Calor extremo e saúde mental: ansiedade, distúrbios do sono e risco psiquiátrico
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Calor extremo e saúde mental: um tema urgente no Janeiro Branco
Calor extremo e saúde mental tornaram-se temas centrais nas discussões contemporâneas sobre saúde pública, especialmente em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas.
Evidências científicas recentes demonstram que temperaturas elevadas estão associadas ao aumento de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e maior demanda por atendimentos psiquiátricos, configurando um risco crescente para o bem-estar psicológico da população.
A relevância desse debate ganha ainda mais destaque durante o Janeiro Branco, campanha dedicada à conscientização sobre saúde mental e à promoção do cuidado emocional.
Embora os efeitos do calor sobre a saúde física sejam amplamente reconhecidos, estudos mais recentes mostram que ondas de calor também exercem impactos profundos, mensuráveis e clinicamente relevantes sobre a saúde mental, com importantes implicações individuais, sociais e para os sistemas de saúde.
Diante desse contexto, compreender a relação entre calor extremo e saúde mental torna-se essencial não apenas para a prática clínica, mas também para o planejamento de estratégias preventivas em saúde pública, especialmente em períodos do ano marcados por temperaturas elevadas.

Calor extremo e aumento de atendimentos em saúde mental
Estudos epidemiológicos de grande escala demonstram uma associação consistente entre temperaturas extremas e aumento da procura por serviços de emergência psiquiátrica, mostrando os impactos do calor na saúde mental.
Uma análise baseada em registros médicos de 2,2 milhões de indivíduos nos Estados Unidos identificou um aumento de 8% nas visitas a emergências por causas relacionadas à saúde mental durante períodos em que as temperaturas estavam entre as mais elevadas do ano.
Resultados semelhantes foram observados em países como Austrália e Vietnã, onde ondas de calor (definidas como temperaturas máximas diárias acima de 35 °C por pelo menos três dias consecutivos) estiveram associadas a um aumento de quase 10% nas internações e nos atendimentos por transtornos mentais.
Revisões sistemáticas e meta-análises recentes reforçam esses achados, apontando associação entre calor extremo e maiores níveis de sofrimento psíquico, ansiedade, depressão e comportamento suicida. Uma dessas análises identificou um aumento médio de 2,2% na mortalidade relacionada à saúde mental a cada 1 °C de elevação da temperatura ambiente.
Como o estresse térmico afeta a saúde mental?
Pesquisadores têm destacado que as causas da associação entre calor extremo e saúde mental são multifatoriais, envolvendo mecanismos fisiológicos, psicológicos, comportamentais e sociais.
Mecanismos fisiológicos
Estudos experimentais indicam que a exposição ao calor pode ativar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, desencadeando respostas inflamatórias, estresse oxidativo e alterações hormonais. Ensaios clínicos demonstraram aumento significativo nos níveis de ansiedade após exposições relativamente curtas a temperaturas elevadas.
Alterações em biomarcadores como BDNF, GABA e glicocorticoides foram associadas à ansiedade induzida pelo calor, sugerindo um impacto direto do estresse térmico sobre a regulação neurobiológica das emoções.

Mecanismos psicológicos
Do ponto de vista psicológico, o calor extremo está associado a aumento da percepção de estresse e ansiedade, mesmo na ausência de sintomas físicos evidentes. Estudos populacionais indicam que ondas de calor frequentes estão relacionadas a pior autoavaliação da saúde mental, especialmente em adultos mais velhos.
A sensação de perda de controle, o desconforto persistente e a dificuldade de adaptação ao calor prolongado são fatores que contribuem para o agravamento de quadros ansiosos e depressivos.
Mecanismos comportamentais: o papel do sono
A associação entre calor extremo e distúrbios do sono emerge como um dos mecanismos mais relevantes na relação entre o calor e a saúde mental. Evidências robustas mostram que temperaturas noturnas elevadas estão associadas à redução da duração e da qualidade do sono, o que, por sua vez, aumenta o risco de sofrimento psíquico.
Estudos longitudinais indicam que o impacto do calor sobre a saúde mental está mais fortemente associado às temperaturas mínimas noturnas do que às máximas diurnas, reforçando o papel do sono como mediador central desse efeito.
Mecanismos sociais
O calor extremo também interfere nas interações sociais e nas estratégias de enfrentamento. A tendência de permanecer em ambientes fechados para evitar o desconforto térmico pode resultar em isolamento social, redução da atividade física e menor acesso a atividades de lazer, fatores reconhecidos como determinantes negativos da saúde mental.
Além disso, responsabilidades de cuidado com crianças, idosos e pessoas vulneráveis tendem a aumentar durante ondas de calor, elevando a carga mental e emocional dos cuidadores.
Mudanças climáticas e saúde mental: um desafio crescente para a saúde pública
Transtornos mentais já afetam mais de 10% da população mundial e estão entre as principais causas de incapacidade global. Diante do aumento da frequência e intensidade das ondas de calor, especialistas alertam que os impactos do calor extremo sobre a saúde mental devem ser considerados no planejamento de políticas públicas e na organização dos serviços de saúde.
Compreender os mecanismos envolvidos pode orientar desde intervenções clínicas preventivas até a alocação estratégica de recursos de saúde mental nos períodos mais quentes do ano.

Conclusão
As evidências científicas indicam que o calor extremo representa umfator de risco significativo e ainda subestimado para a saúde mental. Ansiedade, distúrbios do sono, depressão e aumento da demanda por atendimento psiquiátrico são consequências cada vez mais documentadas.
Diante das mudanças climáticas, reconhecer o calor extremo como um determinante da saúde mental é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, adaptação e cuidado integral, protegendo indivíduos e comunidades vulneráveis.
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Referências:
Lea Baecker, Udita Iyengar, Maria Chiara Del Piccolo, Andrea Mechelli. Impacts of extreme heat on mental health: Systematic review and qualitative investigation of the underpinning mechanisms, The Journal of Climate Change and Health, Volume 22, 2025, 100446, ISSN 2667-2782, https://doi.org/10.1016/j.joclim.2025.100446.