Demência avançada: como reconhecer o fim de vida e alinhar decisões de cuidado

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idosa com demencia de alzheimer

A demência é uma das principais causas de morte em países desenvolvidos. Em 2020, cerca de 6 milhões de idosos viviam com a condição nos Estados Unidos, número que tende a crescer com o envelhecimento populacional. O cenário configura um desafio global de saúde pública, com forte impacto clínico, social e econômico.

Nos estágios avançados, a doença é marcada por múltiplas complicações, que geram grande sofrimento ao paciente e sobrecarga significativa aos cuidadores. Estudos indicam que mais de 90% dos representantes legais priorizam o conforto como principal objetivo de cuidado, reforçando a relevância do enfoque paliativo.

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Benefícios dos cuidados paliativos na demência

A integração precoce de cuidados paliativos contribui para uma trajetória de fim de vida mais digna, tranquila e centrada no paciente. Os principais benefícios incluem:

  • Evitar intervenções fúteis ou onerosas, como alimentação por sonda, internações repetidas e terapias agressivas.
  • Controle de sintomas físicos (dor, dispneia, delirium, infecções) e suporte emocional, social e espiritual.
  • Planejamento antecipado de cuidados, garantindo respeito às preferências do paciente e da família.
  • Redução de hospitalizações e visitas a serviços de emergência em programas comunitários integrados
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Demências mais comuns em cuidados paliativos

Embora a diferenciação etiológica perca relevância clínica nos estágios finais, os principais subtipos de demência encontrados em cuidados paliativos incluem:

Doença de Alzheimer – forma mais prevalente, evolução lenta e progressiva, culminando em afasia, apraxia, disfagia e complicações infecciosas.

Demência vascular – curso em “degraus”, frequentemente associada a fatores de risco cardiovasculares e demência mista.

Demência com corpos de Lewy – caracterizada por alucinações visuais, flutuações cognitivas e parkinsonismo; exige cautela no uso de antipsicóticos.

Demência frontotemporal – mais comum em pacientes jovens, com início comportamental (desinibição, impulsividade), avançando para disfagia e complicações nutricionais.

Síndromes de rápida progressão (ex.: doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica) – curso agressivo, com declínio em meses e tempo limitado para planejamento antecipado.

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Avaliação clínica em demência paliativa

A avaliação deve ser multidimensional, centrada na pessoa e na família, com foco em sintomas, funcionalidade e qualidade de vida.

História clínica: subtipo provável, evolução, comorbidades, polifarmácia, diretivas antecipadas.

Avaliação funcional: capacidade para atividades básicas de vida diária (ABVDs), uso de escalas como Katz e Lawton.

Avaliação cognitiva e comportamental: monitoramento de agitação, distúrbios do sono, delírios, alucinações.

Sintomas físicos: dor (frequentemente sub-reconhecida), disfagia, dispneia, constipação, infecções, úlceras por pressão.

Nutrição: perda de peso, sarcopenia, discussão sobre futilidade de suporte enteral em fases terminais.

Aspectos emocionais, sociais e espirituais: sofrimento do paciente e cuidadores, rede de apoio, sobrecarga e suporte psicológico.

demência em cuidados paliativos

Prognóstico e estadiamento

A demência é uma condição progressiva e incurável. A sobrevida mediana é de cerca de 6 anos após o diagnóstico, variando de 2 a 20 anos conforme o subtipo e a agressividade do curso clínico.

Estágios clínicos (modelo em quatro fases):

  1. Déficits cognitivos importantes, mas independência parcial nas ABVDs.
  2. Auxílio necessário para atividades básicas, ainda com deambulação preservada.
  3. Perda da deambulação independente, dependência para alimentação, incontinência frequente.
  4. Restrição completa ao leito, mutismo, disfagia grave.

Indicadores de pior prognóstico:

  • Perda de peso significativa (≥5% em 30 dias ou ≥10% em 6 meses).
  • Imobilidade e dependência total.
  • Lesões por pressão estágio ≥2.
  • Redução persistente da ingesta oral.
  • Infecções recorrentes, disfagia, desnutrição, hipoalbuminemia.
Escala de Lawton na avaliação da Autonomia do Idoso

Demência avançada e fim de vida: quando priorizar conforto e qualidade de vida

Na demência avançada, o foco clínico deve migrar do controle da doença para a priorização do conforto e do suporte integral. A integração precoce dos cuidados paliativos, associada ao planejamento antecipado de decisões, permite alinhar intervenções com os valores e preferências do paciente, promovendo uma trajetória de fim de vida mais humana e centrada na dignidade.

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Referências:

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de Sola-Smith, K., Gilissen, J., van der Steen, J. T., Mayan, I., Van den Block, L., Ritchie, C. S., & Hunt, L. J. (2024). Palliative Care in Early Dementia. Journal of pain and symptom management, 68(3), e206–e227. https://doi.org/10.1016/j.jpainsymman.2024.05.028

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