Bloqueio de ramo esquerdo no ECG: quando o traçado esconde um infarto

Bloqueio de ramo esquerdo no ECG
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O bloqueio de ramo esquerdo no ECG é mais do que um achado eletrocardiográfico: ele pode ocultar um infarto agudo do miocárdio e atrasar decisões críticas. Reconhecer quando o traçado esconde uma oclusão coronária é essencial para evitar erros diagnósticos graves, especialmente no contexto da emergência.

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Ativação ventricular normal no ECG e condução intraventricular

No processo fisiológico de ativação ventricular, o impulso elétrico proveniente dos átrios alcança os ventrículos por meio do nó atrioventricular (AV) e do sistema His–Purkinje.

A despolarização ventricular inicia-se no lado esquerdo do septo interventricular e, em seguida, propaga-se de forma quase simultânea para as massas ventriculares direita e esquerda através dos ramos do feixe de His.

Em adultos saudáveis, todo o processo de despolarização ventricular ocorre de maneira rápida e sincronizada, sendo concluído em aproximadamente 100 ms, o que se reflete em um complexo QRS estreito no ECG.

Qualquer alteração que interfira nessa ativação ventricular coordenada, particularmente no sistema His–Purkinje, pode resultar em retardo da condução intraventricular, manifestando-se como alargamento do complexo QRS e/ou modificação do eixo elétrico ventricular.

Bloqueio de ramo esquerdo no ECG

O que é o bloqueio de ramo esquerdo (BRE)?

O bloqueio do ramo esquerdo (BRE) é um distúrbio da condução intraventricular caracterizado por interrupção ou retardo significativo da condução elétrica ao longo do ramo esquerdo do feixe de His, resultando em ativação ventricular esquerda tardia e anormal.

Diferentemente do bloqueio de ramo direito (BRD), no qual o atraso ocorre predominantemente na fase terminal da despolarização ventricular, o BRE compromete tanto as fases iniciais quanto as tardias da ativação ventricular. Como consequência, todo o padrão do complexo QRS é profundamente modificado.

Principais mecanismos eletrofisiológicos no BRE

No bloqueio de ramo esquerdo:

A despolarização ventricular não se inicia no septo esquerdo, como ocorre normalmente.

O septo interventricular passa a ser ativado da direita para a esquerda, por condução célula a célula, a partir do ventrículo direito.

A ativação do ventrículo esquerdo ocorre de forma lenta, sequencial e desorganizada, prolongando significativamente a duração do QRS.

Esses mecanismos explicam o complexo QRS alargado no ECG, geralmente ≥ 120 ms, com morfologia característica distinta daquela observada no BRD.

Importância clínica do bloqueio de ramo esquerdo

Do ponto de vista clínico, o BRE está frequentemente associado a doença cardíaca estrutural, incluindo:

Doença arterial coronariana;

Cardiomiopatias (especialmente dilatada);

Valvulopatias;

Hipertensão arterial com remodelamento ventricular esquerdo.

Estudos anatomopatológicos sugerem que o BRE pode resultar de:

Lesão proximal do ramo esquerdo, frequentemente associada a doenças miocárdicas difusas.

Lesão distal, envolvendo os fascículos anterior e/ou posterior.

Ou uma combinação de acometimento proximal e distal, o que explica a heterogeneidade dos padrões eletrocardiográficos observados.

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IAM com supra de ST na presença de BRE: por que é um desafio?

O diagnóstico de infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) na presença de bloqueio de ramo esquerdo (BRE) representa um importante desafio eletrocardiográfico, uma vez que o BRE provoca alterações secundárias do segmento ST e da onda T que podem mascarar ou simular sinais de isquemia aguda.

Critérios de Sgarbossa: como identificar oclusão coronária no BRE

Para auxiliar na identificação de oclusão coronária aguda em pacientes com BRE e sintomas isquêmicos, foram desenvolvidos os Critérios de Sgarbossa, baseados no conceito de concordância e discordância entre o segmento ST e o complexo QRS.

Como os critérios de Sgarbossa funcionam no ECG com BRE

Os critérios clássicos de Sgarbossa são amplamente utilizados na cardiologia e medicina de emergência, e atribuem pontuação a três achados no ECG:

  • Elevação concordante do segmento ST ≥ 1 mm em pelo menos uma derivação com QRS positivo (5 pontos);
  • Depressão concordante do segmento ST ≥ 1 mm nas derivações V1 a V3 (3 pontos);
  • Elevação discordante excessiva do segmento ST, definida como elevação ≥ 5 mm em derivações com QRS predominantemente negativo (2 pontos).

Uma pontuação total ≥ 3 pontos é considerada fortemente sugestiva de IAMCSST na presença de BRE e está associada à alta especificidade, justificando abordagem invasiva e estratégia de reperfusão quando correlacionada ao quadro clínico.

Critérios de Sgarbossa modificados (Smith)

Uma alternativa mais recente são os critérios de Sgarbossa modificados (Smith).

Diferentemente do escore clássico:

Não utilizam pontuação;

Consideram a proporcionalidade da elevação do ST em relação à amplitude do QRS;

A presença de qualquer critério positivo sugere oclusão coronária aguda.

Esses critérios apresentam maior sensibilidade, mantendo boa especificidade, e têm ganhado espaço na prática clínica e na medicina de emergência.

Bloqueio de ramo esquerdo no ECG

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Referências:

Sayed, Yaser Mohammed Hassanain El. Sgarbossa Criteria in Left Bundle Branch Block in a Hypertensive Emergency, a Case Report. Int J Cardiovasc Sci, v. 34, n. 1, p. 107-111, jan. 2021.

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