Diarreia aguda: o papel central do soro de reidratação oral que ainda é subestimado
[lwptoc colorScheme="inherit" borderColor="#ffffff"]
O papel do soro de reidratação oral no manejo da diarreia aguda
O soro de reidratação oral (SRO), composto por cloreto de potássio, citrato de sódio diidratado, cloreto de sódio e glicose, permanece como a estratégia terapêutica de primeira linha para o manejo da diarreia aguda associada à perda hidroeletrolítica.
Trata-se de uma intervenção simples, custo-efetiva e amplamente validada, capaz de reduzir complicações relacionadas à desidratação, tanto em adultos quanto em crianças.
No mercado brasileiro, o produto de referência é o Rehidrat®, havendo outras apresentações similares com variações nas concentrações eletrolíticas e no volume de diluição, o que exige atenção na prescrição.
Mecanismo de absorção intestinal e cotransporte sódio-glicose
Do ponto de vista farmacológico, o soro de reidratação oral é classificado como repositor hidroeletrolítico.
Seu mecanismo de ação baseia-se principalmente no cotransporte sódio-glicose no epitélio intestinal, que permanece funcional mesmo durante episódios de diarreia infecciosa.
A presença de glicose facilita a absorção ativa de sódio, promovendo, de forma secundária, a absorção de água. O potássio atua na correção da hipocalemia frequentemente associada às perdas intestinais, enquanto o citrato contribui para a correção da acidose metabólica leve, comum nesses quadros.

Diferenças entre as principais apresentações comerciais disponíveis
As apresentações em pó para solução oral devem ser rigorosamente reconstituídas conforme a orientação do fabricante, sempre utilizando água filtrada ou previamente fervida e resfriada.
O Rehidrat® 50, por exemplo, deve ser diluído em 250 mL de água por sachê, resultando, a cada litro, em uma solução contendo 20 mEq de potássio, 20 mEq de citrato, 50 mEq de cloreto, 50 mEq de sódio e 134 mmol de glicose.
Já o Rehidrat® 90 apresenta maior concentração de sódio, sendo diluído em 500 mL por sachê, alcançando 90 mEq/L de sódio e 111 mmol/L de glicose, característica relevante em cenários de maior risco de desidratação.
As formulações em solução oral pronta para uso devem ser administradas diretamente, sem diluição adicional, utilizando o dosador da embalagem.
Indicações clínicas e uso do soro de reidratação oral
Clinicamente, o soro de reidratação oral está indicado principalmente no tratamento da diarreia aguda, com ou sem sinais de desidratação leve a moderada.
Seu uso é contraindicado em situações que inviabilizam a via oral ou representam risco de complicações, como íleo paralítico, obstrução intestinal, perfuração intestinal e vômitos incoercíveis, além de hipersensibilidade a qualquer componente da fórmula.
Em adultos, recomenda-se a administração mínima de 200 mL da solução a cada evacuação diarreica, associada a um volume total de reposição entre 100 e 150 mL/kg, distribuído ao longo de 4 a 6 horas.
Nas apresentações prontas para uso, a mesma faixa volumétrica pode ser administrada de forma fracionada, em pequenas quantidades e com frequência aumentada, a fim de melhorar a tolerabilidade gastrointestinal.
Na população pediátrica, a abordagem é semelhante, com a administração de pelo menos 200 mL por evacuação, respeitando o volume total de 100 a 150 mL/kg nas primeiras 6 horas. Em crianças menores de um ano, recomenda-se reduzir a dose para aproximadamente 50% do volume habitual, com monitorização clínica mais rigorosa.
Quanto ao uso na gestação, o soro de reidratação oral é classificado como categoria C, devendo ser prescrito quando o benefício clínico superar o risco potencial ao feto, especialmente em quadros de desidratação materna.
Já durante a lactação, seu uso é considerado seguro, uma vez que os componentes da fórmula estão naturalmente presentes no leite materno, não havendo evidência de risco ao lactente.

Impacto do uso adequado do SRO na redução de complicações e internações
Do ponto de vista prático, o uso adequado do soro de reidratação oral continua sendo uma das medidas mais eficazes para reduzir internações, complicações metabólicas e mortalidade associadas à diarreia aguda, reforçando seu papel central na prática clínica diária.
--
Referências:
World Health Organization (WHO). Oral Rehydration Salts: Production of the New ORS.
Imdad A, Rani U. Oral Rehydration Salt Solutions for Children: A Review. Pediatr Rev. 2025;46(7):355-365. doi:10.1542/pir.2024-006404
Aghsaeifard, Z., Heidari, G., & Alizadeh, R. (2022). Understanding the use of oral rehydration therapy: A narrative review from clinical practice to main recommendations. Health science reports, 5(5), e827.