Amiodarona: por que um dos antiarrítmicos mais usados exige tanta cautela clínica

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Amiodarona: mecanismo de ação e propriedades farmacológicas

A amiodarona é um fármaco antiarrítmico classificado predominantemente como classe III. Seu principal mecanismo de ação envolve o bloqueio dos canais de potássio, resultando em prolongamento do potencial de ação e do período refratário no tecido miocárdico.

Além disso, a amiodarona também interfere nos canais de sódio e cálcio, reduzindo a velocidade de condução elétrica, especialmente no nó atrioventricular, e exerce um efeito inibitório sobre a estimulação adrenérgica, contribuindo para a diminuição da automaticidade e da resposta simpática cardíaca.

Esses efeitos combinados explicam sua eficácia no controle de arritmias supraventriculares e ventriculares, inclusive em contextos de instabilidade hemodinâmica.

Do ponto de vista farmacocinético, a amiodarona apresenta características singulares que impactam diretamente sua prescrição e monitorização clínica. A absorção oral é lenta e variável, com biodisponibilidade estimada entre 30% e 80%, o que contribui para grande variabilidade interindividual na resposta terapêutica.

Após a administração, o fármaco exibe extensa distribuição tecidual, refletida por um volume de distribuição elevado, que pode variar aproximadamente de 40 a 84 L/kg pela via endovenosa e em torno de 66 L/kg pela via oral.

Mais de 96% da amiodarona liga-se às proteínas plasmáticas, favorecendo seu acúmulo em tecidos como pulmões, fígado, pele e tecido adiposo.

O pico de concentração plasmática ocorre geralmente entre 3 e 7 horas após a administração oral, enquanto sua meia-vida extremamente prolongada, que pode variar de 20 a 100 dias, é uma das características mais relevantes do fármaco.

Essa meia-vida longa decorre tanto do grande volume de distribuição quanto da liberação lenta a partir dos compartimentos teciduais, explicando por que os efeitos terapêuticos (e os adversos) podem persistir por semanas ou meses após a suspensão do medicamento.

A droga é metabolizada predominantemente no fígado, principalmente pelas isoenzimas CYP3A4 e CYP2C8, com formação de um metabólito ativo que contribui para sua ação antiarrítmica.

Há evidências de recirculação entero-hepática, o que reforça ainda mais sua permanência prolongada no organismo. A excreção ocorre por meio da urina e das fezes, sendo mínima a eliminação renal direta, aspecto relevante em pacientes com disfunção renal.

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Quando usar amiodarona: indicações clínicas

A amiodarona é indicada no tratamento de distúrbios graves do ritmo cardíaco, especialmente em situações nas quais outras terapêuticas antiarrítmicas se mostraram ineficazes ou contraindicadas.

Sua ampla ação eletrofisiológica permite o uso tanto em arritmias ventriculares quanto em arritmias supraventriculares, com eficácia clínica bem estabelecida.

Entre as principais indicações, destaca-se o manejo da taquicardia ventricular sintomática, condição potencialmente grave, na qual a amiodarona pode ser utilizada para controle do ritmo e prevenção de recorrências.

O fármaco também é empregado no tratamento da taquicardia supraventricular sintomática, incluindo a taquicardia atrial, sobretudo quando há falha de outras estratégias farmacológicas.

A fibrilação atrial constitui outra indicação importante da amiodarona, sendo utilizada tanto para o controle do ritmo quanto, em contextos específicos, para manutenção do ritmo sinusal após cardioversão.

Além disso, a amiodarona é indicada em alterações do ritmo associadas à síndrome de Wolff–Parkinson–White, situação em que seu efeito sobre múltiplos canais iônicos contribui para o controle da condução anômala.

Por fim, a fibrilação ventricular, arritmia de extrema gravidade e risco iminente de morte, também figura entre as indicações da amiodarona, particularmente em cenários de emergência e ressuscitação, reforçando seu papel como um dos antiarrítmicos mais versáteis e potentes da prática clínica.

Quando não usar amiodarona: contraindicações e cuidados especiais

A amiodarona é contraindicada em pacientes com hipersensibilidade à própria amiodarona ou a qualquer componente da fórmula, bem como em indivíduos com hipersensibilidade ao iodo, dada a composição do fármaco.

Seu uso também é contraindicado na presença de distúrbios significativos da condução cardíaca, como bloqueio sinoatrial ou atrioventricular, e em casos de bradicardia grave, devido ao risco de agravamento da disfunção do sistema de condução.

Outras contraindicações da amiodarona incluem choque cardiogênico e hipotensão, situações nas quais os efeitos hemodinâmicos da amiodarona podem comprometer ainda mais a estabilidade do paciente.

O medicamento também não deve ser utilizado em indivíduos com disfunção tireoidiana ou disfunção pulmonar, considerando seu impacto direto sobre esses sistemas e o risco de toxicidade associada ao uso prolongado.

