Burnout Médico: como o esgotamento afeta empatia, profissionalismo e a formação de médicos
Uma revisão sistemática recente buscou esclarecer a relação entre burnout médico e comportamento profissional, com ênfase especial no papel da empatia — um dos elementos essenciais da prática médica humanizada. A literatura mostra que a empatia ocupa posição central no profissionalismo e no cuidado ao paciente, sendo também um dos domínios mais sensíveis aos efeitos negativos da síndrome de burnout em médicos.
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Conceito de Burnout e relevância na formação médica
O termo “burnout” foi introduzido na década de 1960 e, desde então, consolidou-se como uma síndrome ocupacional diretamente associada a estressores persistentes no ambiente de trabalho, resultando em desgaste emocional, despersonalização e diminuição da sensação de realização pessoal.
Entre estudantes de medicina e residentes, o esgotamento profissional médico tem prevalência elevada, variando entre 10% e 76% conforme a região e os métodos de avaliação. Nesse grupo, o burnout exerce impacto particularmente significativo, comprometendo tanto o desempenho acadêmico quanto valores essenciais do profissionalismo, como altruísmo, honestidade e empatia.
Embora alguns estudos não identifiquem correlação consistente entre burnout e comportamento profissional, a maior parte da literatura aponta uma associação negativa, indicando que níveis mais altos de burnout tendem a contribuir para um declínio progressivo do profissionalismo.

Impacto do burnout médico no profissionalismo
Uma revisão sistemática recente examinou a relação entre esgotamento profissional médico e profissionalismo, ressaltando o papel fundamental da empatia na prática médica.
Ao todo, foram analisados 29 estudos, envolvendo 14.974 participantes (4.242 estudantes de medicina e 10.732 residentes). A maioria desses trabalhos identificou correlações negativas entre burnout médico e diversos domínios, incluindo profissionalismo, práticas de atendimento ao paciente, conhecimento médico, aprendizagem ao longo da vida e habilidades de comunicação.
Os achados reforçam que o estado de saúde mental dos profissionais afeta diretamente o profissionalismo. Entre os componentes mais comprometidos pelo burnout destacam-se empatia, honestidade, respeito e engajamento interpessoal.
Empatia como domínio crítico afetado pelo Burnout
A empatia emerge como um dos domínios mais profundamente afetados pela síndrome de burnout. Diversos estudos que empregam escalas validadas relatam reduções significativas nos níveis de empatia entre estudantes de medicina e residentes que apresentam altos escores de burnout.
Entre os componentes do MBI (Maslach Burnout Inventory), despersonalização e exaustão emocional mostram-se os mais fortemente associados a essa diminuição, refletindo um processo de distanciamento afetivo e esgotamento que pode comprometer diretamente a qualidade do cuidado prestado ao paciente.

Variabilidade nos achados sobre desempenho e comunicação
Por outro lado, os resultados referentes ao desempenho acadêmico e às competências de comunicação permanecem inconsistentes. Alguns estudos apontam associação positiva entre burnout e desempenho, enquanto outros mostram relação negativa.
Essa variabilidade pode decorrer de diferenças institucionais, culturais e metodológicas, bem como dos distintos instrumentos utilizados para avaliar tanto burnout quanto profissionalismo.
Fatores que aumentam o risco de burnout médico
A prevalência de burnout tende a ser maior nos anos clínicos da graduação e, sobretudo, durante a residência, período marcado por intensa carga horária, responsabilidades crescentes e limitada autonomia.
Além disso, o ambiente altamente competitivo das escolas médicas favorece o desenvolvimento de ansiedade, estresse prolongado e um equilíbrio inadequado entre vida pessoal e profissional.
A exposição a maus modelos profissionais ou a ausência de mentoria qualificada agrava ainda mais esse cenário, dificultando a internalização de valores essenciais do profissionalismo.

Consequências psicológicas e o ciclo de retroalimentação negativa
Quando não reconhecido e manejado, o burnout pode evoluir para quadros de depressão, ansiedade e uma redução progressiva da capacidade de exercer o comportamento profissional esperado.
Forma-se, assim, um ciclo vicioso: quanto maior o burnout, menor o engajamento profissional, o que por sua vez deteriora a experiência formativa e aumenta a vulnerabilidade ao próprio burnout.
A necessidade de abordagens integradas para saúde mental na formação médica
A relação entre burnout e profissionalismo entre médicos em formação é complexa e multidimensional.
A síndrome compromete pilares fundamentais do comportamento profissional, como empatia, altruísmo e responsabilidade, representando um risco significativo tanto para o bem-estar do trainee quanto para a qualidade do cuidado prestado ao paciente.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível adotar estratégias amplas e integradas, que incluam suporte adequado em saúde mental, educação profissional contínua e reformas estruturais nos ambientes de ensino e trabalho.
Somente por meio de abordagens verdadeiramente holísticas será possível formar médicos resilientes, empáticos e profissionalmente íntegros, capazes de responder às crescentes demandas do sistema de saúde contemporâneo.

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Referências:
Bordbar, S., Mousavi, S. M., & Samadi, S. (2025). The association between burnout and medical professionalism in medical trainees: a systematic review. BMC medical education, 25(1), 1176. https://doi.org/10.1186/s12909-025-07687-6