Anticoncepcionais e risco trombótico no verão: o que realmente muda?

Anticoncepcionais e risco trombótico no verão: o que realmente muda?
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Anticoncepcionais hormonais e risco trombótico: o que dizem os estudos

Os anticoncepcionais hormonais, especialmente os anticoncepcionais orais combinados (AOCs), figuram entre os métodos contraceptivos reversíveis mais utilizados no mundo. Sua ampla adoção se deve à alta eficácia, ao bom perfil de segurança para a maioria das usuárias e aos benefícios adicionais, como regulação do ciclo menstrual e controle de sintomas ginecológicos.

Ainda assim, existe uma associação entre o uso de anticoncepcionais e risco trombótico, com possibilidade de elevação de eventos tromboembólicos venosos e arteriais, o que torna essencial uma avaliação clínica cuidadosa antes da prescrição e durante o seguimento.

Diversos estudos apontam uma relação entre trombose e anticoncepcional oral, sendo que o uso de anticoncepcionais combinados pode elevar o risco relativo de trombose em até três a sete vezes - embora o risco absoluto permaneça baixo em mulheres jovens e sem comorbidades.

No entanto, esse risco não é estático.

Fatores como idade, índice de massa corporal, tabagismo, sedentarismo, histórico pessoal ou familiar de trombose, presença de trombofilias hereditárias, uso concomitante de estrogênio e períodos de imobilização prolongada podem modificar significativamente o perfil de risco trombótico ao longo da vida.

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Fisiopatologia da trombose associada aos anticoncepcionais hormonais

Os mecanismos envolvidos na trombose associada aos anticoncepcionais hormonais são multifatoriais e ainda não totalmente esclarecidos.

Evidências atuais indicam que os efeitos trombogênicos dos contraceptivos orais combinados estão, em grande parte, relacionados à ação do estrogênio sobre o sistema hemostático. Entre as principais alterações descritas estão o aumento da síntese de fatores pró-coagulantes, como fatores VII, VIII, X e fibrinogênio, e a redução da atividade de anticoagulantes naturais, como proteína S e antitrombina.

Além disso, há impacto direto sobre o endotélio vascular, que possui receptores para estrogênio e progesterona, favorecendo um estado pró-inflamatório e pró-trombótico.

Alterações no sistema fibrinolítico, na função plaquetária, na regulação do fator tecidual mediada por microRNAs, bem como mudanças nos níveis de óxido nítrico, homocisteína e lipoproteína(a), também contribuem para o desenvolvimento de um estado de hipercoagulabilidade em usuárias de anticoncepcionais hormonais.

Por que o verão pode aumentar o risco trombótico?

Existe uma relação entre o verão e risco de trombose: durante essa estação, surgem questionamentos frequentes na prática clínica sobre a segurança do uso de anticoncepcionais hormonais em função das altas temperaturas.

Evidências científicas recentes indicam que temperaturas ambientais não ideais, especialmente o calor extremo, estão associadas a um aumento da incidência de doenças tromboembólicas, incluindo tromboembolismo venoso, embolia pulmonar, acidente vascular cerebral isquêmico e síndrome coronariana aguda.

Estudos observacionais e análises de séries temporais demonstram que a elevação da temperatura ambiente está associada a alterações consistentes nos parâmetros de coagulação, como o encurtamento do tempo de protrombina (TP) e do tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa), além do aumento dos níveis de fibrinogênio.

Esses achados sugerem uma ativação das vias intrínseca e extrínseca da coagulação, favorecendo um estado pró-trombótico.

Calor, desidratação e hipercoagulabilidade

Entre os principais mecanismos que explicam a associação entre altas temperaturas e trombose está a desidratação, comum em períodos de calor intenso.

A perda de líquidos leva ao aumento da viscosidade plasmática e à elevação das concentrações de fatores de coagulação, como fibrinogênio, fator VIII e fator de von Willebrand. O estresse térmico também induz resposta inflamatória sistêmica, com aumento de marcadores inflamatórios que contribuem para a ativação da cascata de coagulação.

Outro fator relevante é a exposição prolongada ao calor, que pode desencadear disfunção endotelial e liberação de fator tecidual, além de potencializar estados pró-coagulantes já existentes. Estudos sugerem que esses efeitos podem ser mais pronunciados em mulheres, reforçando a importância da discussão no contexto do uso de anticoncepcionais hormonais.

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Anticoncepcionais e trombose no verão: risco real ou teórico?

Será que o uso de anticoncepcional no verão aumenta risco de trombose?

Apesar das evidências de que o calor influencia a coagulação sanguínea, é fundamental diferenciar o risco teórico do risco clínico real.

Para a maioria das mulheres jovens, saudáveis e sem fatores de risco adicionais, não há indicação de suspensão dos anticoncepcionais hormonais durante o verão. O risco absoluto de trombose permanece baixo, e a interrupção do método pode resultar em gravidez não planejada, com potenciais impactos à saúde.

No entanto, a relação entre verão e risco de trombose representa uma oportunidade estratégica para reavaliar o perfil individual de risco trombótico, reforçar orientações sobre hidratação adequada, incentivar a mobilização durante viagens prolongadas e discutir alternativas contraceptivas em mulheres com risco elevado, como aquelas com histórico prévio de trombose ou múltiplos fatores predisponentes.

Implicações clínicas do uso de anticoncepcionais no verão

Mais do que gerar alarme, a relação entre anticoncepcionais e risco trombótico no verão deve ser encarada como um convite à medicina individualizada e baseada em evidências. A prescrição segura envolve avaliação criteriosa, acompanhamento periódico e educação da paciente quanto aos sinais de alerta para trombose, como dor e edema em membros inferiores, dispneia súbita e dor torácica.

Em síntese, o verão não transforma, por si só, os anticoncepcionais hormonais em vilões. O que realmente muda é a necessidade de atenção aos fatores contextuais, reforçando medidas preventivas simples e decisões clínicas informadas, sempre centradas no perfil de risco de cada mulher.

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Referências:

Khizroeva, J.; Bitsadze, V.; Sukhikh, G.; Tretyakova, M.; Gris, J.-C.; Elalamy, I.; Gerotziafas, G.; Kapanadze, D.; Kvaratskheliia, M.; Tatarintseva, A.; et al. Combined Oral Contraceptives and the Risk of Thrombosis. Int. J. Mol. Sci. 2025, 26, 11010.

Zhang et al. The association between short-term apparent temperature exposure and human coagulation: A time-series study from Beijing, 2014–2023. Environment International 195 (2025) 109262

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