A gestação e a lactação constituem contraindicações importantes ao uso da amiodarona.

Na gravidez, o fármaco é classificado como categoria D, o que indica evidência positiva de risco fetal em estudos em humanos. Embora os benefícios potenciais possam, em situações excepcionais, superar os riscos (especialmente na ausência de alternativas seguras), a amiodarona deve ser evitada ao máximo, sendo reservada apenas para casos de última instância.

Durante a amamentação, o uso é contraindicado, uma vez que a amiodarona é excretada no leite materno em quantidades consideráveis. Além disso, devido à sua meia-vida prolongada, tanto o fármaco quanto seu metabólito ativo podem permanecer presentes no leite materno por semanas após a interrupção da terapia, aumentando o risco de exposição neonatal.

Em pacientes com insuficiência hepática, a amiodarona deve ser utilizada com cautela, sendo recomendada a avaliação cuidadosa da necessidade de redução da dose ou interrupção do tratamento, conforme a evolução clínica.

Da mesma forma, no uso geriátrico, o fármaco exige atenção especial, com monitorização rigorosa, devido à maior suscetibilidade a efeitos adversos nessa população.

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Efeitos adversos da amiodarona e principais advertências

O uso da amiodarona está associado a uma ampla gama de efeitos adversos, que podem acometer múltiplos sistemas, refletindo tanto seu potente efeito antiarrítmico quanto sua extensa distribuição tecidual e meia-vida prolongada.

No sistema cardiovascular, os efeitos colaterais incluem bradicardia, geralmente de caráter dose-dependente, além de hipotensão, edema, bloqueio atrioventricular e outras arritmias, como fibrilação atrial e taquicardia ventricular.

Há relatos de piora ou surgimento de novas arritmias durante o tratamento, o que reforça a necessidade de monitorização cuidadosa, especialmente em pacientes com distúrbios prévios da condução. Diante de bloqueio AV de segundo ou terceiro grau, bloqueio sinoatrial ou bloqueio bifascicular, recomenda-se a descontinuação do medicamento.

Entre os efeitos metabólicos e gerais, destacam-se distúrbios hepáticos, fadiga, redução da libido, insuficiência renal e febre.

Alterações da função tireoidiana são frequentes, podendo ocorrer tanto hipertireoidismo quanto hipotireoidismo, inclusive durante o tratamento ou meses após sua interrupção. O fármaco inibe a conversão periférica de T4 em T3, e, na identificação de redução do TSH ultrassensível, está indicada a suspensão do uso. Em casos de tireotoxicose, devem ser adotadas medidas de suporte imediatamente.

No sistema respiratório, a toxicidade pulmonar representa um dos efeitos adversos mais graves associados à amiodarona. Diante de suspeita clínica, recomenda-se a realização de radiografia de tórax e a reavaliação do tratamento, considerando a interrupção do medicamento conforme a evolução do quadro.

Os efeitos neuropsiquiátricos incluem tremor extrapiramidal, parestesias, sonolência, cefaleia, pesadelos e distúrbios do sono, além do risco de neuropatia sensitivo-motora periférica e miopatia, que devem ser considerados durante o acompanhamento clínico.

No trato gastrointestinal, podem ocorrer náuseas e vômitos, geralmente relacionados ao início da terapia ou a ajustes de dose.

Manifestações dermatológicas são relativamente comuns e incluem fotossensibilidade e descoloração da pele exposta ao sol, havendo relatos de reações cutâneas graves. Por esse motivo, recomenda-se orientar os pacientes quanto à proteção contra a luz ultravioleta durante o uso do medicamento.

Alterações oftalmológicas também podem ocorrer, como microdepósitos corneanos e visão borrada, sendo indicado acompanhamento oftalmológico em casos de uso prolongado.

Do ponto de vista laboratorial, observa-se com frequência o aumento das transaminases séricas. Caso esses valores ultrapassem três vezes o limite superior da normalidade, está indicada a descontinuação da amiodarona.

Além disso, pacientes que utilizam o fármaco antes de um transplante cardíaco apresentam maior risco de disfunção primária do enxerto, o que deve ser considerado na avaliação pré-transplante.

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A amiodarona é um fármaco amplamente utilizado na prática clínica, mas que exige conhecimento aprofundado, avaliação criteriosa das indicações e monitorização cuidadosa ao longo do tratamento.

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Referências:

ATLANSIL® (cloridrato de amiodarona). Sanofi Medley Farmacêutica Ltda. Bula de medicamento.

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Hamilton, D., Sr, Nandkeolyar, S., Lan, H., Desai, P., Evans, J., Hauschild, C., Choksi, D., Abudayyeh, I., Contractor, T., & Hilliard, A. (2020). Amiodarone: A Comprehensive Guide for Clinicians. American journal of cardiovascular drugs : drugs, devices, and other interventions, 20(6), 549–558. https://doi.org/10.1007/s40256-020-00401-5

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