Dipirona: indicações clínicas, mecanismo de ação e segurança no uso
A dipirona (metamizol) é um medicamento amplamente utilizado na prática clínica como analgésico e antipirético, sendo indicada para o tratamento de dor aguda moderada a intensa e febre, especialmente quando outros fármacos são ineficazes ou contraindicados. Apesar de restrições em alguns países, permanece como uma das drogas mais prescritas no Brasil, em razão de sua eficácia clínica, versatilidade terapêutica e baixo custo.
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Para que serve a dipirona?
A dipirona é indicada para o tratamento de:
- Dores em geral, como cefaleia, lombalgia, dores musculoesqueléticas e dor pós-operatória.
- Cólicas, especialmente abdominais.
- Febre, quando outros antipiréticos não apresentam resposta adequada.
Seu uso pode ocorrer tanto em regime ambulatorial quanto hospitalar, incluindo o período perioperatório.
Estudos clínicos demonstram que a dipirona apresenta eficácia semelhante a outros analgésicos não opioides, como paracetamol e anti-inflamatórios não esteroidais. Uma dose oral de 500 mg proporciona alívio significativo da dor em aproximadamente 70% dos pacientes com dor aguda moderada a intensa.

Mecanismo de ação da dipirona
O mecanismo de ação da dipirona é multifatorial e complexo. Após a administração, o fármaco é rapidamente hidrolisado em metabólitos ativos, principalmente 4-metilaminoantipirina (4-MAA) e 4-aminoantipirina (4-AA).
Esses metabólitos promovem inibição das isoformas COX-1 e COX-2, reduzindo a síntese de prostaglandinas envolvidas na dor e na febre. Além disso, atuam na modulação de vias centrais e periféricas da dor, com participação de receptores canabinoides CB1, receptores opioides kappa, canais de potássio dependentes de ATP (KATP) e vias descendentes serotoninérgicas e noradrenérgicas.
Esses efeitos explicam sua ação analgésica, antipirética e antiespasmódica, sem apresentar atividade anti-inflamatória significativa como os AINEs clássicos.

Contraindicações da dipirona
A dipirona é contraindicada em pacientes com:
- Hipersensibilidade ao metamizol ou aos componentes da fórmula.
- Deficiência de G6PD (risco de hemólise).
- Doenças hematopoéticas.
- Porfiria hepática aguda intermitente.
Monitorização e exames
Durante o uso da dipirona, recomenda-se vigilância clínica rigorosa para a detecção precoce de agranulocitose, com atenção especial a sinais e sintomas sugestivos de supressão medular.
Na ocorrência de neutropenia, definida por contagem de neutrófilos inferior a 1.500/mm³, ou de pancitopenia, o medicamento deve ser imediatamente suspenso, com acompanhamento laboratorial até a normalização dos parâmetros hematológicos.
Em pacientes nos quais a hipotensão represente risco clínico relevante, especialmente em administração parenteral, está indicada monitorização hemodinâmica cuidadosa.

Além disso, o paciente deve ser devidamente orientado a informar ao prescritor a presença de asma brônquica, histórico de alergias ou porfiria antes do início do tratamento.
Deve-se enfatizar a necessidade de interrupção imediata do uso e busca de avaliação médica diante do surgimento de sinais e sintomas como: febre persistente, dor de garganta, ulcerações na cavidade oral, hematomas ou sangramentos espontâneos, bem como manifestações cutâneas graves, por seu potencial indicativo de reações adversas hematológicas ou dermatológicas severas.
Embora eventos graves sejam raros, a segurança no uso clínico da dipirona depende de indicação adequada, orientação ao paciente e monitorização clínica, especialmente em tratamentos prolongados ou por via parenteral.
Uso da dipirona em situações especiais
O uso da dipirona em situações especiais deve ser avaliado de forma individualizada.
Durante a gestação, o fármaco é classificado como categoria C, devendo ser prescrito apenas quando o benefício materno potencial justificar o risco fetal. Seu uso é desaconselhado, especialmente no primeiro trimestre, em razão da associação com efeitos fetais adversos, incluindo o risco de fechamento precoce do ducto arterioso.
Na lactação, a dipirona é excretada no leite materno, motivo pelo qual se recomenda uso ocasional e por curto período, com cautela. Sempre que possível, devem ser priorizadas alternativas com melhor perfil de segurança, como paracetamol ou ibuprofeno.
Em pacientes idosos, não há particularidades específicas que exijam ajuste rotineiro de dose, devendo-se, entretanto, manter atenção às comorbidades e ao risco de reações adversas, como em qualquer terapia farmacológica nessa população.
No período perioperatório, não é necessária a suspensão da dipirona, podendo ser mantida como opção analgésica conforme indicação clínica.
Quanto ao uso por sonda nasogástrica, a administração é permitida tanto na forma de comprimidos triturados quanto de solução oral, desde que sejam respeitadas as pausas da dieta enteral e realizada irrigação adequada da sonda antes e após a administração, a fim de garantir a correta absorção do medicamento e prevenir obstruções.

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Referências:
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