Crise Hipertensiva: definição, classificação e tratamento atualizado

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A crise hipertensiva não é um evento raro ou excepcional. Ela representa uma das situações mais comuns e potencialmente graves enfrentadas nos serviços de emergência, respondendo por até 25% dos atendimentos clínicos.

Embora apenas 1 a 2% dos pacientes com hipertensão arterial sistêmica desenvolvam esse quadro ao longo da vida, seu impacto é desproporcionalmente elevado, exigindo reconhecimento rápido, estratificação correta do risco e conduta precisa para evitar desfechos fatais.

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O que define uma crise hipertensiva?

A crise hipertensiva é uma condição clínica caracterizada por elevação abrupta, acentuada e geralmente sintomática da pressão arterial sistêmica, com valores habitualmente ≥ 180 mmHg de pressão sistólica e/ou ≥ 120 mmHg de pressão diastólica.

Pode cursar com sintomas leves, como cefaleia, tontura e zumbido, ou manifestações graves, incluindo dispneia, dor torácica, alteração do nível de consciência e coma.

Trata-se de um cenário de alto risco clínico, que exige avaliação criteriosa para diferenciar a emergência hipertensiva de elevação importante da pressão arterial sem lesão de órgão-alvo (LOA) aguda, conforme as diretrizes mais recentes.
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Como a crise hipertensiva é classificada?

🔴 Emergência hipertensiva

A emergência hipertensiva ocorre quando a elevação da pressão arterial está associada a lesão aguda de órgão-alvo, com risco iminente de morte. Os principais órgãos acometidos são o cérebro, o coração e os rins.

Exemplos de emergência hipertensiva:

  • Edema agudo de pulmão hipertensivo;
  • Síndrome coronariana aguda;
  • Dissecção aguda de aorta;
  • Encefalopatia hipertensiva;
  • Hipertensão maligna;
  • Acidente vascular encefálico (AVE);
  • Eclâmpsia;

Nesses casos, o manejo é hospitalar imediato, com uso de anti-hipertensivos intravenosos e monitorização intensiva.

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🟡 Elevação importante da pressão arterial sem LOA aguda

Segundo a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025 e o guideline da American Heart Association (AHA) 2025, o termo “urgência hipertensiva” não deve mais ser utilizado, pois induz a condutas excessivamente agressivas no pronto-atendimento.

Os termos recomendados são:

Diretriz Brasileira (2025): Elevação importante da pressão arterial sem lesão de órgão-alvo aguda.

American Heart Association (2025): Hipertensão grave.

Nessa situação, não há evidência de lesão aguda de órgão-alvo nem risco imediato de morte, e quando os sintomas estão presentes, costumam ser leves, inespecíficos e oligossintomáticos, manifestando-se geralmente como cefaleia discreta, tontura, zumbido ou náuseas.

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O que é pseudocrise hipertensiva?

A pseudocrise hipertensiva ocorre em pacientes com hipertensão arterial estágio 2 ou superior (PA > 160×100 mmHg), geralmente mal controlada, que apresentam sintomas não relacionados diretamente à elevação pressórica.

Nesses casos:

  • Não se trata de emergência nem de elevação importante da PA sem LOA.
  • O tratamento inicial é sintomático.
  • O manejo definitivo é ambulatorial, com ajuste da terapia anti-hipertensiva.
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Prognóstico da crise hipertensiva

A crise hipertensiva é uma condição potencialmente fatal, especialmente quando associada à lesão de órgãos-alvo. A morbimortalidade está diretamente relacionada à gravidade e à extensão do comprometimento orgânico, sendo o acidente vascular encefálico (AVE) e o infarto agudo do miocárdio as principais causas de óbito nesses pacientes.

Evidências indicam que a cada elevação de 20 mmHg da pressão arterial sistólica acima de 120 mmHg, o risco de mortalidade dobra. Em análises de seguimento a longo prazo, observa-se uma taxa de mortalidade aproximada de 30% em 10 anos entre indivíduos que apresentaram episódio de crise hipertensiva.

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Como tratar uma crise hipertensiva?

O manejo depende exclusivamente da presença ou ausência de lesão de órgão-alvo, sendo fundamental distinguir corretamente os cenários clínicos.

Abordagem da elevação importante da pressão arterial sem LOA aguda

Nesses pacientes, não se deve reduzir a pressão arterial de forma rápida, pois a queda abrupta pode causar isquemia cerebral, coronariana ou renal, devido à perda da autorregulação vascular.

Condutas recomendadas:

  • Não é necessário atendimento emergencial.
  • Manejo ambulatorial, semelhante ao da hipertensão não controlada.
  • Observação por cerca de 30 minutos em ambiente calmo, se houver sintomas inespecíficos.
  • Evitar redução da PA superior a 25–30% nas primeiras 2 a 4 horas.

Opções farmacológicas orais (quando indicadas):

  • Captopril: 25–50 mg inicial; manutenção 25–150 mg/dia.
  • Clonidina: 0,1–0,2 mg inicial; manutenção até 0,9 mg/dia.
  • Propranolol: 40–80 mg inicial; manutenção até 160 mg/dia.
  • Furosemida: 40 mg inicial (especialmente em pacientes congestos).
  • Hidralazina: 50 mg inicial; manutenção até 100 mg/dia.

A nifedipina de liberação rápida é contraindicada, devido ao risco de queda abrupta da PA, AVE e infarto.

As diretrizes atuais não recomendam internação hospitalar nem uso rotineiro de anti-hipertensivos de curta ação nesses casos. O foco deve ser a otimização gradual do tratamento ambulatorial.

hipertensão arterial resistente crise hipertensiva

Abordagem da emergência hipertensiva

Na emergência hipertensiva, o tratamento deve ser hospitalar, direcionado ao órgão-alvo acometido.

Estratégia geral:

  • Redução da PA em 20–25% na primeira hora.
  • Alvo de aproximadamente 160/100 mmHg nas próximas 2–6 horas.
  • Normalização gradual em 24–48 horas.

Exceções: dissecção aguda de aorta e edema agudo de pulmão, que exigem redução mais rápida.

Exemplo terapêutico:

Nitroprussiato de sódio (IV): dose inicial 0,5 mcg/kg/min. Titulação gradual até 2–3 mcg/kg/min. Dose máxima: 8 mcg/kg/min.

Quando internar e como acompanhar o paciente após crise hipertensiva?

Todos os pacientes que apresentam lesão aguda de órgão-alvo devem ser internados, preferencialmente em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), para monitorização contínua e manejo adequado.

Após a estabilização do quadro, é fundamental que o paciente seja acompanhado de forma regular, idealmente em intervalos quinzenais, até que as metas pressóricas sejam alcançadas. Além disso, a etiologia desencadeante da crise hipertensiva deve ser cuidadosamente investigada e tratada.

Aqueles que evoluíram com comprometimento de órgão-alvo necessitam de seguimento específico, direcionado à nova condição clínica estabelecida, como acidente vascular encefálico, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica.

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Referências:

Jones, D, Ferdinand, K, Taler, S. et al. 2025 AHA/ACC/AANP/AAPA/ABC/ACCP/ACPM/AGS/AMA/ASPC/NMA/PCNA/SGIM Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. JACC. null2025, 0 (0). https://doi.org/10.1016/j.jacc.2025.05.007

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