DIU Mirena por até 8 anos: guia clínico, técnica de inserção e cuidados pós-procedimento
O DIU Mirena é amplamente utilizado tanto para contracepção quanto para controle de distúrbios menstruais. Recentemente, uma importante atualização em sua bula ampliou o tempo de eficácia contraceptiva para até 8 anos no Brasil. Neste texto, você encontrará informações essenciais sobre o funcionamento do DIU Mirena, suas contraindicações, a técnica correta de inserção e os principais cuidados após o procedimento.
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Como funciona o DIU Mirena?
De maneira geral, o DIU leva a uma reação inflamatória intrauterina, o que impede o processo gestacional. O Mirena é um DIU hormonal, que contém um reservatório de levonorgestrel com 52 mg, e libera 20 mcg diariamente, com diminuição gradual com o tempo.
A utilização do Mirena leva a uma resposta inflamatória a corpo estranho. Dessa forma, torna o muco cervical espesso e hostil, o que afeta a função, motilidade e capacitação espermática, e reduz o crescimento endometrial (atrofia endometrial). É um DIU que oferece benefícios adicionais à paciente por reduzir substancialmente o fluxo menstrual e a dismenorreia, além de oferecer proteção endometrial.

Quais as contraindicações para uso do DIU Mirena?
As contraindicações para a colocação do DIU hormonal são:
- Gravidez ou suspeita de gravidez.
- DIP (Doença Inflamatória Pélvica) em curso ou recorrente.
- Infecção uterina pós-parto ou pós abortamento.
- ITU (Infecção do Trato Urinário) baixa.
- Infecção do colo uterino.
- Diagnóstico ou suspeita de câncer de colo uterino.
- Tumores dependentes de progesterona.
- Doenças hepáticas.
- Presença de miomas que deformam a cavidade uterina.
- Hipersensibilidade ao levonorgestrel.

Atualização importante na bula do DIU Mirena: duração do efeito contraceptivo é ampliada para 8 anos
Uma novidade relevante para mulheres que utilizam ou consideram o uso do DIU Mirena como método contraceptivo: a bula do produto foi atualizada no Brasil, ampliando oficialmente sua eficácia contraceptiva para até 8 anos.
Antes, a duração aprovada era de até 5 anos. Agora, estudos clínicos de longo prazo comprovaram que o
Mirena mantém sua segurança e eficácia entre o 6º e o 8º ano de uso,o que levou à aprovação da atualização pela ANVISA.
Lembrando que a extensão para 8 anos se aplica exclusivamente à função contraceptiva. Para outras indicações, como o tratamento da menorragia, a recomendação de uso permanece de até 5 anos.
Além disso, a indicação é apenas para o uso do Mirena – o Kyleena segue com indicação máxima de 5 anos.
A decisão da ANVISA está alinhada com evidências científicas robustas e segue atualizações já adotadas por agências regulatórias internacionais, como a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos.
Embora ainda não tenha sido amplamente divulgado um comunicado oficial da ANVISA, a Bayer, fabricante do Mirena, já orienta a nova recomendação em seus materiais atualizados.

Revisando a técnica de colocação de dispositivo intrauterino (DIU / SIU)
O DIU pode ser inserido em qualquer dia do ciclo, mas o mais indicado é no período menstrual pela certeza de a paciente não estar grávida e pelo fato do orifício cervical estar mais aberto e relaxado - o que também é observado até 48 horas pós-parto.
O primeiro passo é explicar para a paciente os objetivos do procedimento, bem como seus benefícios e riscos, e obter o consentimento informado para a realização do procedimento. Em seguida, a paciente deverá ser colocada na posição ginecológica (posição de litotomia). Lembre-se de realizar higienização das mãos e paramentação correta antes do procedimento.
O exame pélvico bimanual serve para verificar a posição, consistência, tamanho e mobilidade uterina, além de identificar pontos dolorosos que podem indicar a presença de infecção.
Um exemplo da importância do exame pélvico bimanual antes da inserção do DIU são os casos de útero retrovertido (voltado para trás), que necessitam de retificação por tração com a pinça de Pozzi antes que se coloque o DIU.
O exame especular é útil para identificar sinais de infecção do colo uterino (sangramentos, lesões, presença de pus). Lembre-se sempre que ectopia de colo não é contraindicação para a colocação do DIU.

