença de Pott
A doença de Pott é a tuberculose da coluna vertebral, caracterizada por destruição óssea, formação de abscessos e risco de complicações neurológicas. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para prevenir sequelas graves.
Clinicamente, manifesta-se principalmente na junção toracolombar, sendo menos comum nas regiões cervical e torácica superior. A infecção se inicia na face anterior das articulações intervertebrais e progride posteriormente ao longo do ligamento longitudinal anterior, comprometendo corpos vertebrais adjacentes e, em estágios mais avançados, o disco intervertebral — inicialmente preservado nas imagens.
A evolução leva à necrose discal, estreitamento do espaço intervertebral e colapso vertebral, frequentemente resultando na deformidade de Gibbus, que pode comprimir a medula espinhal e causar paraplegia, especialmente na coluna torácica média. A paraplegia também pode ocorrer tardiamente devido a alterações degenerativas residuais ou formação de abscesso frio. Em alguns casos, há comprometimento não contíguo, com lesões em múltiplos níveis.
A confirmação diagnóstica combina exames de imagem — radiografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética —, que evidenciam destruição vertebral, abscessos e deformidades, com a detecção do M. tuberculosis por cultura ou PCR obtidos por biópsia.

Terapia antituberculosa e seguimento clínico
O tratamento da doença de Pott baseia-se em terapia antituberculosa prolongada, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), podendo incluir intervenção cirúrgica em casos de instabilidade vertebral, deformidade grave ou déficit neurológico.
A duração ideal do tratamento para tuberculose musculoesquelética não é totalmente estabelecida. Em pacientes que recebem agentes de primeira linha, 6 a 9 meses de terapia geralmente são suficientes. Regimes prolongados (9 a 12 meses) são indicados quando não se utiliza rifampicina ou em casos extensos e avançados, especialmente quando a resposta terapêutica é difícil de avaliar.
O acompanhamento clínico deve ser mensal sempre que possível; na impossibilidade, recomenda-se reavaliação pelo menos no 2º, 4º e 6º mês de tratamento. Nessas consultas, devem ser solicitados baciloscopia de escarro (BAAR), radiografia de tórax — quando disponível — para monitorar regressão das lesões e exames laboratoriais para controle de enzimas hepáticas.

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Referências:
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