Cuidados paliativos como componente essencial da prática clínica

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Cuidados paliativos são uma forma especializada de cuidado que proporciona alívio dos sintomas, conforto e apoio a pessoas que vivem com doenças graves ou crônicas. Também oferecem suporte a cuidadores e àqueles afetados pela condição de um ente querido.

A seguir, discutiremos a definição, a relevância clínica e os principais fundamentos que sustentam a prática dos cuidados paliativos, com foco em sua integração ao cuidado de pacientes em diferentes estágios da doença.

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Além do fim da vida: o papel transformador dos cuidados paliativos

O termo paliativo tem origem no latim palliare, que significa “encobrir” — no sentido de oferecer uma camada adicional de proteção e conforto, atenuando o impacto físico e emocional da doença sobre o paciente e seus familiares.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define os cuidados paliativos como: “uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes — adultos e crianças — e de suas famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida. Eles previnem e aliviam o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação criteriosa e tratamento da dor e de outros problemas, sejam físicos, psicossociais ou espirituais.”

Embora historicamente associados apenas ao fim da vida, os cuidados paliativos evoluíram para um modelo integrado ao longo de todo o curso de doenças graves, podendo coexistir com tratamentos curativos ou modificadores de doença.

Essa abordagem abrange desde o controle rigoroso de sintomas (como dor, dispneia, fadiga e sintomas gastrointestinais) até o suporte psicológico, social e espiritual, envolvendo não apenas o paciente, mas também a rede familiar e de cuidadores.

Além disso, há evidências robustas de que a integração precoce dos cuidados paliativos em condições como câncer avançado, insuficiência cardíaca, DPOC e doenças neurodegenerativas está associada a melhor qualidade de vida, redução de hospitalizações e, em alguns casos, até aumento de sobrevida.

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Panorama global e desafios de acesso aos cuidados paliativos

Compreender a definição é essencial, mas conhecer a dimensão do desafio global nos mostra a urgência desse cuidado.

A demanda por cuidados paliativos tem crescido globalmente, impulsionada pelo envelhecimento populacional e pelo aumento da prevalência de doenças crônicas e câncer.

Em 2025, estimativas apontam que cerca de 10,4 milhões de pacientes receberam cuidados paliativos especializados no mundo, representando aproximadamente 14% da necessidade global. A cobertura é desigual: superior a 50% em países de alta renda, mas apenas 4,4% em países de baixa e média renda.

Na Europa, a proporção de pessoas que morrem sob cuidados paliativos varia amplamente entre os países, de 0,3% na Eslovênia a 30,4% na França, enquanto o uso nos últimos 30 dias de vida oscila entre 5% (República Tcheca) e 48,8% (Grécia).

Entre idosos, comprometimento cognitivo, baixa atividade física e melhor autopercepção de saúde estão associados a maior probabilidade de receber cuidados paliativos.

Estudos populacionais no Canadá e em redes de atenção primária europeias mostram que aproximadamente metade dos pacientes que morrem recebe algum tipo de cuidado paliativo no último ano de vida, sendo a maioria desses atendimentos realizada em hospitais de cuidados agudos.

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O início do cuidado paliativo frequentemente ocorre próximo ao óbito, com cerca de metade dos pacientes iniciando nos últimos dois meses de vida. Pacientes com câncer têm maior probabilidade de receber cuidados paliativos do que aqueles com doenças não oncológicas, enquanto idosos e pacientes com múltiplas comorbidades continuam subatendidos.

No ambiente hospitalar, aproximadamente 6,9% de todos os pacientes internados e 15,8% dos pacientes oncológicos apresentam necessidades de cuidados paliativos, sendo mais prevalente em cânceres de cabeça e pescoço, melanoma e tumores cerebrais. Pacientes com câncer metastático apresentam risco significativamente maior de necessitar desse cuidado.

Embora os serviços especializados estejam em expansão, a integração dos cuidados paliativos primários ainda é limitada, especialmente em ambientes comunitários e para pacientes com doenças não oncológicas, como insuficiência cardíaca, DPOC, demência e insuficiência renal.

Reconhecer precocemente pacientes que podem se beneficiar de cuidados paliativos pode evitar internações desnecessárias e otimizar recursos.

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Mais do que aliviar a dor: princípios do cuidado paliativo

É importante destacar que os cuidados paliativos não substituem os tratamentos curativos ou específicos da doença. Pelo contrário, eles são complementares, podendo ser iniciados em qualquer fase da enfermidade, inclusive enquanto o paciente ainda recebe intervenções com potencial de cura ou prolongamento da vida.

Nesse sentido, é fundamental compreender os princípios que orientam a prática dos cuidados paliativos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, essa abordagem envolve ações que visam aliviar o sofrimento e promover qualidade de vida, como:

  • Alívio de sintomas – foco no controle da dor e de outros sintomas angustiantes.
  • Valorização da vida – reconhecer o morrer como um processo natural.
  • Neutralidade em relação ao tempo da morte – não acelerar nem adiar.
  • Abordagem integral – incluir aspectos psicológicos e espirituais.
  • Suporte ao paciente – promover vida ativa até o fim.
  • Suporte à família – durante a doença e no luto.
  • Trabalho em equipe – cuidado multidisciplinar, com apoio no luto quando necessário.
  • Foco na qualidade de vida – inclusive com possível impacto positivo no curso da doença.
  • Aplicação precoce – integrar com tratamentos modificadores da doença e investigações necessárias.
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Lembrando que não são só cuidados físicos - é um equívoco comum acreditar que os cuidados paliativos se concentram apenas nas necessidades físicas. Na realidade, também são avaliadas as necessidades psicológicas, culturais, éticas, legais, psiquiátricas, espirituais e sociais.

Os cuidados paliativos visam aliviar todas as formas de sofrimento; além do sofrimento físico, reconhecem o sofrimento espiritual, existencial e psicológico. Também consideram que o paciente vive dentro de uma comunidade e é afetado por relações interpessoais, recursos financeiros e dinâmicas culturais.

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Referências:

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Brasil. Ministério da Saúde. (2018). Resolução nº 41, de 31 de outubro de 2018: Dispõe sobre as diretrizes para a organização dos cuidados paliativos, à luz dos cuidados continuados integrados, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cit/2018/res0041_23_11_2018.html

Teoli D, Schoo C, Kalish VB. Palliative Care. [Updated 2023 Feb 6]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537113/

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