COVID persistente: pesquisadores descrevem infecção ativa por mais de 2 anos
Um estudo científico relatou um caso inédito de COVID-19 persistente em um homem de 41 anos, vivendo com HIV avançado e sem acesso à terapia antirretroviral. O paciente manteve a infecção ativa por SARS-CoV-2 durante mais de 750 dias, configurando o registro mais longo já documentado de COVID persistente no mundo.
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O que é COVID persistente?
A COVID persistente ocorre quando o vírus SARS-CoV-2 permanece ativo no organismo por um período muito superior ao esperado. Em pessoas imunocomprometidas, como pacientes com HIV não tratado, o corpo não consegue eliminar o vírus com eficiência, permitindo que ele continue se replicando e acumulando mutações.
No caso relatado, a baixa contagem de células T e a ausência de resposta imune eficaz favoreceram a manutenção da infecção. Durante os dois anos de evolução, surgiram mutações semelhantes às que mais tarde foram observadas na variante ômicron, reforçando a importância do monitoramento desses casos.

Principais descobertas no caso de COVID persistente
- Foram identificadas diversas mutações no genoma viral, tanto em regiões estruturais como na proteína spike, crucial para a entrada do vírus nas células.
- Diferentes subpopulações do vírus coexistiram durante a COVID persistente, variando em frequência ao longo do tempo.
- Houve sinais de evolução convergente: mutações observadas nesse caso também surgiram de forma independente em variantes de preocupação, como a ômicron.
- Apesar da alta carga viral, não há evidências de que esse paciente tenha transmitido a infecção a outras pessoas, possivelmente porque o vírus se adaptou tão fortemente ao hospedeiro que perdeu parte de sua capacidade de transmissão.

COVID persistente e saúde pública: riscos e lições
Casos de COVID-19 persistente trazem implicações importantes para a ciência e para a saúde pública:
Acesso ao tratamento é fundamental — A terapia antirretroviral poderia ter restaurado parte da imunidade e permitido a eliminação do SARS-CoV-2, evitando a infecção crônica.
Monitoramento genético é estratégico — Sequenciar vírus de infecções persistentes ajuda a entender como novas variantes podem surgir e quais mutações têm potencial de se tornar relevantes.
Risco de variantes futuras — Embora nem todo caso de COVID persistente resulte em novas variantes, esse ambiente pode gerar mutações que se assemelham às de variantes de preocupação já conhecidas.
Reforço da vulnerabilidade global — Atualmente, quase 40 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, e cerca de 23% não têm acesso à terapia antirretroviral. Esses indivíduos estão particularmente expostos a infecções prolongadas.

Conclusão: por que entender a COVID persistente é fundamental
Esse relato mostra que o SARS-CoV-2 pode, em circunstâncias específicas, estabelecer uma infecção crônica de longa duração. Embora nesse caso não haja indícios de transmissão, ele ilustra como a imunossupressão grave cria condições para que o vírus acumule mutações e explore caminhos evolutivos que, eventualmente, podem influenciar o surgimento de novas variantes.
Mais do que um caso isolado, esse achado reforça a necessidade de políticas de saúde que garantam acesso universal ao tratamento do HIV, vigilância genômica contínua e estratégias direcionadas para proteger populações imunocomprometidas.
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Referências:
Velasquez-Reyes, Joseline M et al. Characterisation of a persistent SARS-CoV-2 infection lasting more than 750 days in a person living with HIV: a genomic analysis. The Lancet Microbe, Volume 6, Issue 9, 101122