A colocação do DIU é feita sob visualização direta do colo uterino, utilizando o espéculo vaginal.
- Realize o pinçamento do lábio anterior do colo uterino, com delicadeza, utilizando a pinça de Pozzi. O pinçamento deverá ser mantido até o final do procedimento. Se o útero for retrovertido, o pinçamento deverá ser do lábio posterior.
- Introduza o histerômetro, de maneira delicada e lenta, para verificar a angulação e a profundidade uterina. A primeira resistência normalmente é causada pelo istmo cervical. A segunda resistência corresponde ao fundo uterino. Esse passo é importante para reduzir a probabilidade de perfuração uterina.
- Solicite ao auxiliar que abra a embalagem do DIU, mantendo-o estéril.
- Introduza as hastes do DIU dentro do condutor-guia de inserção. Esse passo é possível de ser realizado também com a embalagem do DIU ainda fechada.
- Ajuste o condutor-guia no comprimento correspondente ao que foi medido pelo histerômetro.
- Introduza o DIU com o condutor-guia, utilizando sua mão dominante, até atingir o fundo uterino. Nesse momento, a mão não dominante está segurando a pinça de Pozzi. Segure também com a mão não dominante o êmbolo do condutor-guia sem movimentá-lo e tracione o tubo para trás com sua mão dominante. Esse movimento irá liberar os braços flexíveis do DIU.
- Segure o tubo do condutor-guia e a pinça de Pozzi com sua mão dominante e retire o êmbolo do condutor-guia com sua mão não dominante.
- Verifique se o tubo do condutor-guia está posicionada no fundo uterino e, então, retire-a. Nesse momento, o DIU está corretamente posicionado no fundo uterino.
- Corte o fio do DIU deixando cerca de 2 a 3 cm de fio para fora do útero. Utilize a pinça Cheron para retirar os pedaços de fio cortados de dentro da cavidade vaginal.
- Retire a pinça de Pozzi com cuidado. Se houver sangramento nesse momento, pegue uma gaze estéril com a pinça Cheron e realize a hemostasia.
- Retire o espéculo vaginal.
- Recomenda-se verificar, após a inserção, a posição do DIU via USTV (Ultrassom Transvaginal). O DIU deve estar acima do orifício cervical interno.

Cuidados e orientações após a inserção do DIU
Alguns cuidados e orientações pós-procedimento são fundamentais:
Após a introdução do DIU, mantenha a paciente em decúbito dorsal por cerca de quinze minutos para reduzir o desconforto do procedimento. Antes de permitir que a paciente sente, tenha certeza de que ela está bem.
Orientar retorno em consulta para revisão dentro de 30 a 45 dias da inserção do DIU. Ainda, orientar a paciente a procurar o pronto atendimento em caso de febre e/ou dor pélvica aguda persistente, indicativos de doença inflamatória pélvica por Chlamydia.
Orientar a paciente a usar preservativo (masculino ou feminino) durante os 7 primeiros dias após a colocação do DIU. Além disso, lembre a paciente que o DIU não previne contra infecções sexualmente transmissíveis, sendo o uso de preservativos sempre aconselhado.
Não existe contraindicação para a paciente realizar suas atividades diárias após a inserção do DIU.

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Referências:
UpToDate®. Levonorgestrel intrauterine device: Drug information.
MIRENA - Folheto informativo: informação para a utilizadora. https://www.pi.bayer.com/pt-pt/mirena/pt_PT/index
DE CUIDADO, Guia do Episódio. Inserção de DIU.
DE PROCEDIMENTOS MÉDICOS, Guia Ilustrado. O Procedimento. Guia Ilustrado de Procedimentos Médicos, p. 27, 2016.