Doação de sangue universal: a enzima que pode revolucionar a medicina transfusional

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Sangue universal: menos de 10% da população tem sangue O-

Você já parou para pensar que, em uma emergência, o tempo gasto para identificar o tipo sanguíneo pode ser decisivo? Agora imagine se toda doação pudesse ser usada em qualquer paciente, sem risco de incompatibilidade. Parece ficção científica, mas a ciência está cada vez mais perto de tornar isso realidade.

A transfusão de sangue é um dos pilares da medicina moderna. A escassez de bolsas de sangue do tipo O negativo — apenas 8 a 9% da população mundial — gera gargalos logísticos e aumenta o risco em situações de emergência.

Desde as primeiras tentativas no século XVII até a descoberta dos grupos sanguíneos por Karl Landsteiner, em 1901, aprendemos que compatibilidade é questão de vida ou morte. O sistema ABO, com suas diferenças de antígenos na superfície das hemácias, sempre foi um desafio logístico: manter estoques de todos os tipos sanguíneos, prever demandas e evitar desperdícios.

Mas, e se todo sangue pudesse ser transformado em O universal?

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Sangue universal: a tecnologia por trás da ideia

Um estudo recente publicado na Nature Biomedical Engineering apresenta uma abordagem inovadora: o uso de enzimas específicas capazes de remover os antígenos A e B das hemácias humanas, convertendo-as em células do tipo O - o sangue universal. Essa técnica já vinha sendo explorada em modelos experimentais, mas agora alcançou um nível de eficiência e segurança que permite vislumbrar aplicações clínicas.

Segundo a reportagem do Medical Xpress, a equipe responsável conseguiu otimizar enzimas derivadas de bactérias intestinais, tornando-as mais seletivas e eficazes. O resultado: glóbulos vermelhos “limpos”, sem os marcadores que desencadeiam reações imunológicas em receptores incompatíveis.

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Mecanismo bioquímico

  • As enzimas utilizadas são glicosidases bacterianas otimizadas por engenharia de proteínas.
  • Elas atuam removendo os resíduos de açúcares específicos (N-acetilgalactosamina no tipo A e galactose no tipo B) presentes na superfície das hemácias.
  • O resultado é a eliminação dos epítopos antigênicos responsáveis pela resposta imune mediada por anticorpos anti-A e anti-B.

Esse processo preserva a integridade estrutural e funcional da membrana eritrocitária, mantendo a viabilidade celular para transfusão.

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Metodologia do estudo

Para criar o sangue universal, os pesquisadores utilizaram enzimas glicosidases derivadas de bactérias intestinais (principalmente Flavonifractor plautii), otimizadas por engenharia de proteínas para maior seletividade.

Processo experimental:

  • Hemácias humanas dos tipos A e B foram incubadas em solução contendo as enzimas modificadas.
  • O tempo médio de reação foi de 60 a 120 minutos, em condições controladas de pH e temperatura.
  • Após o tratamento, as células foram lavadas e submetidas a testes de aglutinação e citometria de fluxo.

Resultados quantitativos:

  • Redução de >99,9% dos resíduos antigênicos A e B detectáveis.
  • Em ensaios de aglutinação, as hemácias convertidas não reagiram com soros contendo anticorpos anti-A ou anti-B.
  • A viabilidade celular permaneceu acima de 95%, sem alterações significativas na morfologia eritrocitária.
  • Em modelos pré-clínicos, não foram observadas reações hemolíticas imediatas.
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Achados principais

  • A conversão foi altamente eficiente em diferentes amostras de sangue, sugerindo aplicabilidade ampla.
  • O processo não comprometeu a integridade da membrana eritrocitária nem a capacidade de transporte de oxigênio.
  • A técnica mostrou potencial de escalabilidade, com custo estimado competitivo frente ao desperdício atual de bolsas incompatíveis.

Impacto clínico e logístico

Se essa tecnologia se consolidar, os bancos de sangue poderão:

  • Reduzir drasticamente a escassez de tipos sanguíneos raros.
  • Simplificar a logística de armazenamento e distribuição, com estoques unificados, reduzindo perdas por vencimento.
  • Aumentar a segurança transfusional, já que o risco de incompatibilidade e reações hemolíticas agudas seria minimizado.
  • Impacto em emergências, permitindo transfusões imediatas sem tipagem prévia, especialmente em politraumas e hemorragias massivas.

💡 Imagine um pronto-socorro em que cada bolsa disponível pudesse ser usada em qualquer paciente, sem a corrida contra o tempo para tipagem e compatibilidade, com estoque mais simples, menos desperdício e mais segurança.

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Limites e desafios para medicina transfusional

Apesar do entusiasmo, ainda há pontos críticos:

  • Segurança imunológica: comprovar ausência de resíduos antigênicos detectáveis por anticorpos naturais.
  • Custo e escalabilidade: transformar milhões de bolsas de sangue exige processos industriais robustos.
  • Regulação: aprovação por agências como FDA e EMA dependerá de ensaios clínicos robustos, avaliando eficácia e segurança a longo prazo.
  • Compatibilidade além do ABO: o fator Rh e outros sistemas menores (Kell, Duffy, Kidd) continuam sendo relevantes.
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O futuro da transfusão

A conversão enzimática de hemácias representa um marco potencial na medicina transfusional. Se validada em estudos clínicos multicêntricos, poderá transformar a gestão de hemocentros, reduzir desigualdades no acesso ao sangue e aumentar a segurança transfusional globalmente.

Mais do que uma inovação laboratorial, trata-se de uma mudança de paradigma: a possibilidade de tornar cada doação um recurso universal, ampliando a autonomia dos sistemas de saúde e salvando vidas em contextos críticos.

Estaremos diante do fim da tipagem sanguínea como conhecemos?

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Referências:

Medical Xpress. “Enzyme technology could make human blood universally compatible.” (2025). https://medicalxpress.com/news/2025-10-enzyme-technology-human-universal-donor.html

MacMillan, S., Hosgood, S.A., Walker-Panse, L. et al. Enzymatic conversion of human blood group A kidneys to universal blood group O. Nat Commun 15, 2795 (2024). https://doi.org/10.1038/s41467-024-47131-9

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